Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 4
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jul./2003

Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado

Gilmar Barcelos Kuhn
Thor Vinícius Martins Fajardo

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências

Expediente
Autores
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle

Doenças causadas por vírus
Incidência de viroses
Controle das viroses
Doenças causadas por bactérias
Doenças causadas por nematóides

Doenças causadas por vírus

    São conhecidas na videira (Vitis spp.) cerca de cinqüenta doenças consideradas de origem viral. A videira, por ser propagada vegetativamente, facilita a disseminação destes patógenos e favorece o aparecimento de doenças complexas, pelo acúmulo de diferentes vírus numa mesma planta. A seguir são descritas as principais viroses de relevância econômica nos países vitícolas do mundo e que ocorrem em vinhedos brasileiros.

Enrolamento da folha

    A virose do enrolamento da folha ocorre de forma generalizada em todos os países vitícolas do mundo, provavelmente, por não ser uma doença letal e por ocorrer de forma latente em muitas cultivares, especialmente nos porta-enxertos. Esta doença é causada por um complexo de oito vírus (Grapevine leafroll-associated virus, GLRaV), embora cada um dos vírus do complexo possa ocorrer de forma isolada. No Brasil, já foram detectados os vírus GLRaV-1, e -3 e, mais recentemente, o GLRaV-2 em vinhedos paulistas.

Sintomatologia - As plantas afetadas pela doença apresentam sintomas que variam com as condições climáticas, época do ano, fertilidade do solo, estirpe do vírus e com a cultivar. São facilmente reconhecíveis em cultivares sensíveis, em especial no fim do ciclo vegetativo, antes da queda das folhas. Em plantas muito afetadas, os sintomas podem começar a se pronunciar a partir da floração, porém o mais comum é na época próxima à maturação da uva. O sintoma mais característico da doença é o enrolamento dos bordos da folha para baixo (Figura 1), observado com relativa facilidade nas cultivares viníferas tintas e brancas, embora possa ocorrer infecção sem ocorrer enrolamento dos bordos. Nas viníferas tintas o limbo adquire uma coloração vermelha-violácea, permanecendo o tecido ao longo das nervuras principais com a cor verde normal (Figura 2).

Figura 1
Fig. 1. Virose do enrolamento da folha cultivar branca. (Foto: G. Kuhn)

Figura 2
Fig. 2. Virose do enrolamento da folha cultivar tinta. (Foto: G. Kuhn)

    Nas viníferas brancas infectadas, o limbo adquire uma leve coloração amarelo-pálida, às vezes mais pronunciada no tecido ao longo das nervuras principais. Se a infecção é severa, as plantas afetadas podem ser facilmente detectadas. Muda com um ou dois anos já mostra os sintomas característicos da doença em comparação com muda sadia. No caso de estirpes menos agressivas do vírus ocorre apenas leve enrolamento das folhas e clorose entre as nervuras principais. Nas cultivares viníferas, brancas e tintas, as folhas apresentam o limbo com aspecto rugoso, quebradiço e de consistência mais grossa. Os sintomas, independentemente da cultivar, aparecem sempre a partir da base dos ramos, evoluindo para as demais folhas da extremidade. Dependendo do nível de infecção, os sintomas podem se restringir às folhas da base dos ramos. Porém as plantas com sintomas severos tornam-se totalmente definhadas. No cacho, o sintoma mais comum é a maturação irregular e retardada da uva, chegando até a não se completar em plantas muito afetadas. Além disso, nas plantas com estádio de infecção mais avançado, o número e o tamanho dos cachos são menores e no dossel vegetativo verifica-se um acentuado enfraquecimento, que dá à planta um aspecto nítido de definhamento.
    Sintomas de avermelhamento ou amarelamento das folhas semelhantes aos causados pela virose, podem ser induzidos por outras causas como a deficiência de potássio, magnésio ou boro; ataque de cigarrinhas e ácaros; asfixia da planta devido ao excesso de umidade; infecção por outros vírus, fitoplasmas e fungos radiculares; efeito fitotóxico de pesticidas e outras causas que interrompam a circulação normal da seiva da planta.

