Início
Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e
medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências
Expediente
Autores |
As uvas da espécie Vitis vinifera
podem ser consumidas in natura, como passa, ou utilizadas na elaboração
de vinhos/destilados, sucos ou doces de diversos tipos. Além disso, fornecem
outros subprodutos, como corantes naturais, ácido tartárico, óleo de semente
e taninos.
Para o consumo in natura a uva, comparada a outras
frutas, apresenta os seguintes aspectos positivos: não precisa ser descascada,
o que evita o escorrimento de caldo; é facilmente manuseada, por estar
presa ao cacho; possui textura crocante e bom equilíbrio entre os sabores
doce e ácido; suporta relativamente bem a estocagem e o transporte. Seu
sabor é bastante diversificado e varia de acordo com a variedade, sendo
em geral muito apreciado pelos consumidores.
A elaboração de vinho é o principal destino das uvas Vitis
vinifera. A obtenção de vinho de qualidade depende de um grande número
de fatores naturais e humanos. A otimização desses fatores pode resultar
em um aumento significativo da qualidade do vinho, agregando valor ao
mesmo e viabilizando a atividade vitivinícola em determinada região.
O acompanhamento da maturação e a colheita em época adequada
são etapas fundamentais para a obtenção de um máximo de qualidade do vinho.
As condições de maturação da uva variam de safra para safra, razão pela
qual o seu acompanhamento deve repetir-se ano a ano. Adicionalmente, alguns
cuidados básicos na colheita contribuem em muito para a obtenção de um
grau de qualidade do vinho significativamente maior. Nesse sentido, o
presente capítulo aborda alguns aspectos da evolução da uva (com ênfase
para uvas destinadas à vinificação), os métodos de controle da maturação
e os principais aspectos a serem levados em conta por ocasião da colheita.
Maturação
Colheita
A evolução completa da maturação
da uva compreende os seguintes períodos:
-
Herbáceo - Abrange desde a
formação do grão até a mudança de cor da película da baga. Este período
varia segundo a cultivar e as condições climáticas da safra.
-
Mudança de cor - Nas uvas tintas,
a cor das bagas varia do verde ao roxo-azulado e, nas brancas, do
verde ao verde-amarelado. A mudança de cor vem acompanhada de mudanças
físicas; a baga adquire elasticidade e amolece, à medida que a maturação
avança.
-
Maturação - período que inicia
com a mudança de cor da uva e termina na colheita. Pode durar de 30
a 70 dias, dependendo da cultivar e da região de cultivo (no sul do
Brasil, as uvas Vitis vinifera são colhidas de janeiro a março;
a época de colheita varia com a cultivar, a região de cultivo, a safra
e o manejo agronômico do vinhedo). Durante a maturação, as bagas amolecem
progressivamente, devido à perda de rigidez da parede das células
da película e da polpa; ocorre um aumento no teor dos pigmentos antociânicos
(nas variedades tintas) e de açúcares (glicose e frutose), assim como
uma diminuição pronunciada da acidez.
A maturação tecnológica é o ponto da maturação a partir
do qual não há acúmulo significativo de açúcares na baga de uva, nem
expressiva queda da acidez. A maturação fisiológica diz respeito às
transformações fisiológicas e morfológicas que ocorrem na uva à medida
que a maturação avança. Por sua vez, a maturação fenólica expressa
a evolução quantitativa e qualitativa dos polifenóis da baga. A uva
é uma fruta do tipo não-climatérico, por isso não apresenta mudança
abrupta de composição e textura após a colheita.
-
Sobrematuração - Começa a partir
da maturação tecnológica. As flutuações dos teores de açúcares e ácidos
nesta fase se devem a fenômenos de diluição ou murcha das bagas, ocasionados
por ocorrência de chuvas ou de períodos de seca, respectivamente.
Por outro lado, os teores de polifenóis das cascas continuam a aumentar
nesta fase. Em regiões de verão e outono secos, essa fase caracteriza-se
por um certo dessecamento da uva.
Índices de maturação
A uva destinada à produção
de vinho é colhida segundo diferentes critérios, em função da região de
produção, do tipo de vinho a ser elaborado e das condições naturais reinantes
em uma determinada safra. No Sul do Brasil, e particularmente na Serra
Gaúcha, o critério mais utilizado é o grau glucométrico (teor de açúcar).
