Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 11
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uva de Mesa do Norte de Minas Gerais
Jair Costa Nachtigal
Umberto Almeida Camargo
Cultivares

Na região de Pirapora, as cultivares predominantes são as cultivares com sementes, destacando-se a cv. Itália e suas mutações (Rubi, Benitaka e Brasil) e a cv. Red Globe. As variedades sem sementes representam uma área bem menor, destacando-se a Centennial Seedless e, mais recentemente, as cultivares lançadas pela Embrapa Uva e Vinho - BRS Morena, BRS Clara e BRS Linda, cujo interesse pelo cultivo tem aumentado muito nessa região.
O cultivo de variedades tradicionais sem sementes, como Thompson Seedless, Crimson Seedless e Superior Seedless, apesar de encontrar dificuldades pela falta de adaptação dessas cultivares, tem tido interesse por alguns viticultores da região de Pirapora, porém em uma escala ainda muito pequena.

Principais Cultivares

Porta-enxertos
Cultivares-copa

Porta-enxertos

Na região de Pirapora os porta-enxertos mais utilizados para o cultivo de uvas finas de mesa são os porta-enxertos IAC 572 'Jales' e o IAC 766 'Campinas', ambos criados pelo Instituto Agronômico de Campinas e adaptados ao cultivo em regiões tropicais e subtropicais. A seguir serão apresentadas algumas das principais características deses porta-enxertos.

'IAC 572' - 'Jales'

O porta-enxerto 'IAC 572' foi desenvolvido a partir do cruzamento V. tiliifolia x '101-14 Mgt'. Na região noroeste paulista é conhecido erroneamente como 'Tropical sem vírus'. Daí foi levado para outras regiões vitícolas, como o Vale do Rio São Francisco, e para os Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul.
Atualmente, é o porta-enxerto mais utilizado nas principais regiões tropicais produtoras de uvas de mesa. O 'IAC 572' é um pouco mais vigoroso do que o 'IAC 313', é de fácil enraizamento e apresenta bom índice de sobrevivência quando transplantado para o campo. Pode ser utilizado para cultivares de uvas como Itália, Rubi, Benitaka, Brasil, Red Globe, Red Meire, Centennial Seedless, Thompson Seedless, Crimson Seedless, BRS Clara, BRS Morena e BRS Linda.

'IAC 766' - 'Campinas'

O porta-enxerto 'IAC 766' foi desenvolvido a partir do cruzamento '106-8 Mgt' colocar um colchete no lugar do v. riparia x (V. rupestris x V. cordifolia) colocar mais um colchete x V. tiliifolia. É um porta-enxerto menos vigoroso que o IAC 572 (Fig. 1), o que dificulta, em alguns casos, a obtenção de plantas com desenvolvimento adequado para a realização da enxertia de inverno realizada no local definitivo quando o transplante é feito tardiamente (após o mês de dezembro). Em regiões com ocorrência de temperaturas mais baixas, este porta-enxerto tende a entrar em dormência durante o inverno, apresentando intensa queda de folhas.
O 'IAC 766' é recomendado para cultivares como Itália, Rubi, Benitaka, Brasil, Red Globe, Centennial Seedless, BRS Clara, BRS Morena e BRS Linda. Embora haja necessidade de estudos mais completos, acredita-se que este porta-enxerto seja uma boa alternativa para cultivares de uvas sem sementes e uvas para suco, devido ao fato de proporcionar menor vigor à copa, o que favorece a diferenciação de gemas nas uvas sem sementes e facilita o manejo da copa nas uvas para suco em espaçamentos adensados.

Fig. 1. Diferença de vigor entre os porta-enxertos IAC 572 (mais vigoroso) e o IAC 766.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Cultivares-copa

As principais cultivares-copa utilizadas nos plantios na região de Pirapora, são apresentadas a seguir:

Com sementes:

Itália

A cultivar Itália é uma cultivar de película branca (Fig. 2), resultado do cruzamento entre 'Bicane' e 'Moscatel de Hamburgo', realizado em 1911, por Angelo Pirovano, e originalmente chamado de Pirovano 65. É a principal uva fina de mesa cultivada nos principais pólos produtores brasileiros.
Dentre as principais características da cultivar Itália destacam-se a produtividade, que facilmente atinge 30t/ha/ciclo; a boa aceitação pelo mercado consumidor, tanto nacional quanto internacional; o bom tamanho de bagas; o sabor moscatel e; a boa resistência ao transporte e ao armazenamento.
Os principais problemas com a cv. Itália estão relacionados à sensibilidade às doenças, principalmente míldio e oídio, e à necessidade de mão-de-obra intensiva para realização dos tratos culturais, principalmente o raleio de bagas, que promovem perdas e aumentam o custo de produção. Isso tem feito com que muitos produtores procurem outras cultivares para diversificarem a produção.

