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O clima possui forte influência sobre a videira, sendo importante na definição
das potencialidades das regiões para a cultura. Ele interage com os demais
componentes do meio natural, em particular com o solo, assim como com
a cultivar e com as técnicas de cultivo da videira.
Pode-se afirmar que grande parte da diversidade encontrada
nos produtos vitivinícolas, seja quanto aos tipos de produtos, seja no
que diz respeito aos aspectos qualitativos e de tipicidade, deve-se ao
efeito do clima das regiões vitícolas. Devem-se considerar três conceitos
para diferenciar escalas climáticas de interesse da viticultura:
a) macroclima, ou clima regional, que corresponde ao clima médio
ocorrente num território relativamente vasto, exigindo, para sua caracterização,
de dados de um conjunto de postos meteorológicos; em zonas com relevo
acentuado os dados macroclimáticos possuem um valor apenas relativo, especialmente
no que se refere à viticultura. Inversamente, um mesmo macroclima poderá
englobar áreas de planície muito extensas.
b) mesoclima, ou clima local, que corresponde a uma situação particular
do macroclima. Normalmente é possível caracterizar um mesoclima através
dos dados de uma estação meteorológica, permitindo avaliar as possibilidades
da cultura da uva. A superfície abrangida por um mesoclima pode ser muito
variável mas, nas regiões vitícolas, trata-se normalmente de áreas relativamente
pequenas podendo fazer referência a situações bastante particulares do
ponto de vista de exposição, declividade ou altitude, por exemplo. Muitas
vezes o termo topoclima é utilizado para designar um mesoclima onde a
orografia constitui um dos critérios principais de identificação, como
por exemplo o clima de um vale ou de uma encosta de montanha.
c) microclima, que corresponde às condições climáticas de uma superfície
realmente pequena. Pode-se considerar dois tipos de microclima (Carbonneau,
1984):
microclima natural - que corresponde a superfícies da ordem de
10 m a 100 m; e,
microclima da planta - o qual é caracterizado por variáveis climáticas
medidas por aparelhos instalados na própria videira. O termo genérico
de bioclima é utilizado para essa escala que visa o estudo do meio
natural e das técnicas de cultivo.
A influência do clima, considerando os principais elementos
meteorológicos e fatores geográficos do clima sobre a videira, é descrita
a seguir, em particular nas escalas macro e mesoclimáticas.
Elementos
Meteorológicos do Clima
O clima das regiões vitivinícolas brasileiras produtoras
de vinhos finos
O clima na tipicidade dos vinhos brasileiros
Temperatura
A temperatura do ar apresenta diferentes efeitos sobre a videira,
variáveis em função das diferentes fases do ciclo vegetativo ou de repouso
da planta.
-
Temperaturas
de inverno: a videira é bastante resistente às baixas temperaturas
na estação do inverno, quando se encontra em período de repouso vegetativo.
Ela pode suportar, sem que haja a morte da planta, temperaturas mínimas
de até -10,0°C a -20,0°C no caso da espécie Vitis vinifera
L. O frio invernal é importante para a quebra de dormência das gemas,
no sentido de assegurar uma brotação adequada para a videira. Em condições
de pouco frio invernal, que podem ocorrer nos climas subtropicais,
torna-se necessário a adoção de tratamentos e práticas culturais adequados
visando garantir uma porcentagem satisfatória de brotação das videiras.
-
Temperaturas
de primavera: de forma genérica considera-se a temperatura de
10°C como mínima para que possa haver desenvolvimento vegetativo;
do final do inverno ao início da primavera, quando ocorre a brotação
das videiras, temperaturas baixas podem ocasionar geadas tardias que
causam a destruição dos órgãos herbáceos da planta. Assim, regiões
com elevado risco de geadas durante o período vegetativo da videira
devem ser evitadas. O plantio de cultivares de brotação tardia em
locais com riscos baixos a moderados de geadas é prática corrente
na viticultura. No período de floração da videira, temperaturas iguais
ou superiores a 18°C são favoráveis, sobretudo se associadas a dias
com bastante insolação e pouca umidade.