Isto porque o vinho é, em última análise, o produto da transformação do
açúcar da uva em álcool e em produtos secundários. Ademais, os compostos
aromáticos ou seus precursores e a concentração de compostos fenólicos
estão relacionados ao aumento do teor de açúcares.
Para a elaboração de vinhos de qualidade, todo álcool deve
ser formado via fermentação, pelas leveduras, sem adição exógena. A legislação
brasileira determina que os vinhos de mesa devem ter entre 10 e 13°GL
de álcool. Para a obtenção de 1ºGL de álcool na fermentação, são necessários
cerca de 18 g/L de açúcar na uva. Desse modo, para que o vinho contenha
pelo menos 10°GL, o mesmo deverá ser elaborado com uvas contendo 18% (180
g/L) de açúcar. Entretanto, o ideal para a sua conservação e qualidade
é que contenha entre 11,5°GL e 12,5°GL. Assim, se a uva não contiver o
teor necessário de açúcar, deve-se adicionar açúcar de cana, no início
da fermentação. Essa prática, denominada chaptalização, é legalmente autorizada
e empregada quando as condições climáticas da safra não permitem o acúmulo
de quantidade adequada de açúcar na uva. Entretanto, a mesma deve ser
feita apenas em último caso, respeitando-se o limite legal de adição de
açúcar, que é de no máximo 3°GL.
O grau glucométrico da uva é medido em escala de graus Babo,
que representa a quantidade de açúcar, em peso, existente em 100 g de
mosto (caldo da uva), ou em escala de graus Brix, que representa o teor
de sólidos solúveis totais na amostra (%/volume de mosto), 90% dos quais
são açúcares. Esta medida pode ser feita diretamente no vinhedo, com a
ajuda de um equipamento de bolso chamado refratômetro.
A medida do teor de açúcar do mosto pode ser também efetuada
na vinícola ou no laboratório, bastando para isso colher amostras de uva
representativas de todo o vinhedo, esmagá-las e colocando o mosto em proveta
de 250 mL. Com um densímetro (também conhecido como mostímetro) graduado
em °Babo ou em unidades de densidade, e com a ajuda de um termômetro e
de uma tabela, pode-se estimar os teores de açúcar em graus Brix ou Babo
e os teores de álcool potencial correspondentes.
Os açúcares predominantes na uva são a glicose e a frutose.
No início da maturação, a glicose predomina. À medida que a maturação
avança, a relação glicose/frutose diminui, chegando a um ponto em que
os teores dos dois açúcares se equivalem (maturação tecnológica). À medida
que entra-se na sobrematuração, os teores de frutose passam a ser maiores
que os de glicose.
Outro critério de medida da maturação da uva - e, portanto,
do seu potencial em produzir vinhos de qualidade - é o teor em ácidos.
Este critério normalmente é empregado juntamente com a medida do teor
de açúcar, pois o balanço entre açúcar e acidez confere ao vinho um equilíbrio
gustativo determinante para sua qualidade geral. Ao contrário dos açúcares,
os ácidos da uva (principalmente o málico) diminuem a partir da mudança
de cor, até teores que variam entre 5 e 9 g/L, para as condições climáticas
do Sul do Brasil.
A determinação da acidez tartárica (devida ao ácido tartárico)
e málica (devida ao ácido málico) da uva, somada à determinação dos açúcares,
fornece uma boa medida do estágio de maturação da uva. Nos anos 80 (século
XX), pesquisadores elaboraram um critério de medida da maturação de uvas
destinadas à vinificação, composto pela razão entre o teor de açúcares
e o quadrado do valor de pH. Uma vez que essa relação é mais precisa que
a relação açúcar/acidez, a mesma pode ser empregada para o acompanhamento
da maturação das uvas destinadas à vinificação, visando a determinação
da melhor época de colheita.
A maturação fenólica é a determinação quantitativa e qualitativa
dos principais polifenóis de importância enológica da uva (pigmentos e
taninos). Trata-se de uma importante ferramenta na definição da maturação
de uvas tintas, servindo para definir a melhor época de colheita e o potencial
de qualidade em uma determinada safra ou região de cultivo. No estudo
da maturação fenólica coleta-se uma amostra representativa do vinhedo
a ser estudado. A partir dela, separam-se sementes e cascas. Das primeiras
são extraídos os taninos, via processo de extração sólido/líquido, com
a ajuda de um solvente orgânico. Os taninos assim extraídos e presentes
na solução de extração são dosados pelo método de análise de taninos totais.
