Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 4
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jul./2003

Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado

Jorge Tonietto
Francisco Mandelli

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências

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Clima

    O clima possui forte influência sobre a videira, sendo importante na definição das potencialidades das regiões para a cultura. Ele interage com os demais componentes do meio natural, em particular com o solo, assim como com a cultivar e com as técnicas de cultivo da videira.
    Pode-se afirmar que grande parte da diversidade encontrada nos produtos vitivinícolas, seja quanto aos tipos de produtos, seja no que diz respeito aos aspectos qualitativos e de tipicidade, deve-se ao efeito do clima das regiões vitícolas. Devem-se considerar três conceitos para diferenciar escalas climáticas de interesse da viticultura:
a) macroclima, ou clima regional, que corresponde ao clima médio ocorrente num território relativamente vasto, exigindo, para sua caracterização, de dados de um conjunto de postos meteorológicos; em zonas com relevo acentuado os dados macroclimáticos possuem um valor apenas relativo, especialmente no que se refere à viticultura. Inversamente, um mesmo macroclima poderá englobar áreas de planície muito extensas.
b) mesoclima, ou clima local, que corresponde a uma situação particular do macroclima. Normalmente é possível caracterizar um mesoclima através dos dados de uma estação meteorológica, permitindo avaliar as possibilidades da cultura da uva. A superfície abrangida por um mesoclima pode ser muito variável mas, nas regiões vitícolas, trata-se normalmente de áreas relativamente pequenas podendo fazer referência a situações bastante particulares do ponto de vista de exposição, declividade ou altitude, por exemplo. Muitas vezes o termo topoclima é utilizado para designar um mesoclima onde a orografia constitui um dos critérios principais de identificação, como por exemplo o clima de um vale ou de uma encosta de montanha.
c) microclima, que corresponde às condições climáticas de uma superfície realmente pequena. Pode-se considerar dois tipos de microclima (Carbonneau, 1984):
microclima natural - que corresponde a superfícies da ordem de 10 m a 100 m; e,
microclima da planta - o qual é caracterizado por variáveis climáticas medidas por aparelhos instalados na própria videira. O termo genérico de bioclima é utilizado para essa escala que visa o estudo do meio natural e das técnicas de cultivo.
    A influência do clima, considerando os principais elementos meteorológicos e fatores geográficos do clima sobre a videira, é descrita a seguir, em particular nas escalas macro e mesoclimáticas.

Elementos Meteorológicos do Clima
O clima das regiões vitivinícolas brasileiras produtoras de vinhos finos
O clima na tipicidade dos vinhos brasileiros

Elementos Meteorológicos do Clima

Temperatura

    A temperatura do ar apresenta diferentes efeitos sobre a videira, variáveis em função das diferentes fases do ciclo vegetativo ou de repouso da planta.

  • Temperaturas de inverno: a videira é bastante resistente às baixas temperaturas na estação do inverno, quando se encontra em período de repouso vegetativo. Ela pode suportar, sem que haja a morte da planta, temperaturas mínimas de até -10,0°C a -20,0°C no caso da espécie Vitis vinifera L. O frio invernal é importante para a quebra de dormência das gemas, no sentido de assegurar uma brotação adequada para a videira. Em condições de pouco frio invernal, que podem ocorrer nos climas subtropicais, torna-se necessário a adoção de tratamentos e práticas culturais adequados visando garantir uma porcentagem satisfatória de brotação das videiras.

  • Temperaturas de primavera: de forma genérica considera-se a temperatura de 10°C como mínima para que possa haver desenvolvimento vegetativo; do final do inverno ao início da primavera, quando ocorre a brotação das videiras, temperaturas baixas podem ocasionar geadas tardias que causam a destruição dos órgãos herbáceos da planta. Assim, regiões com elevado risco de geadas durante o período vegetativo da videira devem ser evitadas. O plantio de cultivares de brotação tardia em locais com riscos baixos a moderados de geadas é prática corrente na viticultura. No período de floração da videira, temperaturas iguais ou superiores a 18°C são favoráveis, sobretudo se associadas a dias com bastante insolação e pouca umidade.

