Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 10
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uva de Mesa no Norte do Paraná
Lucimara Rogéria Antoniolli
Colheita e manuseio pós-colheita

Ponto de colheita
cuidados
Colheita
Transporte
Operações no packing-house
Estudo de caso: região de Marialva-PR

Ponto de colheita

    A maturação pode ser determinada através do teor de sólidos solúveis associado a outros atributos como aparência, cor, textura e sabor, além da contagem de dias a partir da brotação. Na prática, os principais fatores para determinação do ponto de colheita são: teor de sólidos solúveis (oBrix) e relação sólidos solúveis/acidez titulável. Pelas normas internacionais de comercialização de uvas de mesa, o teor mínimo de sólidos solúveis é de 14 ºBrix, sendo que para as variedades Itália, Rubi e similares recomenda-se relação sólidos solúveis/acidez titulável mínima de 15:1.

Cuidados Pré-Colheita

  1. Tratando-se de área irrigada, recomenda-se a redução da quantidade de água disponível à planta, de forma a evitar a turgidez excessiva das bagas, o que as torna mais susceptíveis aos danos no manuseio e transporte;
  2. Aferir o diâmetro das bagas, tamanho e formato dos cachos e o teor de sólidos solúveis, bem como avaliar as condições gerais do fruto;
  3. Programar as colheitas, no tocante à necessidade de mão-de-obra e material necessário;
  4. Conservar contentores de colheita em bom estado de conservação, limpos e sanitizados;
  5. Preparar o packing-house. As instalações, equipamentos e materiais devem estar limpos e sanitizados;
  6. Treinar colhedores e operadores para exercer adequadamente suas funções.

Colheita

    A colheita deve ser realizada nas horas mais frescas do dia, evitando-se colher nos dias chuvosos ou quando houver orvalho sobre o fruto.
    Os contentores devem ser distribuídos ao longo das linhas de plantio, apoiados, em posição inclinada, no caule das plantas, evitando-se o contato direto com o solo. Os contentores devem estar limpos, sanitizados e forrados com material macio, flexível e lavável, tomando-se sempre o cuidado de não deixar, em seu interior, restos de cultura ou quaisquer materiais que possam danificar e/ou contaminar as uvas. Higiene e cuidado no manuseio são procedimentos simples que resultam em frutos de elevada qualidade sem que haja aumento de custo para o produtor.
    Os cachos são colhidos utilizando-se tesoura apropriada, com lâminas curtas e pontas arredondadas para não ferir as bagas. O corte deve ser realizado rente ao ramo de produção, na porção lignificada, segurando o cacho pelo pedúnculo e evitando o seu contato com as mãos, de forma a preservar a pruína, espécie de cera natural que recobre e protege as bagas. Os colhedores devem ter as mãos limpas e as unhas cortadas, além de usarem luvas, sempre que possível. Ainda no campo, procede-se a primeira toalete, retirando-se restos foliares, ramos secos, gavinhas e bagas defeituosas e danificadas. Em seguida, os cachos devem ser acondicionados nos contentores, em camada única e posicionados com o pedúnculo para cima, de forma a impedir que danifiquem outros cachos. Os contentores devem ser mantidos à sombra e transportados ao packing-house o mais rápido possível, a fim de evitar a desidratação das uvas, com ressecamento dos engaços e desprendimento das bagas (degrana).

Transporte

    A maior incidência de danos mecânicos ocorre durante o transporte, logo, tornam-se necessários alguns cuidados a fim de amenizá-los:

  1. Retirar os contentores do campo com auxílio de veículos apropriados, paletizando-os, quando possível;
  2. Caso o veículo de transporte seja aberto, cobri-lo com lona de cor clara, deixando espaço suficiente para que haja ventilação;
  3. Reduzir a pressão dos pneus e adaptar os amortecedores visando a maior absorção de impactos;
  4. Manter carreadores e estradas em boas condições, eliminando-se buracos, pedras ou quaisquer obstáculos aos veículos utilizados no transporte;

    Convém salientar que o sistema de transporte ideal é em veículos fechados, com sistema de nebulização.