Das cascas extraem-se taninos e antocianinas (pigmentos). A solução contendo
os mesmos é duplamente dosada: analisam-se os taninos pelo método dos
taninos totais (mesmo procedimento adotado para as sementes) e as antocianinas
pelo método das antocianinas totais, ao pH do vinho e a pH ácido (1,0).
Desse modo, obtém-se os seguintes dados: teor de taninos das cascas e
das sementes e teor e extratibilidade das antocianinas.
A extratibilidade das antocianinas e o teor de taninos das
cascas (que conferem qualidade ao vinho) são tanto maiores quanto mais
avançada estiver a maturação das bagas de uva. Entretanto, isso não significa
que a melhor uva seja aquela colhida em estágio de sobrematuração, pois
há outros fatores importantes para a qualidade (como aromas e ácidos)
que podem perder-se se a colheita for realizada demasiadamente tarde.
Em resumo, um controle completo da maturação de uvas tintas
visando à elaboração de vinho de qualidade compreende o acompanhamento
da evolução de açúcares, ácidos, taninos e antocianinas. Para uvas brancas,
dever-se-ia proceder ao acompanhamento da evolução de açúcares, ácidos
e aromas. Como o acompanhamento destes últimos via análises químicas é
de difícil execução, uma ferramenta complementar de acompanhamento da
maturação (também muito usada para uvas tintas) é a degustação de bagas.
A degustação consiste em avaliar os atributos da uva que
estão em relação direta com a qualidade do vinho. Assim, em uma amostra
de uva, a mais representativa possível do vinhedo, avalia-se a cor e a
aptidão ao esmagamento das bagas, a aptidão do grão a destacar-se do pedicelo,
a doçura, a acidez e os aromas herbáceos e frutados da polpa, a espessura,
a facilidade de dilaceração, a intensidade tânica, a adstringência, a
acidez, a secura dos taninos e os aromas herbáceos e frutados das cascas
e, por fim, a cor, a textura, a intensidade tânica, a adstringência e
o amargor das sementes.
Assim, o acompanhamento da maturação tecnológica (açúcares
e acidez), da maturação fenólica (extratibilidade e teor de antocianinas
e taninos), complementado por avaliações sensoriais constantes da uva,
fornece informações suficientemente precisas sobre o estágio de maturação
e permite escolher com precisão a data de colheita, visando à maior qualidade
possível para cada situação.

A uva convenientemente monitorada
ao longo da maturação será colhida no momento mais adequado à máxima expressão
do seu potencial de qualidade em determinada safra ou região. Desse modo,
os procedimentos a serem adotados na colheita devem levar em consideração
a preservação desse potencial. Alguns cuidados básicos a serem observados
no momento da colheita são:
-
colher as uvas pela manhã, evitando
as horas mais quentes do dia e reduzindo assim o calor de campo, indesejável
para as fases iniciais de elaboração dos vinhos;
-
Proceder à colheita manual, que preserva
mais a integridade física da uva, em relação à colheita mecânica;
-
Proceder à seleção da uva colhida,
de modo a vinificar lotes semelhantes e sem problemas de podridão
ou de desuniformidade de maturação.
-
Acondicionar a uva colhida em caixas
plásticas especiais, limpas, com capacidade máxima de 20Kg;
-
Manter a uva colhida à sombra e manuseá-la
o menos possível;
-
Encaminhar a uva à unidade beneficiadora
imediatamente após colhê-la, pois a mesma não se mantém em boas condições
por muito tempo após ser colhida. O ideal é iniciar seu processamento
em no máximo 12 horas após a colheita;
-
Evitar transportes a longas distâncias,
bem como a utilização de veículos de transporte que trepidem ou sacolejem
demasiadamente, danificando e reduzindo a qualidade da uva;
-
Se possível, resfriar rapidamente
a uva na vinícola, antes do esmagamento da mesma. Este procedimento
tem a vantagem de reduzir a atividade enzimática oxidativa na fase
de esmagamento e prensagem, limitando o desenvolvimento e a ação de
bactérias acéticas. A conseqüência é a limitação da produção de acidez
volátil e a preservação da qualidade do vinho;

Copyright © 2003, Embrapa
|
|