Fig. 2. Cultivar Itália.
Foto: Umberto A. Camargo

Rubi

A cultivar Rubi (Fig. 3) surgiu de uma mutação somática constatada em pomar comercial de uva 'Itália' do Sr. Kotaro Okuyama, em 1972, no município de Santa Mariana, Estado do Paraná. Apresenta as mesmas características da cultivar Itália, com exceção da cor da película que apresenta-se rosada. Para que a cv. Rubi apresente uma boa coloração, tanto em tonalidade quanto em uniformidade, o período de maturação deve ocorrer em períodos com amplitude térmica, ou seja, com temperaturas quentes durante o dia e frias durante a noite.

Fig. 3. Cultivar Rubi.
Foto: Umberto A. Camargo

Benitaka

Também é uma cultivar originada de mutação somática espontânea da cultivar Rubi, encontrada na propriedade dos viticultores Sadao & Takakura, em Floraí, no Estado do Paraná, em 1988. Apresenta as mesmas características vegetativas e produtivas das cultivares Itália e Rubi, diferindo apenas quanto à coloração rosada intensa das bagas (Fig. 4) e à coloração avermelhada do pincel.

Fig. 4. Cultivar Benitaka.
Foto: Jair Costa Nachtigal

Brasil

A 'Brasil' é outra cultivar originada de mutação somática espontânea da cultivar Benitaka, encontrada na propriedade de Hideo Takakura, em Floraí, no Estado do Paraná, em 1991. Apresenta as mesmas características vegetativas e produtivas das cultivares Itália, Rubi e Benitaka, diferindo destas pela coloração preta das bagas (Fig. 5) e por apresentar polpa colorida. A cultivar Brasil tem encontrado algumas dificuldades de comercialização em função da colheita em ponto de maturação inadequado, devido à coloração preta das bagas mesmos quanto o teor de açúcares ainda não atingiu o mínimo de 14°Brix.

Fig. 5. Cultivar Brasil.
Foto: Jair Costa Nachtigal

Redimeire ou Red Meire

A cultivar Redmeire é a última cultivar originária de mutação somática espontânea da cultivar Rubi, encontrada na propriedade de Paulo Abe, em Pirapora-MG. Apresenta as mesmas características vegetativas e produtivas da cultivar que lhe deu origem, entretanto apresenta bagas alongadas, que podem atingir até 7cm de comprimento. Apresenta excelente sabor moscatel quando completamente madura. As principais dificuldades de cultivo desta uva são a coloração deficiente das bagas quando a colheita é feita em períodos com pouca amplitude térmica e sensibilidade ao rachamento das bagas por ocasião de chuvas próximas ao período de maturação.

Redglobe ou Red Globe

Essa cultivar foi obtida do cruzamento entre as cultivares (Hunisa x Emperor) x (Hunisa x Emperor x Nocera), realizado por H.P. Olmo, em Davis, na Universidade da Califórnia, e introduzida no Brasil pelo Instituto Agronômico de Campinas, em 1988. É uma cultivar bastante vigorosa e produtiva, com cachos e bagas grandes. A coloração das bagas é rosada a vermelha (Fig. 6), com polpa firme e sabor neutro. As principais vantagem do cultivo dessa uva são a produtividade elevada, a boa aceitação no mercado, a boa capacidade de conservação pós-colheita e a resistência ao rachamento de bagas por ocorrência de chuvas próximo e durante o período de colheita. As principais dificuldades referem-se ao controle do crescimento vegetativo e anomalias como o dessecamento de bagas e murchamento do engaço. No Vale do São Francisco, essa cultivar tem apresentado elevada sensibilidade ao cancro bacteriano causado por Xanthomonas campestris pv. viticola, doenças que ainda não foi encontrada na região de Pirapora.