Transmissão - A disseminação do vírus ocorre através do material propagativo infectado (mudas, estacas, gemas), durante o processo de formação das mudas, independentemente do método de enxertia. Não há informação de transmissão deste vírus por meio de ferramentas (tesoura de poda, canivete). Em outros países vitícolas, os vírus GLRaV-1 e GLRaV-3 já foram transmitidos experimentalmente entre videiras pelas cochonilhas algodonosas (Planococcus ficus, P. citri, Pseudococcus longispinus, P. calceolariae, P. affinis (Sin. P. viburni), Heliococcus bohemicus e Phenacoccus aceris e pelas cochonilhas de carapaça (Pulvinaria vitis e Parthenolecanium corni), indicando a possível disseminação natural da doença nos vinhedos. No Brasil, tem se verificado significativa disseminação da doença no campo, possivelmente, pelas espécies de cochonilhas que ocorrem em nossos vinhedos, assunto que está em estudo atualmente.

Lenho rugoso

    O lenho rugoso da videira é um complexo de quatro viroses que causam alterações no lenho das plantas: Intumescimento dos ramos (Grapevine virus B, GVB), Acanaladura do lenho de Kober (Grapevine virus A, GVA), Caneluras do tronco de Rupestris (Rupestris stem pitting-associated virus, RSPaV) e Acanaladura do lenho de LN33 (vírus não identificado).
    Na prática, a doença conhecida por caneluras do tronco é causada pela presença dos três últimos vírus mencionados.

  • Intumescimento dos ramos

    Sintomatologia - O intumescimento dos ramos ocorre na maioria dos países vitícolas, afetando muitas cultivares comerciais de produtoras e de porta-enxertos. A doença causa a queda progressiva de produtividade, a uva não completa a maturação e há redução no teor de açúcar.
        Nas plantas muito afetadas, a brotação é retardada e fraca. As folhas tendem a cair mais tardiamente no outono (Figura 3).

    Figura 3
    Fig. 3. Virose do intumescimento dos ramos - retardamento da queda das folhas. Planta doente à esquerda. (Foto: G. Kuhn)

        A uva não amadurece regularmente e a planta definha gradativamente, ocorrendo a morte de ramos em cultivares sensíveis. Em algumas cultivares viníferas e híbridas tintas pode ser observado o avermelhamento das folhas (Figura 4), que se evidencia no outono. Esta coloração anormal abrange toda a área foliar, inclusive os tecidos ao longo das nervuras. No entrenó da base do ramo do ano podem ocorrer fissuras e a formação de tecido corticento na região de inserção (Figura 5). Outro sintoma associado à presença do vírus é o engrossamento na região da enxertia, principalmente em mudas de 1 a 3 anos. Forma-se um volume excessivo de tecido de consistência esponjosa na região e acima da enxertia, e este, quando maduro, adquire aspecto corticento e apresenta fendilhamentos longitudinais.

    Figura 4
    Fig. 4. Virose do intumescimento dos ramos - avermelhamento da folha em cultivar tinta. (Foto: G. Kuhn)

    Figura 5
    Fig. 5. Virose do intumescimento dos ramos - formação de tecido corticento na inserção dos ramos do ano. (Foto: G. Kuhn)

    Transmissão - O vírus é disseminado pelo material propagativo infectado (mudas, estacas ou gemas) e pela enxertia. Há comprovação experimental da transmissão do vírus pelas cochonilhas Planococcus ficus, P. citri, Pseudococcus longispinus e P. affinis. Não há constatação de transmissão por meio de ferramentas.

  • Caneluras do tronco

        Esta doença é conhecida na maioria das áreas vitícolas do mundo. No Brasil é conhecida com o nome de caneluras do tronco ou cascudo. A severidade dos sintomas depende da combinação produtora/porta-enxerto, suscetibilidade das cultivares e virulência da estirpe do vírus. Nas combinações mais sensíveis, a doença causa o declínio e a subseqüente morte da planta. O declínio sempre é acompanhado de uma progressiva redução da colheita até a improdutividade total da planta.

    Sintomatologia - Os sintomas da doença em cultivares sensíveis são observados com certa facilidade quando se retira a casca do tronco da videira. Verifica-se, sobre a superfície do lenho, a formação de reentrâncias longitudinais (caneluras), que correspondem ao local onde a casca penetra no lenho do tronco prejudicando a formação dos vasos condutores da seiva (Figura 6). O número de caneluras, bem como seu comprimento e largura, variam muito, possivelmente devido à sensibilidade da cultivar afetada e às estirpes virais. As plantas doentes, em geral, apresentam diminuição do vigor e retardamento na brotação das gemas de uma a duas semanas. A casca do tronco é mais grossa e de aspecto corticento (Figura 7).

