Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 4
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jul./2003

Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado

George Wellington Melo

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências

Expediente
Autores
Preparo do Solo, Calagem e Adubação

Escolha da área
Topografia
Preparo da área
Calagem
Adubação
Formas de Aplicação de Adubos e Corretivos
Manejo da Cobertura do Solo

Escolha da área

    A videira se adapta em ampla variedades de solos, dá-se preferência a solos com textura franca e bem drenados, com pH variando de 5,0 a 6,0 e com teor de matéria orgânica com pelo menos 20 g dm-3.

Topografia

    A topografia influencia na drenagem das águas e na temperatura ambiente. Solos planos e argilosos tendem a ter menor capacidade de drenagem das águas, enquanto que os solos declivosos tendem a não apresentar problemas com encharcamento. A exposição do vinhedo para o norte permite que as plantas recebam os raios solares por mais tempo e ainda ficam protegidas dos ventos frios do sul.

Preparo da área

   O preparo da área tem por finalidade assegurar que as mudas de videira sejam plantadas em condições que possam expressar todo o seu potencial produtivo. Ele consta das operações de roçagem, destocamento, lavração, gradagem, abertura das covas ou sulcamento.

  • Roçagem - Consiste na eliminação da vegetação existente. Esta prática pode ser executada manualmente ou com tratores. Em ambos os casos, não se aconselha a queima da vegetação, apenas retiram-se os arbustos e galhos maiores, sendo o restante incorporado ao solo através de uma ou mais lavrações.

  • Destocamento - Caso a área seja coberta por mata ou outra vegetação maior, com sistema radicular mais desenvolvido, aconselha-se executar o destocamento após a roçagem da vegetação. Esta prática tem por objetivo a retirada dos tocos maiores para facilitar os demais trabalhos. Ela é feita com implementos mais pesados tracionados por tratores e eventualmente por animais.

  • Lavração - Esta prática visa a mobilização total do solo. A profundidade em que esta mobilização é feita depende do tipo de solo e dos trabalhos nele executados anteriormente. É mais comum fazer a lavração à profundidade de 20 a 25 cm.

  • Gradagem - Esta prática visa nivelar o terreno que foi revolvido. Este nivelamento permite a distribuição mais uniforme dos adubos e facilita a demarcação das covas para o plantio.

  • Preparo das covas ou sulcamento - As covas são preparadas após o nivelamento do solo, tendo as dimensões de 50 x 50 x 50 cm. Quando a topografia permite, no lugar das covas, faz-se a abertura de sulcos com profundidade de 20 a 25 cm.

Calagem

    Tem como finalidade eliminar prováveis efeitos tóxicos dos elementos que podem ser prejudicial às plantas, tais como alumínio e manganês, e corrigir os teores de cálcio e magnésio do solo. Para a videira o pH do solo deve estar próximo de 6,0. No RS e SC utiliza-se o índice SMP como indicador da necessidade de calagem.
    Na tabela 1 se observa a quantidade de calcário a ser adicionada em função do índice SMP. Na implantação do vinhedo, para os solos da região da Serra Gaúcha, recomenda-se aplicar, no máximo, 3,5 t ha-1, sendo o restante parcelado anualmente.
    Deve-se dar preferências para o uso do calcário dolomítico (com magnésio), sendo que o mesmo deve ser aplicado ao solo, pelo menos, 3 meses antes do plantio, distribuindo-se em toda área.
    Só aplique calcário quando a análise de solo indicar necessidade e/ou os teores de cálcio e magnésio forem menores que 4,0 e 2,0 cmolc, respectivamente.
    Normalmente após três a quatro anos após a implantação do vinhedo há necessidade de fazer uma nova calagem. O modo de aplicação do calcário é bastante controverso, pois em regiões de ocorrência de fusariose, o corte do sistema radicular pode aumentar a mortalidade de plantas infectadas por fusarium, e, em vinhedos sob Litossolos, há afloramento de rochas. Nas duas situações é proibitivo a prática da incorporação do calcário, sendo então necessário a aplicação do calcário na superfície sem a necessidade de incorporação.

Adubação

   Exigências nutricionais e sintomas de deficiência

  • Fósforo - Solos brasileiros são deficientes em fósforo, com teores médios em torno de 1,0 mg kg-1 (Mehlich 1), que torna necessário utilização de adubos químicos para suprir a deficiência. Os sintomas de deficiência de fósforo ocorrem em folhas maduras, onde é observado redução do tamanho, tornam-se amareladas e ainda podem apresentar limbo com manchas avermelhadas.
        A concentração normal de fósforo nas folhas da videira varia de 0,15 a 0,25 %, sendo que a planta absorve cerca de 1,4 kg de P2O5 para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em fósforo, não se tem observado sintomas de deficiência em plantas.

