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Embrapa Uva e Vinho Sistema de Produção, 4 ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica Jul./2003 |
Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado |
Gilmar
Barcelos Kuhn
Thor Vinícius Martins Fajardo
| Início Clima Preparo do solo, calagem e adubação Porta-enxertos e cultivares Obtenção e preparo da muda Sistema de condução Poda Doenças fúngicas e medidas de controle Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle Pragas e medidas de controle Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos Maturação e colheita Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros Custo e rentabilidade Produção e mercado Referências Expediente Autores |
Doenças
causadas por vírus Doenças causadas por vírusSão conhecidas na videira (Vitis spp.) cerca de cinqüenta doenças consideradas de origem viral. A videira, por ser propagada vegetativamente, facilita a disseminação destes patógenos e favorece o aparecimento de doenças complexas, pelo acúmulo de diferentes vírus numa mesma planta. A seguir são descritas as principais viroses de relevância econômica nos países vitícolas do mundo e que ocorrem em vinhedos brasileiros. Enrolamento da folhaA virose do enrolamento da folha ocorre de forma generalizada em todos os países vitícolas do mundo, provavelmente, por não ser uma doença letal e por ocorrer de forma latente em muitas cultivares, especialmente nos porta-enxertos. Esta doença é causada por um complexo de oito vírus (Grapevine leafroll-associated virus, GLRaV), embora cada um dos vírus do complexo possa ocorrer de forma isolada. No Brasil, já foram detectados os vírus GLRaV-1, e -3 e, mais recentemente, o GLRaV-2 em vinhedos paulistas. Sintomatologia - As plantas afetadas pela doença apresentam sintomas que variam com as condições climáticas, época do ano, fertilidade do solo, estirpe do vírus e com a cultivar. São facilmente reconhecíveis em cultivares sensíveis, em especial no fim do ciclo vegetativo, antes da queda das folhas. Em plantas muito afetadas, os sintomas podem começar a se pronunciar a partir da floração, porém o mais comum é na época próxima à maturação da uva. O sintoma mais característico da doença é o enrolamento dos bordos da folha para baixo (Figura 1), observado com relativa facilidade nas cultivares viníferas tintas e brancas, embora possa ocorrer infecção sem ocorrer enrolamento dos bordos. Nas viníferas tintas o limbo adquire uma coloração vermelha-violácea, permanecendo o tecido ao longo das nervuras principais com a cor verde normal (Figura 2).
Nas viníferas brancas infectadas,
o limbo adquire uma leve coloração amarelo-pálida, às vezes mais pronunciada
no tecido ao longo das nervuras principais. Se a infecção é severa, as
plantas afetadas podem ser facilmente detectadas. Muda com um ou dois
anos já mostra os sintomas característicos da doença em comparação com
muda sadia. No caso de estirpes menos agressivas do vírus ocorre apenas
leve enrolamento das folhas e clorose entre as nervuras principais. Nas
cultivares viníferas, brancas e tintas, as folhas apresentam o limbo com
aspecto rugoso, quebradiço e de consistência mais grossa. Os sintomas,
independentemente da cultivar, aparecem sempre a partir da base dos ramos,
evoluindo para as demais folhas da extremidade. Dependendo do nível de
infecção, os sintomas podem se restringir às folhas da base dos ramos.
Porém as plantas com sintomas severos tornam-se totalmente definhadas.
No cacho, o sintoma mais comum é a maturação irregular e retardada da
uva, chegando até a não se completar em plantas muito afetadas. Além disso,
nas plantas com estádio de infecção mais avançado, o número e o tamanho
dos cachos são menores e no dossel vegetativo verifica-se um acentuado
enfraquecimento, que dá à planta um aspecto nítido de definhamento. Transmissão - A disseminação do vírus ocorre através do material propagativo infectado (mudas, estacas, gemas), durante o processo de formação das mudas, independentemente do método de enxertia. Não há informação de transmissão deste vírus por meio de ferramentas (tesoura de poda, canivete). Em outros países vitícolas, os vírus GLRaV-1 e GLRaV-3 já foram transmitidos experimentalmente entre videiras pelas cochonilhas algodonosas (Planococcus ficus, P. citri, Pseudococcus longispinus, P. calceolariae, P. affinis (Sin. P. viburni), Heliococcus bohemicus e Phenacoccus aceris e pelas cochonilhas de carapaça (Pulvinaria vitis e Parthenolecanium corni), indicando a possível disseminação natural da doença nos vinhedos. No Brasil, tem se verificado significativa disseminação da doença no campo, possivelmente, pelas espécies de cochonilhas que ocorrem em nossos vinhedos, assunto que está em estudo atualmente. Lenho rugoso O lenho rugoso da videira
é um complexo de quatro viroses que causam alterações no lenho das plantas:
Intumescimento dos ramos (Grapevine virus B, GVB), Acanaladura
do lenho de Kober (Grapevine virus A, GVA), Caneluras do
tronco de Rupestris (Rupestris stem pitting-associated virus,
RSPaV) e Acanaladura do lenho de LN33 (vírus não identificado).