    Figura 6
    Fig. 6. Virose das caneluras no tronco. (Foto: G. Kuhn)

    Figura 7
    Fig. 7. Virose das caneluras no tronco - sintomas em tronco com casca e sem casca. (Foto: G. Kuhn)

    Os porta-enxertos, normalmente, mostram sintomas nítidos da doença. Muitas cultivares viníferas tem se mostrado altamente suscetíveis. As caneluras podem ser observadas até nas raízes, especialmente em cultivares muito suscetíveis, como é o caso do porta-enxerto Rupestris du Lot. Também pode ocorrer na região da enxertia uma diferença de diâmetro entre o enxerto e o porta-enxerto. As folhas das cultivares tintas podem apresentar avermelhamento em plantas muito afetadas em função da formação deficiente dos vasos condutores na região afetada. A morte de plantas normalmente ocorre entre 6 e 10 anos de idade, e até mais cedo, quando ambas as cultivares (porta-enxerto e enxerto) são muito sensíveis. Em muitas cultivares a doença permanece em estado latente, ou seja, as plantas são portadoras da doença mas não mostram sintomas.

    Transmissão - A disseminação da virose das caneluras do tronco ocorre pelo material propagativo infectado e a transmissão através da enxertia. Em outros países vitícolas verificou-se que o vírus GVA é transmitido entre videiras pelas cochonilhas Pseudococcus longispinus, P. affinis, Planococcus citri, P. ficus e Neopulvinaria innumerabilis. Não há relato de vetores envolvendo o vírus RSPaV ou a virose Acanaladura do lenho de LN33. Também não se tem relato da transmissão das caneluras do tronco de uma videira a outra por meio de ferramentas.

Degenerescência

    É uma das mais antigas e bem caracterizadas viroses da videira, causada pelo vírus Grapevine fanleaf virus (GFLV). É uma das mais importantes doenças virais na Europa e nos Estados Unidos, onde é conhecida como "dégénérescence infectieuse" e "grapevine fanleaf", respectivamente. No Brasil não tem grande importância, apresentando baixa incidência. Já foi encontrada no Estado de São Paulo, onde é conhecida por Mosaico do Traviú e no Rio Grande do Sul. Não há conhecimento de outra hospedeira natural para o vírus, além de espécies do gênero Vitis.

Sintomatologia - A doença afeta todos os órgãos da videira. Nas folhas ocorrem deformações com distribuição anormal das nervuras e assimetria foliar com dentes pontiagudos, além de mosaico e manchas translúcidas de formas variadas. Nos ramos, observam-se entrenós curtos, bifurcações (Figura 8), achatamentos, nós duplos e proliferação de gemas (Figura 9). Nos cachos, o número e tamanho das bagas são menores e há formação de bagas que permanecem pequenas e verdes. As plantas doentes são menos desenvolvidas.

Figura 8
Fig. 8. Bifurcação do ramo causada pela virose da degenerescência. (Foto: G. Kuhn)

Figura 9
Fig. 9. Deformação dos ramos causada pela virose da degenerescência. (Foto: G. Kuhn)

Transmissão - O vírus é disseminado pelo material propagativo e pela enxertia e nos vinhedos pelos nematóides Xiphinema index e X. italiae. No Brasil, já foram constatadas quatro espécies de Xiphinema em videira, X. americanum (Sin. X. brevicolle), X. index, X. brasiliensis e X. krugi, entretanto a incidência dessas espécies nas principais áreas de vinhedos do país e a possível atuação como vetor ainda não são conhecidas. Os restos de raízes de plantas doentes que ficam no solo permanecem viáveis por alguns anos e podem servir de fonte de inóculo, em áreas infestadas por nematóides vetores. Não há informação de transmissão por meio de ferramentas.

Manchas das nervuras

    Essa doença é causada pelo vírus Grapevine fleck virus (GFkV) e conhecida na maioria dos países vitícolas do mundo, inclusive no Brasil. Tendo em vista sua alta ocorrência e por ser latente em praticamente todas as cultivares de produtoras e de porta-enxertos, essa virose faz parte dos programas de seleção sanitária da maioria dos países vitícolas.