  • Potássio - Na grande maioria dos solos brasileiros o concentração de K é considerada baixa, no entanto, os solos da região da Serra Gaúcha apresentam teores de médio a elevado.
        Por ser um elemento bastante móvel no interior das plantas, os sintomas de deficiência de potássio ocorrem em folhas mais velhas. Nas variedades brancas os sintomas iniciais se caracterizam por amarelecimento nas proximidades das bordas foliares, com o agravamento da deficiência as bordas ficam necrosadas. Nas variedades tintas, as folhas tornam-se avermelhadas e também mostram o necrosamento das bordas.
        A concentração normal de potássio nas folhas da videira varia de 1,50 a 2,50 %, sendo que a planta absorve cerca de 6 kg de K2O para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em potássio, como no fósforo, também não é comum sintomas de deficiência em plantas. O uso indiscriminado de fertilizantes potássicos aumenta a concentração desse elemento no mosto, isso pode acarretar problemas enológicos.

  • Nitrogênio - O teor de matéria orgânica é o indicador de disponibilidade de N no solo mais utilizado, mas este não tem sido muito eficaz na predição do comportamento das plantas, o que tem causado sérios problemas na viticultura, pois tanto o excesso quanto a deficiência de nitrogênio afeta a produtividade e a qualidade dos frutos.
        Os sintomas de deficiência de nitrogênio se caracterizam pela redução no vigor das plantas e pela clorose (amarelecimento) no limbo das folhas maduras e velhas. Em algumas variedades tintas as folhas e, principalmente, os pecíolos podem apresentar coloração avermelhada.
        A concentração normal de N nas folhas da videira varia de 1,60 a 2,40 %, sendo que a planta absorve cerca de 2 kg de N para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em nitrogênio, freqüentemente observa-se tanto a falta quanto o excesso de N nos parreirais. Isto indica que os produtores ainda não têm consenso no uso de nitrogênio, principalmente porque há uma relação inversa entre excesso de vigor das plantas e produtividade e/ou qualidade dos frutos, o que leva os produtores a temer uma aplicação excessiva de fertilizantes nitrogenados.

  • Cálcio - O cálcio é um elemento pouco móvel na planta, por isso os sintomas de deficiência aparecem nas folhas jovens. Essas folhas normalmente são menores do que as normais, com a superfície entre as nervuras cloróticas, com pintas necróticas e tendência a se encurvarem para baixo. Os teores de cálcio considerados normais para a videira varia de 1,6 a 2,4 % , sendo que as plantas retiram cerca de 6 kg de CaO para produzir 1000 kg de frutos.

  • Magnésio - Apesar dos teores de Mg2+ da grande maioria dos solos brasileiros serem baixos, ele não tem sido problema sério para a videira, pois, como para o cálcio, a utilização de calcário dolomítico para aumentar o pH do solo também aumenta o teor de Mg.
        O magnésio é um elemento móvel na planta, por isso os sintomas de deficiência aparecem nas folhas maduras. Essas folhas apresentam a superfície entre as nervuras cloróticas, que com o agravamento da deficiência vão ficando amareladas, no entanto as nervuras permanecem verdes. Tem-se observado um distúrbio fisiológico chamado dessecamento da ráquis, sendo sua ocorrência mais freqüente em anos em que o período de maturação dos frutos é bastante chuvoso e o solo apresenta-se com alto teor de potássio e baixo de magnésio. Os teores de magnésio considerados normais para a videira varia de 0,25 a 0,50 % , sendo que as plantas retiram cerca de 1 kg de MgO para produzir 1000 kg de frutos.

  • Boro - A grande maioria dos solos do Brasil, cultivados com videira, possuem baixo teor de boro. No RS, freqüentemente tem-se observado sintomas de deficiência de B, sendo que os problemas normalmente aparecem em solos cujo teor é menor do que 0,6 mg dm-3.
        A mobilidade do boro nas plantas ainda é muito discutida, principalmente porque os sintomas de deficiência aparecem nas folhas e ramos novos. A característica principal é a redução no tamanho das folhas e encurtamento dos estrenós. Os teores de boro considerados normais para a videira varia de 15 a 22 mg dm-3, sendo que as plantas retiram cerca de 10 g de B para produzir 1000 kg de frutos.

Formas de Aplicação de Adubos e Corretivos

    Existem três tipos fundamentais de adubação: a de correção, efetuada antes do plantio, a de plantio ou crescimento, realizada na ocasião do plantio do porta-enxerto ou da muda até 2 a 3 anos, e a de manutenção, realizada durante a vida produtiva da planta. A primeira é feita para corrigir a fertilidade do solo para padrões de fertilidade preestabelecido, a segunda é feita para permitir o crescimento inicial das plantas, a terceira é para repor os elementos absorvidos pela planta durante o ano.

