Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 11
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uva de Mesa do Norte de Minas Gerais
Jair Costa Nachtigal
Poda e quebra de dormência

A poda da videira compreende todas as operações realizadas na planta com o objetivo de equilibrar o crescimento vegetativo e a produção, fornecendo condições para que a planta produção frutas com as máximas quantidade e qualidade durante o maior período possível.
As classificações, as denominações e as épocas das podas podem variar conforme a região e a preferência dos técnicos e viticultores. Assim sendo, para facilitar a apresentação, será utilizada uma forma didática para apresentação das etapas e operações importantes para a realização da poda e da quebra de dormência para a produção de uvas finas de mesa em Pirapora.

Poda de formação da planta
Poda Madura
Podas verdes
Quebra de dormência

Poda de formação da planta

Essa poda tem por objetivo formar a planta, após a enxertia, dando a estrutura necessária para otimização da produção e para facilitar a realização das operações de manejo e fitossanitárias no pomar.
Para formação da planta com dois braços, independente se a condução seja feita no sentido da rua ou no sentido da entre-linha, durante o crescimento do broto do enxerto, faz-se a retirada de brotos laterais (netos), exceto os dois últimos logo abaixo do aramado. Para fazer a desponta da brotação principal e deixar os dois netos que formarão os braços da planta, recomenda-se fazê-lo quando a brotação já ultrapassou a altura da latada, momento em que os entre-nós já atingiram o comprimento definitivo e não há riscos das brotações deixadas para formação dos braços ficarem muito próximas dos arames ou até acima destes. Nos dois brotos são deixados todos os brotos laterais (netos) para a formação das primeiras varas de produção.
Na condução destes brotos, futuras varas de produção, é realizada: a retirada de brotos laterais (netos ou feminelas), ainda jovens, de gavinhas, e é feito o desponte terminal das varas quando estiverem com 1,60 m de comprimento. Se ocorrer a brotação da última gema, este broto originado deve ser despontado com três a quatro folhas.
Para formação de plantas com um único braço, a recomendação é a mesma, apenas é deixado uma única brotação lateral do enxerto ou a brotação deste é conduzida no sentido desejado, eliminado-se os netos que ficam abaixo da estrutura da latada.

Poda Madura

Em Pirapora, a poda seca pode ser dividida em dois tipos diferentes de poda: a poda de produção ou frutificação e a poda de renovação ou formação de ramos. Essas podas diferem pela época de realização e pelo objetivo, visto que a primeira visa a obtenção de frutos e a segunda visa somente a formação de ramos para produção no ciclo seguinte.
A seguir serão apresentados os principais aspectos envolvidos em cada uma dessas podas:

Poda de produção ou poda de frutificação

A poda de produção é realizada em ramos lignificados, com cerca de 6 meses de idade, e tem o objetivo de equilibrar a brotação e a produção de cachos, de forma a deixar a maior quantidade de cachos possível para permitir a máxima qualidade às frutas.
O número de gemas deixadas nas varas durante a poda de produção vai depender da cultivar e de outros fatores, como vigor, estado fitossanitário, número de varas existentes, entre outros. Normalmente, para as principais cultivares de uvas finas de mesa, a poda de produção é feita deixando-se cerca de 10 gemas nas varas, das quais apenas as 4 ou 5 gemas apicais recebem a aplicação de produto para quebra da dormência, as demais permanecem sem brotar durante todo o ciclo. Em ramos fracos ou atacados por pragas ou doenças, a poda de produção pode ser realizada deixando-se um menor número de gemas.
O número de varas a serem deixadas na planta vai depender da cultivar, do espaçamento, da estrutura da planta, etc, mas, de modo geral, pode-se considerar que para otimizar a produção deve ser deixada uma vara a cada 20-25cm do mesmo lado do braço, ou seja, a poda deve ser longa.
Quanto a época, em Pirapora, a poda de produção é realizada no primeiro semestre, normalmente a partir de fevereiro, quando as chuvas começam a diminuir na região. Com isso, a maturação, dependendo da cultivar e da época, inicia a partir de 120 dias após a poda.

Poda de renovação ou formação de ramos

A poda de formação de ramos tem por objetivo formar os ramos produtivos do próximo ciclo. É realizada cerca de 30 dias após a colheita das uvas e, diferentemente da poda de produção, são deixadas apenas 2 ou 3 gemas, ou seja, é uma poda curta. Essa poda é realizada na mesma vara que foi podada no ciclo anterior, de modo que as próximas brotações fiquem próximas dos braços da planta.
Após a poda, é feita a aplicação de produto para quebra da dormência em todas as gemas. Os cachos que surgirem nas brotações devem ser eliminados, tão logo seja possível.
Quanto à época, a poda de formação de ramos é realizada no segundo semestre do ano, período em que já pode haver ocorrência de chuvas.

Podas verdes

As podas verdes compreendem todas aquelas operações realizadas na planta com o objetivo de melhorar a estrutura da planta, a insolação, a aeração, o manejo e o controle fitossanitário. As principais podas verdes realizadas para produção de uvas finas de mesa em Pirapora são a desbrota, o desnetamento, a eliminação de gavinhas, o desponte de ramos e, se for o caso, de cachos, a desfolha e o raleio de bagas.
A seguir serão apresentadas as principais recomendações para cada uma dessas operações.