Sintomatologia - Os sintomas da doença são característicos nas folhas novas do porta-enxerto Rupestris du Lot, e com menos intensidade em Kober 5BB, evidenciando-se como manchas translúcidas, sem forma definida, que acompanham as nervuras. As plantas muito afetadas são menos desenvolvidas e podem apresentar as folhas com os bordos voltados para cima. Nas demais cultivares comerciais, o vírus ocorre de forma latente.

Transmissão. O vírus é disseminado pelo material propagativo infectado pela enxertia. Não há constatação de contaminação de plantas por meio de ferramentas.

Necrose das nervuras

    A doença é considerada de origem viral e conhecida nas principais regiões vitícolas do mundo, além de afetar ampla gama de cultivares. Nas cultivares afetadas, os efeitos negativos parecem ter expressão econômica limitada. Por ser uma doença latente na quase totalidade das cultivares comerciais, e por sua alta ocorrência, tem sido normalmente incluída nos programas de seleção sanitária.

Sintomatologia - Ocorre necrose nas nervuras, visível na página inferior das folhas da base, evoluindo para outras folhas com o crescimento do ramo. Quando a necrose é muito intensa, pode induzir enrugamento e assimetria da lâmina foliar. Na superfície dos ramos verdes e no pecíolo da folha ocorrem estrias necróticas. Nas plantas muito afetadas, a coloração verde das folhas é bem menos intensa e a necrose das nervuras pode evoluir para manchas necróticas que abrangem grande parte da área foliar, em especial nas folhas da base dos ramos. Estes sintomas são observados somente no porta-enxerto R110. No Brasil foi verificado que o porta-enxerto Solferino reage à infecção com escurecimento em forma de estrias nos ramos e pecíolos e o franzimento das folhas. Nestas duas cultivares, quando as plantas estão muito afetadas, ocorre severa redução do crescimento, que evolui para o definhamento total das plantas. Nas demais cultivares, a doença é latente.

Transmissão. O patógeno perpetua-se no material propagativo e é transmitido pela enxertia. Não há constatação de transmissão por meio de ferramentas.

Incidência de viroses

    Em recentes levantamentos para a determinação da ocorrência do vírus do enrolamento da folha da videira foram detectadas incidências de 6,9 a 8,3% para o GLRaV-1; 25,6% para o GLRaV-2 (apenas em São Paulo) e 14,7 a 88% para o GLRaV-3 em amostras provenientes dos Estados do Rio Grande do Sul e São Paulo. Grande parte das amostras analisadas pelo teste sorológico ELISA foi de viníferas.

Diagnóstico viral

    Infecções múltiplas envolvendo diversos vírus são comuns em videiras, o que torna o diagnóstico baseado em sintomas de campo muito difícil. Muitas cultivares não apresentam sintomas evidentes, seja porque a infecção é latente ou porque a cultivar é mais tolerante. Deve-se considerar também outros fatores que causam sintomas semelhantes aos das viroses como carência ou excesso de nutrientes e ataque de outras doenças e pragas. Deste modo, as técnicas de diagnóstico são ferramentas indispensáveis para a identificação de infecções virais. As técnicas aqui mencionadas são executadas pelo Laboratório de Virologia da Embrapa Uva e Vinho em suas atividades de diagnose.

  • Indexagem biológica em plantas indicadoras lenhosas - Nesta técnica, os testes de transmissão são realizados por enxertia verde ou de mesa e os resultados demoram até dois anos. É uma técnica indispensável para a seleção de plantas livres de vírus.

  • Testes sorológicos - O teste mais empregado é o ELISA. Este teste é especialmente adequado para o monitoramento em programas que visam selecionar, manter e propagar material básico livre de vírus.
        Também são utilizados os métodos moleculares, que têm por fundamento o estudo dos dois constituintes básicos da partícula viral, a proteína capsidial e o ácido nucléico, sendo tais métodos complementares às técnicas biológicas e sorológicas para o diagnóstico e a caracterização viral.