  • Adubação de Correção - Como o nome já diz, é feita para corrigir possíveis carências nutricionais. Nela procura-se corrigir os teores de fósforo, potássio e do micronutriente boro.
        Os indicadores da disponibilidade de K e P para os solos do RS é o Mehlich 1, enquanto que para boro é a "Água Quente". A quantidade de nutriente a ser aplicada baseia-se em análise de solo e segue-se a tabela 2. Os fertilizantes devem ser aplicados 10 dias antes do plantio e devem ser distribuídos em toda área.
        As fontes utilizadas para fósforo são os superfosfatos, enquanto que para o potássio recomenda-se o uso do cloreto de potássio ou sulfato de potássio. Em condições de pH menor que 6,0 há possibilidade de utilização de fosfatos naturais, mas deve-se comparar custo dessa aplicação com a aplicação de um fosfato mais solúvel. Para o boro recomenda-se a utilização de bórax, ácido bórico e ulexita.

  • Adubação de Plantio ou Crescimento - Esta adubação tem finalidade fornecer nitrogênio às plantas durante os dois a três primeiros anos após a implantação. Utiliza-se esterco e/ou fertilizante químico à base de nitrogênio.
        A quantidade de nitrogênio a ser aplicada está relacionada com o teor de matéria orgânica do solo e segue-se a tabela 3. A fonte de N a ser utilizada deve ser aquela mais fácil de ser encontrada na região. Quando for utilizado uréia deve-se tomar o cuidado para evitar perdas por volatilização, assim o solo deve estar úmido e/ou incorporar o fertilizante ao solo.
        Em solos com menos de 25 g kg-1 de matéria orgânica recomenda-se a aplicação de esterco de frango na ocasião do plantio, na dose 15 t ha-1, que deve ser colocado no fundo das covas das plantas e bem misturado com o solo.

  • Adubação de manutenção - Tem a finalidade de repor os nutrientes que são exportados na forma de frutos. A recomendação para nitrogênio, fósforo e potássio é feita na expectativa da produtividade a ser alcançada e se utiliza três classes de produtividade que são: < 15, 15 a 25 e > 25 t ha-1, as doses recomendadas se encontram nas tabelas 4, 5 e 6 e as épocas de aplicações estão na tabela 7. O Boro é o micronutriente que mais comumente se apresenta em concentrações abaixo do normal nas plantas da videira, assim, quando necessário, faz-se adubações de correção nas doses recomendadas pela tabela 8.

Manejo da Cobertura do Solo

    Durante os dois primeiros anos de cultivo da videira a área poder ser cultivada com uma cultura anual nas entrelinhas da videira, esta cultura intercalar deverá permitir a cobertura do solo enquanto a videira cresce. A partir do 3° ano do plantio (2° ano após a enxertia) não é mais recomendável a cultura intercalar. Contudo, a utilização da cobertura verde do solo do vinhedo, com gramíneas e/ou leguminosas de outono-inverno, pode ser útil ao solo e à videira. Entre vários benefícios, esta prática auxilia o controle de ervas daninhas, mantém ou aumenta o teor de matéria orgânica do solo e diminui o estresse hídrico nas primaveras e verões secos. Para atingir esses objetivos sugere-se a seguinte sistemática:

  • março/abril - fazer a análise do solo e realizar as correções da acidez e fertilidade do solo necessárias para a videira e a cultura verde de cobertura do solo. Somam-se as quantidades recomendadas dos fertilizantes para as duas culturas e a incorporação deve ser feita seguindo o seguinte esquema: calagem (se necessária) - adubação orgânica e/ou química - semeadura da cultura para a cobertura verde.

  • Roçada ou dessecamento - a época para fazer a roçada ou dessecamento da cobertura verde varia de ano para ano. O produtor de deixar as plantas vegetando durante o maior tempo possível, mas tendo cuidado com a competição entre as plantas de cobertura e a videira. Na região da Serra Gaúcha é tecnicamente possível manter o solo do pomar coberto até outubro. A roçada ou dessecamento é feita com roçadeira ou herbicida sistêmico (glifosato ou similar).
        Para a cobertura verde podem ser usadas várias espécies como: aveia preta, ervilhaca, azevém, nabo forrageiro, trevo, tremoço, entre outras. Também, pode-se fazer uma combinação de uma leguminosa com uma gramínea. A relva expontânea (natural) pode ser deixada como cobertura verde do solo, roçando quando atingir a altura de 30 cm, aproximadamente.

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