Desbrota

A desbrota consiste na eliminação de brotações que surgem do tronco e do porta-enxerto; das brotações que estão em excesso nos ramos deixados tanto na poda de produção quanto na poda de formação de ramos. A desbrota deve ser realizada o mais cedo possível, o que aumenta o rendimento da operação, facilita a cicatrização e evita o uso de tesouras. Nessa operação, é possível fazer a seleção das melhores brotações, bem como fazer a adequação do número de unidades produtivas adequada para os próximos ciclos naquela planta.

Desnetamento

Ao desnetamento consiste na eliminação das brotações secundárias que surgem das axilas das folhas. Essas brotações funcionam com "ladrões" da seiva, impedindo o crescimento adequado das brotações e dos cachos, provocam, também, o sombreamento excessivo, dificultam a aplicação de produtos fitossanitários, entre outras. Por isso, devem ser eliminadas manualmente o mais rápido possível.

Eliminação de gavinhas

A retirada das gavinhas, estruturas responsáveis pela fixação dos ramos da videira, é uma operação que deve ser feita tão logo seja possível, de preferência manualmente.

Desponte de ramos e de cachos

O desponte de ramos tem por finalidade evitar o crescimento excessivo dos mesmos. No caso de brotações com cachos, o desponte dos ramos faz com que a seiva seja direcionada para o crescimento dos frutos e das folhas e não dos ramos. O desponte dos cachos, por sua vez, tem por objetivo melhorar a conformação, uniformizar o teor de açúcares e melhorar o tamanho das bagas remanescentes.

Desfolha

A eliminação de folhas tem por objetivo equilibrar a relação área foliar/número de cachos, melhorar a ventilação e a insolação no interior da parreira. Normalmente, a desfolha é feita em plantas vigorosas, com folhas grandes, com entre-nós curtos, etc., e são eliminadas as folhas da base, até próximo ao primeiro cacho, juntamente com o desnetamento e a eliminação das gavinhas. Deve-se tomar o cuidado para não fazer uma desfolha muito intensa, o que pode trazer prejuízos à planta pelo menor acúmulo de açúcares nos cachos, dificuldade de maturação de ramos, bem como a ocorrência de queimaduras de bagas pela ação dos raios solares.

Raleio de bagas

O raleio de bagas é uma das operações com maior exigência de mão-de-obra e, consequentemente, com maior custo na produção de uvas finas de mesa. Nas cultivares Itália, Rubi, Benitaka e Brasil, para obtenção de cachos e de bagas de tamanho e qualidade adequados para o comércio, é necessário fazer a eliminação do excesso de bagas. Essa prática pode ser feita em duas fases distintas. A primeira fase é na pré-floração, quando os botões florais soltam facilmente do cacho. Nessa fase é utilizado o "pente" plástico ou mesmo com a mão, em processo denominado "pinicagem". O raleio com pente possibilita um bom rendimento e uma boa eficiência, porém não deve ser utilizado em períodos chuvosos. O pente é passado várias vezes até se chegar à eliminação do número desejado de botões florais, o que, em alguns casos, chega a 80% do número total. Nessa operação são mantidos os ombros e pencas dos cachos, eliminado-se apenas os botões florais. Após o raleio com pente, é necessário fazer a aplicação de um fungicida para proteção do cacho.
Uma segunda fase para o releio de bagas é após a fecundação, a partir da fase de chumbinho. Nessa fase, é utilizada a tesoura de desbaste para eliminação das bagas. O raleio com tesoura é mais utilizado como uma complementação ao raleio com pente, uma vez que é bem mais trabalhoso e demorado. Com a tesoura são eliminadas as bagas pequenas, com algum tipo de defeito, localizadas na parte interna do cacho e as que estão ainda em excesso, deixando-se as bagas de tamanho e distribuição uniformes.

Desbaste de cachos

O desbaste de cachos consiste na eliminação do excesso de cachos, de modo a deixar uma produtividade que permita a obtenção de máxima qualidade das frutas. Deve ser feito o mais rápido possível, a fim de evitar a competição com os cachos que serão deixados na planta. A eliminação dos cachos é feita com tesoura, deixando-se os cachos maiores ou melhor formados.
No caso das cultivares sem sementes BRS Morena, BRS Clara e BRS Linda, a operação de eliminação do excesso de cachos é fundamental para a obtenção de uvas com a qualidade exigida pelo mercado, tanto em tamanho de bagas quanto em teor de açúcar e sabor.

Quebra de dormência

A quebra de dormência na região de Pirapora é feita utilizando-se o produto comercial Dormex?, que possui 49% do ingrediente ativo que é a cianamida hidrogenada. O Dormex? é aplicado diretamente às gemas, via pincelamento, imersão dos ramos ou pulverização, em concentrações que variam de 5 a 7%, logo após a realização da poda. O objetivo principal é a indução e a uniformização das brotações, já que, nessa e em outras regiões produtoras de uvas finas de mesa do Brasil, a ocorrência de frio não é suficiente para a quebra natural da dormência das gemas.
No caso das podas de produção, a aplicação do Dormex? é feita somente em 4 a 5 gemas da ponta dos ramos, que emitirão as brotações e os cachos. Nas demais gemas não é feita a aplicação. Atualmente, não é possível uma produção de uvas em quantidade e com qualidade em Pirapora sem a aplicação de produtos para a quebra de dormência.
Para a aplicação de produtos para a quebra de dormência, assim como os produtos fitossanitários, é necessária a utilização de equipamentos de proteção individual adequados.

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