  • Temperaturas de verão: a maior atividade fotossintética é obtida na faixa de temperaturas que vai de 20°C a 25°C, sendo que temperaturas a partir de 35 °C são excessivas. Na estação de verão, a qual via-de-regra coincide com o período de maturação das uvas, temperaturas diurnas amenas - possibilitando um período de maturação mais lento são favoráveis à qualidade. Igualmente a ocorrência de noites relativamente frias favorece o acumulo de polifenóis, especialmente as antocianas nas cultivares tintas e a intensidade dos aromas nas cultivares brancas. Condições térmicas muito quentes podem resultar na obtenção de uvas com maiores teores de açúcares, porém com baixa acidez.

  • Temperaturas de outono: elas afetam o comprimento do ciclo vegetativo da videira, que é importante para a maturação dos ramos e o acúmulo de reservas pela planta. A ocorrência de geadas outonais (precoces) acelera a queda das folhas e o fim do ciclo vegetativo da planta.

Insolação e radiação solar

    A videira é uma planta exigente em luz, requerendo elevada insolação durante o período vegetativo, fator importante no processo da fotossíntese, bem como na definição da composição química da uva. A radiação solar recebida pela planta em determinado local é função da latitude, do período do ano, da nebulosidade, da topografia e da altitude, dentre outros. Normalmente uma maior insolação está correlacionada a um menor número de dias de chuva, o que é favorável, já que as condições brasileiras são de alta umidade no sul do Brasil. Os anos de maior insolação produzem uvas com bons teores de açúcares e com acidez adequada. De uma maneira geral, elevada insolação, quando aliada ao excesso de calor, é prejudicial à qualidade dos produtos para a agroindústria, resultando em mostos pouco equilibrados, com baixa acidez.

Pluviometria

    A precipitação pluviométrica é um dos elementos mais importantes do clima em viticultura. A videira é uma cultura bastante resistente à seca. Existem regiões que produzem, sem irrigação, com precipitação pluviométrica de apenas 250 mm a 350 mm no período que vai da brotação até a maturação das uvas. Existem regiões onde ela subsiste em condições ainda mais secas. A demanda hídrica da videira varia em função das diferentes fases do ciclo vegetativo. Para a determinação de suas necessidades hídricas deve-se considerar, também, o tipo de solo e a cobertura do mesmo (vegetado ou não vegetado).
    Para a videira interfere não somente a quantidade de chuvas, mas sua intensidade e o número de dias ou de horas em que ela ocorre. Ainda, deve-se ter em conta eventuais perdas por escorrimento superficial ou por percolação.
    As chuvas de inverno têm pouca influência sobre a videira, mas são importantes para as reservas hídricas do solo, necessárias para o início do ciclo vegetativo da videira. Durante a primavera, as chuvas são importantes para o desenvolvimento da planta, porém, quando em excesso, favorecem a ocorrência de algumas doenças fúngicas da parte aérea.
    De uma maneira geral, observa-se que nas condições sul-brasileiras médias, as chuvas de verão ocorrentes caracterizam um clima de ausência de seca para a videira. Elas tendem a ser excedentárias. Em períodos chuvosos durante a fase de maturação das uvas, verifica-se com freqüência a colheita antecipada das uvas, em relação ao ponto ótimo de colheita. Essa prática adotada pelo viticultor para evitar perdas de colheita causadas por podridões do cacho impõe limites à qualidade das uvas destinadas à agroindústria.
    Após a colheita das uvas, a importância das chuvas diminui, podendo resultar em crescimento da planta e na ocorrência de doenças fúngicas da parte aérea.
    Cabe destacar que a ocorrência de granizo é um fenômeno prejudicial à viticultura, onde os maiores danos são causados durante o período do ciclo vegetativo que vai da brotação à colheita das uvas.