-
Temperaturas
de verão: a maior atividade fotossintética é obtida na faixa de
temperaturas que vai de 20°C a 25°C, sendo que temperaturas a partir
de 35 °C são excessivas. Na estação de verão, a qual via-de-regra
coincide com o período de maturação das uvas, temperaturas diurnas
amenas - possibilitando um período de maturação mais lento são favoráveis
à qualidade. Igualmente a ocorrência de noites relativamente frias
favorece o acumulo de polifenóis, especialmente as antocianas nas
cultivares tintas e a intensidade dos aromas nas cultivares brancas.
Condições térmicas muito quentes podem resultar na obtenção de uvas
com maiores teores de açúcares, porém com baixa acidez.
-
Temperaturas
de outono: elas afetam o comprimento do ciclo vegetativo da videira,
que é importante para a maturação dos ramos e o acúmulo de reservas
pela planta. A ocorrência de geadas outonais (precoces) acelera a
queda das folhas e o fim do ciclo vegetativo da planta.
Insolação e radiação
solar
A videira é uma planta exigente em luz, requerendo elevada insolação
durante o período vegetativo, fator importante no processo da fotossíntese,
bem como na definição da composição química da uva. A radiação solar recebida
pela planta em determinado local é função da latitude, do período do ano,
da nebulosidade, da topografia e da altitude, dentre outros. Normalmente
uma maior insolação está correlacionada a um menor número de dias de chuva,
o que é favorável, já que as condições brasileiras são de alta umidade
no sul do Brasil. Os anos de maior insolação produzem uvas com bons teores
de açúcares e com acidez adequada. De uma maneira geral, elevada insolação,
quando aliada ao excesso de calor, é prejudicial à qualidade dos produtos
para a agroindústria, resultando em mostos pouco equilibrados, com baixa
acidez.
Pluviometria
A precipitação pluviométrica é um dos elementos mais importantes
do clima em viticultura. A videira é uma cultura bastante resistente à
seca. Existem regiões que produzem, sem irrigação, com precipitação pluviométrica
de apenas 250 mm a 350 mm no período que vai da brotação até a maturação
das uvas. Existem regiões onde ela subsiste em condições ainda mais secas.
A demanda hídrica da videira varia em função das diferentes fases do ciclo
vegetativo. Para a determinação de suas necessidades hídricas deve-se
considerar, também, o tipo de solo e a cobertura do mesmo (vegetado ou
não vegetado).
Para a videira interfere não somente a quantidade de chuvas,
mas sua intensidade e o número de dias ou de horas em que ela ocorre.
Ainda, deve-se ter em conta eventuais perdas por escorrimento superficial
ou por percolação.
As chuvas de inverno têm pouca influência sobre a videira,
mas são importantes para as reservas hídricas do solo, necessárias para
o início do ciclo vegetativo da videira. Durante a primavera, as chuvas
são importantes para o desenvolvimento da planta, porém, quando em excesso,
favorecem a ocorrência de algumas doenças fúngicas da parte aérea.
De uma maneira geral, observa-se que nas condições sul-brasileiras
médias, as chuvas de verão ocorrentes caracterizam um clima de ausência
de seca para a videira. Elas tendem a ser excedentárias. Em períodos chuvosos
durante a fase de maturação das uvas, verifica-se com freqüência a colheita
antecipada das uvas, em relação ao ponto ótimo de colheita. Essa prática
adotada pelo viticultor para evitar perdas de colheita causadas por podridões
do cacho impõe limites à qualidade das uvas destinadas à agroindústria.
Após a colheita das uvas, a importância das chuvas diminui,
podendo resultar em crescimento da planta e na ocorrência de doenças fúngicas
da parte aérea.
Cabe destacar que a ocorrência de granizo é um fenômeno
prejudicial à viticultura, onde os maiores danos são causados durante
o período do ciclo vegetativo que vai da brotação à colheita das uvas.