Controle das viroses

  • Utilização de material propagativo sadio - O controle das viroses da videira somente é viável, no campo, através da utilização de material propagativo sadio (mudas, estacas e gemas) do porta-enxerto e da produtora. Como alguns dos vírus que afetam a videira podem ser latentes em muitas cultivares comerciais, ou seja, as plantas quando infectadas não exibem os sintomas característicos da doença, é impossível selecionar plantas sadias pela simples observação no campo. Faz-se necessário obter material propagativo certificado ou fiscalizado, ou seja, que tenha identidade varietal e garantia de sanidade. Este tipo de material pode ser obtido em órgãos oficiais, que desenvolvam programas de produção de material propagativo de videira livre de vírus, ou em viveiristas, que multipliquem material sadio sob controle de órgãos oficiais. Outra opção é a aquisição de mudas, via importação através do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, de viveiristas que forneçam o certificado de sanidade expedido por órgão oficial do país de origem. Não se recomenda que o viticultor produza suas mudas a partir da seleção de material vegetativo do seu próprio vinhedo ou de outros produtores pois, como mencionado, os sintomas de infecção viral no campo nem sempre são evidentes. No entanto, caso o viticultor faça a opção de produzir sua própria muda, ele deve observar épocas adequadas para selecionar plantas matrizes. Para o enrolamento, a melhor época é no fim do ciclo vegetativo da planta, antes da queda das folhas, enquanto que para as viroses do lenho rugoso a melhor época é no período de repouso da planta.
        A maioria dos viticultores e viveiristas está consciente do risco que as viroses representam para sua atividade econômica. Uma vez infectada por vírus, é impossível curar uma planta no campo pelos métodos tradicionalmente utilizados para outras doenças. Somente pela adoção de técnicas laboratoriais como a cultura de tecidos e a termoterapia é possível a obtenção de plantas sadias a partir de uma planta infectada por vírus. Países onde a viticultura tem longa tradição, há muito estabeleceram sistemas de limpeza clonal e distribuição de material propagativo. No Brasil, instituições oficiais tem desenvolvido programas de seleção de material vegetativo livre de vírus. A Embrapa Uva e Vinho vem, ao longo de mais de 20 anos, desenvolvendo um programa de produção e comercialização de material propagativo e matrizes de videira livre de vírus.

  • Controle de vetores - No Brasil ainda não está definido se as espécies de cochonilhas que ocorrem nos vinhedos transmitem vírus. Mesmo assim, como tem sido constatada a disseminação de viroses, especialmente nas regiões vitícolas tradicionais, deve-se fazer o controle eficiente desses insetos.
        No caso da cochonilha considerada como praga, a cultura pode até conviver com certo nível de infestação sem sofrer prejuízos econômicos significativos e, portanto, sem justificar a interferência com defensivos químicos. Quando o mesmo inseto é vetor de vírus, esta consideração não se aplica plenamente, pois mesmo uma reduzida população de insetos poderia eficientemente disseminar o vírus entre as plantas no vinhedo. O controle de insetos vetores de vírus é um tema importante que demanda estudos adicionais, específicos para cada situação, procurando definir questões como a eficiência e o alcance desta prática.

Doenças causadas por bactérias

    No Brasil, as doenças bacterianas não têm causado maiores preocupações aos viticultores, ocorrendo de forma esporádica, especialmente a bactéria Agrobacterium vitis, afetando principalmente mudas novas ou viveiros. Entretanto, recentemente, foi identificada na região do Submédio do Vale do São Francisco, pólo vitícola que abrange os municípios de Petrolina-PE e Juazeiro-BA, a bactéria Xanthomonas campestris pv. viticola causando uma severa doença denominada "Cancro Bacteriano". Serão descritas a seguir as duas doenças bacterianas mencionadas e que ocorrem no Brasil.

Galhas da coroa

    Causada pela bactéria Agrobacterium vitis, possui três biovares, sendo predominante na videira, o biovar 3, anteriormente denominado A. tumefasciens. Esta bactéria afeta inúmeras plantas frutíferas, além da videira. A disseminação do patógeno pode ocorrer por meio de material propagativo infectado (estacas, mudas), tesoura de poda e água do solo. A colonização dos tecidos da planta se dá a partir de ferimentos causados pela poda, desbrota e outros tratos culturais.

Sintomatologia - A galha é o sintoma mais característico da doença, de ocorrência mais comum na parte basal do tronco, próximo à linha do solo, embora possa se desenvolver também logo abaixo da superfície do solo e na parte aérea da planta (Figura 10). São constituídas por tecidos desorganizados do sistema vascular e do parênquima, apresentando quando jovens a superfície macia e clara, tornando-se áspera e escurecida à medida em que aumentam de tamanho.