Fig. 6. Cultivar Red Globe.
Foto: Umberto Almeida Camargo

Pingo de Mel

Segundo informações, a cultivar Pingo de Mel é uma cultivar oriunda de mutação espontânea da cultivar Itália, em São Miguel Arcanjo-SP, por volta de 1989/90.. Apresenta características produtivas muito semelhantes à cultivar Itália, com exceção da forma elíptica/ovóide das bagas. É um material bastante sensível ao rachamento de bagas devido à ocorrência de chuvas. Em Pirapora, os produtores tiveram interesse por esse material em função da boa aceitação pelos consumidores e pelo tamanho grande das bagas. Entretanto, atualmente, os poucos plantios existentes estão sendo substituídos por outras cultivares em função da pouca oferta dessa cultivar e, consequentemente, pouca tradição de consumo.

Fig. 7. Cultivar Pingo de Mel.
Foto: Umberto Almeida Camargo

Sem sementes:

Centennial Seedless

É uma cultivar sem sementes, obtida por Olmo & Koyama na Califórnia, Estados Unidos, a partir do cruzamento de 'Gold x Q 25-6 (seleção F2 de 'Emperor x Pirovano 75), realizado em 1966 e lançada em 1980. A planta apresenta-se vigorosa e produtiva, com folhas grandes, cachos grandes e bagas de coloração branca (Fig. 8), alongadas, crocontes e com sabor neutro agradável. Além das doenças fúngicas principais da cultura da videira, a cv. Centennial é bastante sensível à Botryodiplodia theobromae, fungo que ataca o lenho da videira. Outra dificuldade de cultivo diz respeito à sensibilidade à degrana, o que exige cuidados especiais na colheita, manuseio e embalagem dos cachos.

Fig. 8. Centennial Seedless.
Foto: Jair Costa Nachtigal

Crimson Seedless

É uma cultivar sem sementes, obtida no programa de melhoramento do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em Fresno, Califórnia, por David Ramming e colaboradores e lançada em 1989. Foi introduzida no Brasil pelo Instituto Agronômico de Campinas, em 1993. A planta é vigorosa e produtiva, com cachos soltos medianamente compactos e bagas ovóides alongadas de coloração avermelhada (Fig. 9), crocantes e sabor neutro agradável. Apesar de ser cultivada em pequena escala em Pirapora, existe interesse pelos produtores, principalmente em função da coloração e da produtividade, que tem-se mostrado satisfatória nessa região.

Fig. 9. Cultivar Crimson Seedless.
Foto: Umberto A. Camargo

Thompson Seedless

Também conhecida com Sultanina em alguns países, originária da Ásia Menor, é a cultivar sem sementes mais plantada no mundo. A planta é vigorosa, os cachos são grandes e as bagas apresentam coloração branca-amarelada (Fig. 10), de forma elipsóide, polpa de textura firme e sabor neutro agradável. Embora o tamanho natural das bagas seja pequeno, aplicações com ácido giberélico podem torná-las de tamanho adequado para a comercialização. Essa cultivar tem apresentado boa produção em Pirapora quando cultivada no sistema de condução em Y e com manejo adequado dos ramos, o que tem despertado interesse pelos viticultores, apesar da área cultivada ainda ser pequena.

Fig. 10. Cultivar Thompson Seedless.
Foto: Jair Costa Nachtigal

BRS Morena

'BRS Morena' (Fig. 11) é uma cultivar de uva sem sementes desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho a partir do cruzamento Marroo Seedless x Centennial Seedless, realizado em 1998 e lançada em 2003. A planta apresenta vigor moderado e fertilidade elevada, o cacho é de tamanho médio a grande, cilindro-cônico, solto a mais ou menos cheio, pedúnculo curto. A baga tem forma elíptica, tamanho natural, em média, 16mm x 20mm, preta, película de espessura média, polpa incolor, trincante, sabor neutro; traço de semente pequeno a médio, macio, imperceptível ao mastigar.
'BRS Morena' apresenta comportamento similar à cv. Itália em relação às doenças fúngicas, portanto, deve ser adequadamente protegida, com especial atenção para o míldio (Plasmopara viticola).
A uva tem bom equilíbrio entre açúcar e acidez, o que lhe confere ótimo sabor, muito elogiado pelos consumidores durante os testes de validação. Também é destaque em qualidade pela textura firme e trincante da polpa. Apresenta um elevado potencial glucométrico, chegando a mais de 20ºBrix, porém, é recomendável que seja colhida com 18 a 19ºBrix, quando a relação açúcar/acidez (SST/ATT) já é superior a 24. Apresenta boa conservação na planta, o que favorece o retardamento da colheita, se houver interesse. Também comporta-se bem em relação ao rachamento de bagas causado pela ocorrência de chuvas durante o período de maturação da uva. A aderência ao pedicelo é fraca, recomendando-se cuidados especiais na manipulação durante a colheita e embalamento. O engaço desidrata relativamente rápido após a colheita, sob condições de ambiente natural. Face ao exposto, o embalamento da uva em sacolas de plástico ou cumbucas, que depois são acondicionados em caixas, é uma providência importante para sua comercialização.