Umidade relativa do ar

    A umidade relativa do ar é importante para a viticultura. Climas mais áridos possuem menor umidade relativa do ar e, climas mais úmidos, como o encontrado nas condições sul-brasileiras, apresentam umidade mais elevada. Tais condições são favoráveis à ocorrência de certas doenças fúngicas. Estimulam também o desenvolvimento vegetativo da videira.

Ventos

    As correntes de ar que trazem massas de ar com diferentes características repercutem sobre as condições meteorológicas, com implicações sobre a temperatura e a umidade, bem como sobre a evapotranspiração do vinhedo. Ventos fortes podem causar danos à vegetação, com a quebra dos ramos. Na floração uma brisa ligeira é favorável à disseminação do pólen.
    Além dos elemento meteorológicos referidos é importante salientar a importância da reserva hídrica do solo. Ela é função da capacidade de retenção de água do solo, do aporte de água pela chuva e irrigação, das perdas por escorrimento superficial e por percolação, e da evapotranspiração do vinhedo, que inclui a transpiração da planta e a evaporação do solo. As condições de disponibilidade hídrica do solo para a videira, nos diferentes estádios da planta afetam o desenvolvimento e o vigor dos ramos, influenciando a qualidade da uva destinada à agroindustrialização.

Fatores geográficos do clima

  • Latitude: a latitude implica num efeito sobre a temperatura do ar, a qual diminui a partir do Equador à medida em que aumenta a latitude em direção aos Pólos. A latitude é também determinante no fotoperíodo e na radiação solar total recebida nas diferentes estações do ano.
        No Brasil, a viticultura destinada à agroindústria, é encontrada desde os 8° (Vale do Submédio São Francisco) até os 32° de latitude Sul (Serra do Sudeste no Estado do Rio Grande do Sul). Está, portanto, localizada em latitudes baixas a médias, situação bastante diversa da viticultura desenvolvida nas latitudes mais elevadas das regiões setentrionais da Europa e da América do Norte, onde a viticultura chega até os 52º de latitude Norte, e onde o efeito do fotoperíodo maior é decisivo para viabilizar o cultivo da videira.

  • Altitude: o efeito mais importante da altitude para a viticultura é o térmico, já que 100 metros de elevação representam diminuição ao redor de 0,6°C na temperatura média do ar. Alguns países quentes buscam obter condições térmicas mais favoráveis à viticultura em zonas de maior altitude, compensando em certa medida o efeito latitude.
        No Brasil, onde as condições térmicas tendem a ser elevadas, a busca de áreas de altitude é observada nas principais regiões de produção, visando condições de produção menos quentes e a valorização da qualidade dos produtos na viticultura clássica de uma colheita por ano. São comuns altitudes superiores a 600 m no Rio Grande do Sul, podendo chegar a mais de 1.200 m em São Joaquim, Santa Catarina.

Exposição e declividade

    As condições de relevo possibilitam a seleção de áreas para a viticultura com um mesoclima particular. Para a viticultura sul-brasileira é o caso das encostas com exposição Norte. Normalmente, as encostas são menos férteis que as condições de fundo dos vales e com maior insolação e drenagem, possibilitam colheitas menos abundantes, porém geralmente com melhor qualidade.
    As condições de declividade do terreno irão definir, juntamente com a exposição, a incidência de maior ou menor insolação. Situações de alta declividade do terreno não são recomendadas, seja pelos riscos de erosão, seja pela dificuldade de mecanização.

Maritimidade

    Pela sua condição oriental no continente americano, o Brasil sofre forte influência oceânica, com implicações sobre o clima das regiões vitivinícolas. Embora existam condições onde a posição geográfica apresenta alguma continentalidade - como a região da Campanha no Estado do Rio Grande do Sul, o efeito sobre as amplitudes térmicas anuais não chega a ser elevado, como ocorre nos climas de tipo continental.