DegenerescênciaÉ uma das mais antigas e bem caracterizadas viroses da videira, causada pelo vírus Grapevine fanleaf virus (GFLV). É uma das mais importantes doenças virais na Europa e nos Estados Unidos, onde é conhecida como "dégénérescence infectieuse" e "grapevine fanleaf", respectivamente. No Brasil não tem grande importância, apresentando baixa incidência. Já foi encontrada no Estado de São Paulo, onde é conhecida por Mosaico do Traviú e no Rio Grande do Sul. Não há conhecimento de outra hospedeira natural para o vírus, além de espécies do gênero Vitis. Sintomatologia - A doença afeta todos os órgãos da videira. Nas folhas ocorrem deformações com distribuição anormal das nervuras e assimetria foliar com dentes pontiagudos, além de mosaico e manchas translúcidas de formas variadas. Nos ramos, observam-se entrenós curtos, bifurcações (Figura 8), achatamentos, nós duplos e proliferação de gemas (Figura 9). Nos cachos, o número e tamanho das bagas são menores e há formação de bagas que permanecem pequenas e verdes. As plantas doentes são menos desenvolvidas.
Transmissão - O vírus é disseminado pelo material propagativo e pela enxertia e nos vinhedos pelos nematóides Xiphinema index e X. italiae. No Brasil, já foram constatadas quatro espécies de Xiphinema em videira, X. americanum (Sin. X. brevicolle), X. index, X. brasiliensis e X. krugi, entretanto a incidência dessas espécies nas principais áreas de vinhedos do país e a possível atuação como vetor ainda não são conhecidas. Os restos de raízes de plantas doentes que ficam no solo permanecem viáveis por alguns anos e podem servir de fonte de inóculo, em áreas infestadas por nematóides vetores. Não há informação de transmissão por meio de ferramentas. Manchas das nervuras Essa doença é causada pelo
vírus Grapevine fleck virus (GFkV) e conhecida na maioria dos países
vitícolas do mundo, inclusive no Brasil. Tendo em vista sua alta ocorrência
e por ser latente em praticamente todas as cultivares de produtoras e
de porta-enxertos, essa virose faz parte dos programas de seleção sanitária
da maioria dos países vitícolas. Sintomatologia - Os sintomas da doença são característicos nas folhas novas do porta-enxerto Rupestris du Lot, e com menos intensidade em Kober 5BB, evidenciando-se como manchas translúcidas, sem forma definida, que acompanham as nervuras. As plantas muito afetadas são menos desenvolvidas e podem apresentar as folhas com os bordos voltados para cima. Nas demais cultivares comerciais, o vírus ocorre de forma latente. Transmissão. O vírus é disseminado pelo material propagativo infectado pela enxertia. Não há constatação de contaminação de plantas por meio de ferramentas. Necrose das nervurasA doença é considerada de origem viral e conhecida nas principais regiões vitícolas do mundo, além de afetar ampla gama de cultivares. Nas cultivares afetadas, os efeitos negativos parecem ter expressão econômica limitada. Por ser uma doença latente na quase totalidade das cultivares comerciais, e por sua alta ocorrência, tem sido normalmente incluída nos programas de seleção sanitária. Sintomatologia - Ocorre necrose nas nervuras, visível na página inferior das folhas da base, evoluindo para outras folhas com o crescimento do ramo. Quando a necrose é muito intensa, pode induzir enrugamento e assimetria da lâmina foliar. Na superfície dos ramos verdes e no pecíolo da folha ocorrem estrias necróticas. Nas plantas muito afetadas, a coloração verde das folhas é bem menos intensa e a necrose das nervuras pode evoluir para manchas necróticas que abrangem grande parte da área foliar, em especial nas folhas da base dos ramos. Estes sintomas são observados somente no porta-enxerto R110. No Brasil foi verificado que o porta-enxerto Solferino reage à infecção com escurecimento em forma de estrias nos ramos e pecíolos e o franzimento das folhas. Nestas duas cultivares, quando as plantas estão muito afetadas, ocorre severa redução do crescimento, que evolui para o definhamento total das plantas. Nas demais cultivares, a doença é latente. Transmissão. O patógeno perpetua-se no material propagativo e é transmitido pela enxertia. Não há constatação de transmissão por meio de ferramentas. Incidência de virosesEm recentes levantamentos para a determinação da ocorrência do vírus do enrolamento da folha da videira foram detectadas incidências de 6,9 a 8,3% para o GLRaV-1; 25,6% para o GLRaV-2 (apenas em São Paulo) e 14,7 a 88% para o GLRaV-3 em amostras provenientes dos Estados do Rio Grande do Sul e São Paulo. Grande parte das amostras analisadas pelo teste sorológico ELISA foi de viníferas. Diagnóstico viralInfecções múltiplas envolvendo diversos vírus são comuns em videiras, o que torna o diagnóstico baseado em sintomas de campo muito difícil. Muitas cultivares não apresentam sintomas evidentes, seja porque a infecção é latente ou porque a cultivar é mais tolerante. Deve-se considerar também outros fatores que causam sintomas semelhantes aos das viroses como carência ou excesso de nutrientes e ataque de outras doenças e pragas. Deste modo, as técnicas de diagnóstico são ferramentas indispensáveis para a identificação de infecções virais. As técnicas aqui mencionadas são executadas pelo Laboratório de Virologia da Embrapa Uva e Vinho em suas atividades de diagnose.