Figura 10
Fig. 10. Galha na região da enxertia causada por Agrobacterium vitis. (Foto: G. Kuhn)

Controle - As plantas contaminadas no vinhedo devem ser arrancadas com o máximo possível de raízes e queimadas. Em áreas que já apresentaram plantas contaminadas, fazer rotação de cultura, por alguns anos, antes de se utilizar a área novamente para o cultivo de videira. Utilizar material propagativo de produtora e porta-enxerto sadios e evitar ferimentos, principalmente nas raízes e no colo das plantas.

Cancro bacteriano

    Causada pela bactéria Xanthomonas campestris pv. viticola. Foi identificada pela primeira vez no Brasil em 1998, em vinhedos do Submédio do Vale do São Francisco (PE e BA) e no Piauí. É atualmente, a doença bacteriana da videira mais importante, especialmente na Região do Vale do São Francisco, considerando a suscetibilidade das cultivares plantadas, a natureza da doença, que pode ocorrer de forma sistêmica (infecta toda a planta), e as condições climáticas favoráveis. Nas demais regiões vitícolas do país, embora ainda não seja conhecida, a doença tem uma importância potencial, visto que de modo geral as cultivares de Vitis vinifera são suscetíveis. O patógeno é transmitido principalmente através do material propagativo infectado e por meio de ferramentas utilizadas nas operações de desbrota, poda, raleio de bagas e colheita.

Sintomatologia - Nas folhas ocorrem pequenas manchas angulares escuras, circundadas ou não por um halo amarelado, distribuídas de forma esparsa ou concentradas próximo às nervuras e bordas das folhas. Nas nervuras e pecíolos podem aparecer manchas escuras, alongadas e irregulares. Nos ramos verdes e em ramos maduros, ocorre a formação de cancros e rachaduras longitudinais (Figura 11). No cacho, ocorrem fissuras e fendas necróticas no engaço e lesões escuras ligeiramente arredondadas nas bagas. Em cachos já formados, após a necrose da ráquis e de pedicelos, ocorre murcha das bagas. Os sintomas variam em intensidade, dependendo da cultivar afetada. No Submédio do Vale do São Francisco, a cultivar Red Globe e algumas cultivares sem sementes, principalmente, aquelas originadas da cultivar Thompson Seedless, têm se mostrado mais sensíveis, apresentando alta incidência em alguns parreirais. A doença também já foi constatada em outras cultivares de uvas finas de mesa, com incidência bastante variável, principalmente, em Itália e Benitaka, que aparentemente são mais tolerantes. Cultivares suscetíveis têm a produção reduzida e as plantas infectadas, geralmente, produzem cachos com sintomas de cancro no engaço, o que torna a uva de mesa sem valor comercial.

Figura 11
Fig. 11. Necrose nos ramos e folhas causada pela bactéria Xanthomonas campestris pv. viticola. (Foto: G. Kuhn)

Controle - O controle mais eficiente da doença está na utilização de mudas e material propagativo sadio, de modo a evitar a introdução da doença na propriedade. Especialmente em regiões onde a doença não é conhecida os cuidados devem ser redobrados, evitando-se a introdução de material propagativo das regiões onde a doença já foi detectada. Além do material propagativo deve-se controlar também a introdução de uva, especialmente para vinificação, pois a bactéria pode contaminar os cachos (pedúnculo, engaço), os quais, após a eliminação da cantina são distribuídos como matéria orgânica nos vinhedos, podendo transformar-se, assim, num meio de introdução e disseminação da bactéria nos vinhedos. Uma outra medida seria exigir sempre o certificado de sanidade, quando da aquisição de mudas ou qualquer material propagativo. No caso de se constatar sintomas duvidosos em regiões onde a doença não seja conhecida, deve-se de imediato isolar a área ou plantas, comunicar os órgãos oficiais, que irão confirmar a identificação e, em caso positivo, erradicar e queimar o material suspeito.
    Em região de ocorrência do cancro bacteriano o manejo da doença deve ser feito, principalmente, no período seco, época desfavorável a infecção. Entre as principais medidas podemos citar, a poda de ramos infectados, a poda drástica ou poda de recepa, a eliminação de plantas com altos níveis de infecção, a desinfestação de tesouras e de canivetes, a queima de restos de cultura, principalmente, aqueles resultante da poda de ramos e de cachos infectados e da eliminação de plantas doentes. No Brasil, ainda não há produtos registrados para o controle do cancro bacteriano em videira, entretanto, produtos à base de cobre têm sido utilizados em pulverizações e pincelamentos.
    Na avaliação da resistência de vários materiais de videira ao cancro bacteriano, observou-se, em condições de campo, que V. vinifera foi altamente suscetível à doença.