O clima das regiões vitivinícolas brasileiras produtoras de vinhos finos

    A viticultura mundial destinada à agroindústria está sobretudo concentrada entre 30º e 50º de latitude Norte e entre 30º e 45º de latitude Sul. Os principais climas ocorrentes são os climas de tipo temperado, de tipo mediterrâneo e climas com diferentes níveis de aridez. No Brasil os tipos de clima ocorrentes nas regiões vitivinícolas produtoras de vinhos finos com uma colheita anual são de tipo temperado e subtropical.
    As Figuras 1 e 2 exemplificam condições do regime térmico, de chuvas e de insolação em regiões vitivinícolas produtoras de vinhos finos nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, respectivamente, ambos localizados no Sul do Brasil. Nelas observa-se que o regime térmico é bastante diverso em função da região, sendo que as temperaturas mais elevadas encontram-se na Campanha (Figura 1) e as mais amenas em São Joaquim (Figura 2). A insolação também é bastante variável, sendo maior nas regiões da metade sul do Rio Grande do Sul. A distribuição das chuvas ocorre de forma bastante homogênea ao longo do ano nas regiões da Serra Gaúcha, Alto Vale do Rio do Peixe e São Joaquim, com valores médios sempre superiores a 100 ou 120 mm mensais. Já na Campanha e na Serra do Sudeste, em alguns meses as chuvas são um pouco inferiores a 100 mm mensais em média. Registra-se o fato de as figuras 1 e 2 apresentam apenas uma condição climática para cada região, a qual seria mais diversificada caso fosse analisada a variabilidade do conjunto geográfico compreendido pela região.
    Estas situações caracterizam condições macroclimáticas diferenciadas, com importantes reflexos sobre o comportamento fisiológico da videira e sobre o potencial qualitativo das uvas produzidas em cada região. Tais características indicam também que cada região encontrará melhores condições para a produção de certas variedades, bem como tipos de vinhos.
    A tabela 1 apresenta a data média de brotação e da colheita, bem como o número médio de dias e a soma térmica da brotação à colheita de algumas cultivares de videiras da Serra Gaúcha. A brotação inicia na 3ª década de agosto para as cultivares precoces e se estende até o final de setembro para as cultivares tardias. A data da colheita concentra-se no período que vai da 3ª década de janeiro até a 1ª década de março, respectivamente para as cultivares de maturação precoce e tardia. Verifica-se que cada variedade necessita de uma soma térmica distinta para atingir a maturação das uvas. Tais valores, que variam entre 1.200 e 1.600 graus-dia para as diferentes cultivares listadas na tabela 1, podem ser utilizados para estimar a data de colheita em outras regiões. Observa-se, no entanto, que esta estimativa pode ser apenas aproximada já que em distintas regiões ocorrem interações entre o clima, a variedade, o solo e as condições de manejo.
    Em cada região produtora, as variáveis climáticas apresentam comportamento diferenciado ao longo do ano, incluindo as temperaturas, a insolação, a precipitação pluviométrica e os índices climáticos vitícolas (tabela 2). As regiões com maior índice térmico eficaz apresentam uma data de colheita mais precoce que as de menor índice. A tabela 2 apresenta, ainda, a classificação das regiões, para os mesoclimas apresentados, segundo o "Sistema de Classificação Climática Multicritério Geovitícola", demonstrando o enquadramento das regiões em distintas classes de clima em relação ao potencial heliotérmico e regime hídrico do ciclo da videira e à condição nictotérmica afeta à maturação das uvas.

O clima na tipicidade dos vinhos brasileiros

    Os fatores de qualidade dos vinhos e outros produtos vitivinícolas nas diferentes regiões é função do clima, do solo, da cultivar, das técnicas de cultivo e dos sistemas de processamento empregados.
    As características climáticas da vitivinicultura brasileira são bastante particulares e distintas daquelas encontradas na maioria dos países vitivinícolas. Tal situação confere aos produtos um conjunto de características e uma tipicidade própria. Essa tipicidade deve-se em grande parte ao efeito clima. Resulta, igualmente, da ampla gama de cultivares utilizadas. Os vinhos produzidos de uvas européias apresentam tipicidade que varia de região para região nas condições brasileiras.

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