Fig. 11. Cultivar BRS Morena.
Foto: Jair Costa Nachtigal

BRS Clara

'BRS Clara' (Fig. 12) é outra cultivar de uva sem sementes desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho e lançada em 2003. Ela é oriunda do cruzamento CNPUV 154-147 x Centennial Seedless, realizado em 1998. É uma cultivar vigorosa e produtiva, o cacho é de tamanho médio a grande, cônico, às vezes alado, cheio, pedúnculo robusto, longo. A baga tem forma elíptica, tamanho natural, em média, 15 mm x 20 mm, verde-amarelada, chegando a amarelo mais intenso quando exposta ao sol, película de espessura média, resistente, polpa incolor, firme, crocante; sabor moscatel leve e agradável, traço de semente grande e de cor marrom, porém, imperceptível à mastigação.
A uva 'BRS Clara' destaca-se pelo suave e agradável sabor moscatel, pela coloração verde-amarelada das bagas e textura crocante da polpa. Apresenta um elevado potencial glucométrico, chegando a mais de 20ºBrix, porém, o ponto de colheita recomendável é quando atinge 18ºBrix a 19ºBrix, quando a relação açúcar/acidez (SST/ATT) situa-se em torno de 24. Apresenta boa conservação na planta, o que favorece o retardamento da colheita, se houver interesse. Também comporta-se bem em relação ao rachamento de bagas causado pela ocorrência de chuvas durante o período de maturação da uva. O cacho apresenta boa conformação, sendo naturalmente cheio, sem necessidade de raleio de bagas. As bagas têm boa aderência ao pedicelo, sendo bastante resistentes à degrana mesmo após a seca do engaço. O engaço desidrata relativamente rápido após a colheita sob condições de ambiente natural.

Fig. 12. Cultivar BRS Clara.
Foto: Umberto A. Camargo

BRS Linda

'BRS Linda' (Fig. 13) também é uma cultivar de uva sem sementes desenvolvida pela equipe de pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho. Ela é oriunda do cruzamento CNPUV 154-90 x Saturn, realizado em 1998. A planta é vigorosa e muito produtiva, apresenta cacho de tamanho grande, cilindro-cônico, cheio, pedúnculo curto. A baga é elíptica, tamanho natural, em média, de 19mm x 24mm, cor verde, tornando-se amarelada quando exposta ao sol; película de espessura média; polpa incolor, firme, crocante, sabor neutro, traço de semente minúsculo, praticamente invisível.
Apresenta entrenós curtos e folhas grandes, o que condiciona a uma vegetação fechada, favorável à incidência de doenças fúngicas se não for feito adequado manejo da vegetação. É bastante sensível ao oídio (Uncinula necator), exigindo cuidados no seu controle. Em relação às demais doenças fúngicas, tem comportamento similar à cv. Itália, devendo ser adequadamente protegida.
A uva 'BRS Linda' tem coloração verde, tonalidade preferida em certos mercados como, por exemplo, o inglês. O cacho atinge facilmente 450 g a 600 g e o tamanho natural das bagas, em média, 19 mm x 24 mm, pode dispensar o uso de reguladores vegetais, o que é interessante sobretudo para sistemas de produção orgânica. Apresenta limitado potencial glucométrico, normalmente na faixa de 14ºBrix a 15ºBrix, e baixa acidez. O sabor é neutro, bem aceito pelo consumidor brasileiro que, normalmente, prefere frutas menos ácidas. A polpa é firme, crocante. Destaca-se pela alta aderência ao pedicelo, com alta resistência à degrana, e engaço forte, resistente ao murchamento, características importantes no período pós-colheita.

Fig. 13. Cultivar BRS Linda.
Foto: Umberto A. Camargo
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