Umidade relativa
do ar
A umidade relativa do ar é importante para a viticultura. Climas
mais áridos possuem menor umidade relativa do ar e, climas mais úmidos,
como o encontrado nas condições sul-brasileiras, apresentam umidade mais
elevada. Tais condições são favoráveis à ocorrência de certas doenças
fúngicas. Estimulam também o desenvolvimento vegetativo da videira.
Ventos
As correntes de ar que trazem massas de ar com diferentes características
repercutem sobre as condições meteorológicas, com implicações sobre a
temperatura e a umidade, bem como sobre a evapotranspiração do vinhedo.
Ventos fortes podem causar danos à vegetação, com a quebra dos ramos.
Na floração uma brisa ligeira é favorável à disseminação do pólen.
Além dos elemento meteorológicos referidos é importante
salientar a importância da reserva hídrica do solo. Ela é função da capacidade
de retenção de água do solo, do aporte de água pela chuva e irrigação,
das perdas por escorrimento superficial e por percolação, e da evapotranspiração
do vinhedo, que inclui a transpiração da planta e a evaporação do solo.
As condições de disponibilidade hídrica do solo para a videira, nos diferentes
estádios da planta afetam o desenvolvimento e o vigor dos ramos, influenciando
a qualidade da uva destinada à agroindustrialização.
Fatores geográficos
do clima
-
Latitude:
a latitude implica num efeito sobre a temperatura do ar, a qual diminui
a partir do Equador à medida em que aumenta a latitude em direção
aos Pólos. A latitude é também determinante no fotoperíodo e na radiação
solar total recebida nas diferentes estações do ano.
No Brasil, a viticultura destinada à agroindústria,
é encontrada desde os 8° (Vale do Submédio São Francisco) até os 32°
de latitude Sul (Serra do Sudeste no Estado do Rio Grande do Sul).
Está, portanto, localizada em latitudes baixas a médias, situação
bastante diversa da viticultura desenvolvida nas latitudes mais elevadas
das regiões setentrionais da Europa e da América do Norte, onde a
viticultura chega até os 52º de latitude Norte, e onde o efeito do
fotoperíodo maior é decisivo para viabilizar o cultivo da videira.
-
Altitude:
o efeito mais importante da altitude para a viticultura é o térmico,
já que 100 metros de elevação representam diminuição ao redor de 0,6°C
na temperatura média do ar. Alguns países quentes buscam obter condições
térmicas mais favoráveis à viticultura em zonas de maior altitude,
compensando em certa medida o efeito latitude.
No Brasil, onde as condições térmicas tendem a ser elevadas,
a busca de áreas de altitude é observada nas principais regiões de
produção, visando condições de produção menos quentes e a valorização
da qualidade dos produtos na viticultura clássica de uma colheita
por ano. São comuns altitudes superiores a 600 m no Rio Grande do
Sul, podendo chegar a mais de 1.200 m em São Joaquim, Santa Catarina.
Exposição e declividade
As condições de relevo possibilitam a seleção de áreas para a viticultura
com um mesoclima particular. Para a viticultura sul-brasileira é o caso
das encostas com exposição Norte. Normalmente, as encostas são menos férteis
que as condições de fundo dos vales e com maior insolação e drenagem,
possibilitam colheitas menos abundantes, porém geralmente com melhor qualidade.
As condições de declividade do terreno irão definir, juntamente
com a exposição, a incidência de maior ou menor insolação. Situações de
alta declividade do terreno não são recomendadas, seja pelos riscos de
erosão, seja pela dificuldade de mecanização.
Maritimidade
Pela sua condição oriental no continente americano, o Brasil sofre
forte influência oceânica, com implicações sobre o clima das regiões vitivinícolas.
Embora existam condições onde a posição geográfica apresenta alguma continentalidade
- como a região da Campanha no Estado do Rio Grande do Sul, o efeito sobre
as amplitudes térmicas anuais não chega a ser elevado, como ocorre nos
climas de tipo continental.