Controle das viroses
Doenças causadas por bactériasNo Brasil, as doenças bacterianas não têm causado maiores preocupações aos viticultores, ocorrendo de forma esporádica, especialmente a bactéria Agrobacterium vitis, afetando principalmente mudas novas ou viveiros. Entretanto, recentemente, foi identificada na região do Submédio do Vale do São Francisco, pólo vitícola que abrange os municípios de Petrolina-PE e Juazeiro-BA, a bactéria Xanthomonas campestris pv. viticola causando uma severa doença denominada "Cancro Bacteriano". Serão descritas a seguir as duas doenças bacterianas mencionadas e que ocorrem no Brasil. Galhas da coroaCausada pela bactéria Agrobacterium vitis, possui três biovares, sendo predominante na videira, o biovar 3, anteriormente denominado A. tumefasciens. Esta bactéria afeta inúmeras plantas frutíferas, além da videira. A disseminação do patógeno pode ocorrer por meio de material propagativo infectado (estacas, mudas), tesoura de poda e água do solo. A colonização dos tecidos da planta se dá a partir de ferimentos causados pela poda, desbrota e outros tratos culturais. Sintomatologia - A galha é o sintoma mais característico da doença, de ocorrência mais comum na parte basal do tronco, próximo à linha do solo, embora possa se desenvolver também logo abaixo da superfície do solo e na parte aérea da planta (Figura 10). São constituídas por tecidos desorganizados do sistema vascular e do parênquima, apresentando quando jovens a superfície macia e clara, tornando-se áspera e escurecida à medida em que aumentam de tamanho.
Controle - As plantas contaminadas no vinhedo devem ser arrancadas com o máximo possível de raízes e queimadas. Em áreas que já apresentaram plantas contaminadas, fazer rotação de cultura, por alguns anos, antes de se utilizar a área novamente para o cultivo de videira. Utilizar material propagativo de produtora e porta-enxerto sadios e evitar ferimentos, principalmente nas raízes e no colo das plantas. Cancro bacterianoCausada pela bactéria Xanthomonas campestris pv. viticola. Foi identificada pela primeira vez no Brasil em 1998, em vinhedos do Submédio do Vale do São Francisco (PE e BA) e no Piauí. É atualmente, a doença bacteriana da videira mais importante, especialmente na Região do Vale do São Francisco, considerando a suscetibilidade das cultivares plantadas, a natureza da doença, que pode ocorrer de forma sistêmica (infecta toda a planta), e as condições climáticas favoráveis. Nas demais regiões vitícolas do país, embora ainda não seja conhecida, a doença tem uma importância potencial, visto que de modo geral as cultivares de Vitis vinifera são suscetíveis. O patógeno é transmitido principalmente através do material propagativo infectado e por meio de ferramentas utilizadas nas operações de desbrota, poda, raleio de bagas e colheita. Sintomatologia - Nas folhas ocorrem pequenas manchas angulares escuras, circundadas ou não por um halo amarelado, distribuídas de forma esparsa ou concentradas próximo às nervuras e bordas das folhas. Nas nervuras e pecíolos podem aparecer manchas escuras, alongadas e irregulares. Nos ramos verdes e em ramos maduros, ocorre a formação de cancros e rachaduras longitudinais (Figura 11). No cacho, ocorrem fissuras e fendas necróticas no engaço e lesões escuras ligeiramente arredondadas nas bagas. Em cachos já formados, após a necrose da ráquis e de pedicelos, ocorre murcha das bagas. Os sintomas variam em intensidade, dependendo da cultivar afetada. No Submédio do Vale do São Francisco, a cultivar Red Globe e algumas cultivares sem sementes, principalmente, aquelas originadas da cultivar Thompson Seedless, têm se mostrado mais sensíveis, apresentando alta incidência em alguns parreirais. A doença também já foi constatada em outras cultivares de uvas finas de mesa, com incidência bastante variável, principalmente, em Itália e Benitaka, que aparentemente são mais tolerantes. Cultivares suscetíveis têm a produção reduzida e as plantas infectadas, geralmente, produzem cachos com sintomas de cancro no engaço, o que torna a uva de mesa sem valor comercial.