Doenças causadas por nematóides

    Nos parreirais brasileiros já foram relatados nove gêneros de nematóides, que parasitam o sistema radicular causando distúrbios, tanto morfológicos quanto fisiológicos, estando também associados ao declínio em videira: Aorolaimus (Sin. Peltamigratus), Aphelenchus, Longidorus, Meloidogyne, Mesocriconema, Pratylenchus, Rotylenchulus, Tylenchulus e Xiphinema. Os gêneros Meloidogyne e Xiphinema são os mais relacionados com a cultura da videira. Os nematóides do gênero Meloidogyne causam danos diretos ao sistema radicular, penetrando nas raízes para se alimentarem, enquanto que os do gênero Xiphinema, vetores de vírus, migram de planta a planta alimentando-se da parte terminal das raízes.
    Entre as espécies de Meloidogyne consideradas de maior importância econômica para a videira estão M. incognita, M. javanica e M. arenaria, as quais ocorrem de forma generalizada nas diversas áreas vitícolas do mundo, porém apenas as duas primeiras já foram relatadas no Brasil. Dentro do gênero Xiphinema, quatro espécies ocorrem em videira no Brasil, X. index, X. americanum (Sin. X. brevicolle), X. brasiliensis e X. krugi, sendo que as duas primeiras podem transmitir vírus, possuindo desta forma maior importância. No Brasil, são muito limitadas as informações sobre as espécies destes dois gêneros que parasitam a videira, não sendo conhecidos os níveis reais de danos que elas podem causar.

Sintomatologia - As espécies do gênero Meloidogyne provocam a formação de galhas ou nodosidades, devido às secreções liberadas pelas larvas e adultos ao se alimentarem. As espécies do gênero Xiphinema causam apenas inchamentos nas pontas das radicelas, porém, são importantes pelo fato de transmitirem vírus de uma planta doente para outra sadia. Na parte aérea da planta os sintomas são poucos perceptíveis, mostrando apenas uma aparência clorótica nas folhas, ou seja, um verde menos intenso, apresentando como maior reflexo do parasitismo a queda na produtividade.

Controle - As medidas preventivas são as mais importantes para o controle desses parasitas. É fundamental um rigoroso controle na aquisição das mudas enraizadas, examinando-se cuidadosamente o sistema radicular que deve estar bem lavado para facilitar o exame. Mudas com galhas ou nodosidades devem ser rejeitadas. Outro aspecto importante na aquisição da muda é a correta identificação do porta-enxerto para que se possa escolher o mais resistente no caso da área disponível para o plantio já apresentar infestação de nematóides das galhas (Meloidogyne spp.). Recomenda-se sempre fazer amostragem e análise nematológica nas áreas a serem utilizadas para verificar se há ocorrência desses parasitas. Em algumas condições de solo, em especial nos arenosos, podem ocorrer grandes populações desses nematóides. No Brasil, principalmente nas regiões de clima mais frio, os porta-enxertos comumente utilizados apresentam boa resistência ao ataque desses parasitas, especialmente das espécies de Meloidogyne citadas. Recomenda-se portanto como principal medida de controle, em áreas contaminadas ou duvidosas, o uso de porta-enxertos que apresentam algum nível de resistência a meloidoginose, tais como: SO4, Kober 5BB, P1103, 101-14, R99 e 3309. Em regiões muito afetadas por estes parasitas existem outros porta-enxertos, obtidos especialmente para o seu controle, embora não sejam utilizados no Brasil, pelo menos em áreas comerciais, são eles: Salt Creek, Dog Ridge e Harmony.
    Quanto ao controle químico, somente é viável economicamente em pequenas áreas, especialmente em viveiros. Em grandes áreas torna-se difícil e caro, pois a aplicação de produtos nematicidas requer equipamentos adequados e trabalhos profundos no solo, em particular no replantio em locais onde já tinham vinhedos, visto que o sistema radicular da videira é muito profundo e os nematóides permanecem nos restos de raízes após a eliminação da planta. Em áreas com infestação recomenda-se o plantio de cereais ou outras gramíneas por mais de dois anos para, posteriormente, implantar o vinhedo utilizando porta-enxerto resistente.

Topo

Copyright © 2003, Embrapa