A viticultura mundial destinada à agroindústria está sobretudo
concentrada entre 30º e 50º de latitude Norte e entre 30º e 45º de latitude
Sul. Os principais climas ocorrentes são os climas de tipo temperado,
de tipo mediterrâneo e climas com diferentes níveis de aridez. No Brasil
os tipos de clima ocorrentes nas regiões vitivinícolas produtoras de vinhos
finos com uma colheita anual são de tipo temperado e subtropical.
As Figuras 1 e 2 exemplificam condições do regime térmico,
de chuvas e de insolação em regiões vitivinícolas produtoras de vinhos
finos nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, respectivamente,
ambos localizados no Sul do Brasil. Nelas observa-se que o regime térmico
é bastante diverso em função da região, sendo que as temperaturas mais
elevadas encontram-se na Campanha (Figura
1) e as mais amenas em São Joaquim (Figura
2). A insolação também é bastante variável, sendo maior nas regiões
da metade sul do Rio Grande do Sul. A distribuição das chuvas ocorre de
forma bastante homogênea ao longo do ano nas regiões da Serra Gaúcha,
Alto Vale do Rio do Peixe e São Joaquim, com valores médios sempre superiores
a 100 ou 120 mm mensais. Já na Campanha e na Serra do Sudeste, em alguns
meses as chuvas são um pouco inferiores a 100 mm mensais em média. Registra-se
o fato de as figuras 1 e 2 apresentam apenas uma condição climática para
cada região, a qual seria mais diversificada caso fosse analisada a variabilidade
do conjunto geográfico compreendido pela região.
Estas situações caracterizam condições macroclimáticas diferenciadas,
com importantes reflexos sobre o comportamento fisiológico da videira
e sobre o potencial qualitativo das uvas produzidas em cada região. Tais
características indicam também que cada região encontrará melhores condições
para a produção de certas variedades, bem como tipos de vinhos.
A tabela 1 apresenta
a data média de brotação e da colheita, bem como o número médio de dias
e a soma térmica da brotação à colheita de algumas cultivares de videiras
da Serra Gaúcha. A brotação inicia na 3ª década de agosto para as cultivares
precoces e se estende até o final de setembro para as cultivares tardias.
A data da colheita concentra-se no período que vai da 3ª década de janeiro
até a 1ª década de março, respectivamente para as cultivares de maturação
precoce e tardia. Verifica-se que cada variedade necessita de uma soma
térmica distinta para atingir a maturação das uvas. Tais valores, que
variam entre 1.200 e 1.600 graus-dia para as diferentes cultivares listadas
na tabela 1, podem ser utilizados para estimar a data
de colheita em outras regiões. Observa-se, no entanto, que esta estimativa
pode ser apenas aproximada já que em distintas regiões ocorrem interações
entre o clima, a variedade, o solo e as condições de manejo.
Em cada região produtora, as variáveis climáticas apresentam
comportamento diferenciado ao longo do ano, incluindo as temperaturas,
a insolação, a precipitação pluviométrica e os índices climáticos vitícolas
(tabela 2). As regiões com maior índice térmico
eficaz apresentam uma data de colheita mais precoce que as de menor índice.
A tabela 2 apresenta, ainda, a classificação
das regiões, para os mesoclimas apresentados, segundo o "Sistema de Classificação
Climática Multicritério Geovitícola", demonstrando o enquadramento das
regiões em distintas classes de clima em relação ao potencial heliotérmico
e regime hídrico do ciclo da videira e à condição nictotérmica afeta à
maturação das uvas.
Os fatores de qualidade dos vinhos e outros produtos vitivinícolas
nas diferentes regiões é função do clima, do solo, da cultivar, das técnicas
de cultivo e dos sistemas de processamento empregados.
As características climáticas da vitivinicultura brasileira
são bastante particulares e distintas daquelas encontradas na maioria
dos países vitivinícolas. Tal situação confere aos produtos um conjunto
de características e uma tipicidade própria. Essa tipicidade deve-se em
grande parte ao efeito clima. Resulta, igualmente, da ampla gama de cultivares
utilizadas. Os vinhos produzidos de uvas européias apresentam tipicidade
que varia de região para região nas condições brasileiras.

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