Controle - O controle mais eficiente
da doença está na utilização de mudas e material propagativo sadio, de
modo a evitar a introdução da doença na propriedade. Especialmente em
regiões onde a doença não é conhecida os cuidados devem ser redobrados,
evitando-se a introdução de material propagativo das regiões onde a doença
já foi detectada. Além do material propagativo deve-se controlar também
a introdução de uva, especialmente para vinificação, pois a bactéria pode
contaminar os cachos (pedúnculo, engaço), os quais, após a eliminação
da cantina são distribuídos como matéria orgânica nos vinhedos, podendo
transformar-se, assim, num meio de introdução e disseminação da bactéria
nos vinhedos. Uma outra medida seria exigir sempre o certificado de sanidade,
quando da aquisição de mudas ou qualquer material propagativo. No caso
de se constatar sintomas duvidosos em regiões onde a doença não seja conhecida,
deve-se de imediato isolar a área ou plantas, comunicar os órgãos oficiais,
que irão confirmar a identificação e, em caso positivo, erradicar e queimar
o material suspeito. Doenças causadas por nematóides Nos parreirais brasileiros
já foram relatados nove gêneros de nematóides, que parasitam o sistema
radicular causando distúrbios, tanto morfológicos quanto fisiológicos,
estando também associados ao declínio em videira: Aorolaimus (Sin.
Peltamigratus), Aphelenchus, Longidorus, Meloidogyne,
Mesocriconema, Pratylenchus, Rotylenchulus, Tylenchulus
e Xiphinema. Os gêneros Meloidogyne e Xiphinema são
os mais relacionados com a cultura da videira. Os nematóides do gênero
Meloidogyne causam danos diretos ao sistema radicular, penetrando
nas raízes para se alimentarem, enquanto que os do gênero Xiphinema,
vetores de vírus, migram de planta a planta alimentando-se da parte terminal
das raízes. Sintomatologia - As espécies do gênero Meloidogyne provocam a formação de galhas ou nodosidades, devido às secreções liberadas pelas larvas e adultos ao se alimentarem. As espécies do gênero Xiphinema causam apenas inchamentos nas pontas das radicelas, porém, são importantes pelo fato de transmitirem vírus de uma planta doente para outra sadia. Na parte aérea da planta os sintomas são poucos perceptíveis, mostrando apenas uma aparência clorótica nas folhas, ou seja, um verde menos intenso, apresentando como maior reflexo do parasitismo a queda na produtividade. Controle - As medidas preventivas
são as mais importantes para o controle desses parasitas. É fundamental
um rigoroso controle na aquisição das mudas enraizadas, examinando-se
cuidadosamente o sistema radicular que deve estar bem lavado para facilitar
o exame. Mudas com galhas ou nodosidades devem ser rejeitadas. Outro aspecto
importante na aquisição da muda é a correta identificação do porta-enxerto
para que se possa escolher o mais resistente no caso da área disponível
para o plantio já apresentar infestação de nematóides das galhas (Meloidogyne
spp.). Recomenda-se sempre fazer amostragem e análise nematológica nas
áreas a serem utilizadas para verificar se há ocorrência desses parasitas.
Em algumas condições de solo, em especial nos arenosos, podem ocorrer
grandes populações desses nematóides. No Brasil, principalmente nas regiões
de clima mais frio, os porta-enxertos comumente utilizados apresentam
boa resistência ao ataque desses parasitas, especialmente das espécies
de Meloidogyne citadas. Recomenda-se portanto como principal medida
de controle, em áreas contaminadas ou duvidosas, o uso de porta-enxertos
que apresentam algum nível de resistência a meloidoginose, tais como:
SO4, Kober 5BB, P1103, 101-14, R99 e 3309. Em regiões muito afetadas por
estes parasitas existem outros porta-enxertos, obtidos especialmente para
o seu controle, embora não sejam utilizados no Brasil, pelo menos em áreas
comerciais, são eles: Salt Creek, Dog Ridge e Harmony.
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