Operações no packing-house

    O packing-house deve ser bem iluminado e estar em perfeitas condições higiênico-sanitárias. As principais operações realizadas em um packing-house de uva de mesa são: recepção, limpeza, classificação, fiscalização, pesagem, embalagem, paletização, pré-resfriamento, armazenamento e transporte.
    Na recepção, os contentores provenientes do campo são pesados e identificados (procedência, manejo antes e durante a colheita, hora de chegada). Essas medidas de controle, associadas à amostragem do lote, permitem analisar a qualidade do fruto e avaliar o rendimento do operário. A limpeza dos cachos consiste na inspeção para remoção de bagas verdes e danificadas, bem como de pedicelos.
    Não existe uma norma oficial para a classificação de uvas de mesa no Brasil, no entanto, o Centro de Qualidade em Horticultura (CQH) da Ceagesp, juntamente com a Câmara Setorial de Frutas, elaboraram o Programa Brasileiro para a Modernização da Horticultura, que classifica as uvas de mesa em grupo, subgrupo, classe, subclasse e tipo ou categoria. Quanto ao grupo, as uvas são classificadas quanto à presença ou ausência de sementes. O subgrupo está relacionado à coloração da baga (uvas brancas e coloridas). Quanto à classe, as uvas são classificadas com relação ao peso do cacho, enquanto a subclasse classifica-as quanto ao diâmetro da baga. O tipo ou categoria estabelece tolerâncias diferentes aos defeitos leves e graves, associados às características de coloração, engaço e formação do cacho. A fiscalização consiste na verificação dos procedimentos relativos à limpeza e classificação.
    A pesagem pode ser realizada antes ou depois da embalagem, sendo que o peso da caixa deve seguir rigorosamente os critérios estabelecidos pelos mercados interno ou externo.
    Normalmente os cachos são embalados individualmente e acondicionados em caixas de papelão ondulado forradas com folhas de polietileno microperfuradas ou papel glassine, dependendo do mercado a que se destinam. Sobre os cachos podem ser colocados sachês contendo metabissulfito de sódio (Na2S2O5), responsável pela liberação de dióxido de enxofre (SO2), tomando-se o cuidado de evitar o contato direto com o fruto. Para o mercado nacional utilizam-se caixas de papelão ondulado com capacidade de 6 kg, enquanto as caixas destinadas ao mercado internacional comportam 4,5 kg de uva. O pré-resfriamento é responsável pela retirada do calor de campo do fruto, sendo que quanto menor o intervalo de tempo entre a colheita e o pré-resfriamento, melhor será a conservação do fruto, com redução na desidratação do engaço e no escurecimento e amolecimento das bagas. O melhor sistema de pré-resfriamento é realizado em túneis de ar forçado, onde o fruto atinge temperaturas próximas a 0oC.
    O armazenamento sob condições de 0 a 2oC e 90-95% UR proporciona o prolongamento do período de conservação das uvas. Dado ao elevado índice de perdas, algumas medidas devem ser observadas, como: evitar o armazenamento de uvas sobremaduras ou com sinais de desidratação; controlar os limites de temperatura de forma a se evitar a condensação de água sobre o cacho e a proliferação de microrganismos, bem como o congelamento das bagas, em condições de elevação ou redução da temperatura, respectivamente; controlar os limites de UR evitando-se o ressecamento do engaço e pedicelo; evitar o excesso de SO2 por causar perda de coloração das bagas e engaços; manter um controle dos lotes armazenados, amostrando-os e avaliando-os quanto à qualidade antes da liberação para comercialização.
    É essencial que as uvas sejam mantidas em condições adequadas de refrigeração também durante o transporte, de forma a não interromper a cadeia de frio o que causaria prejuízos à qualidade final do produto.

Estudo de caso: região de Marialva-PR

    De maneira geral os produtores da região de Marialva ainda apresentam grande dificuldade na padronização e classificação da uva, possivelmente em função das várias categorias em que o produto pode se enquadrar em função do nível de ocorrência de defeitos e das características de coloração, engaço e formação do cacho. Atualmente a produção é destinada ao mercado interno.
    As condições climáticas da região não favorecem o acúmulo de adequado teor de sólidos solúveis, não atingindo, na colheita, o teor mínimo de 14ºBrix. Dessa forma, torna-se necessário o desenvolvimento de alternativas para a região, como manejo diferenciado e/ou criação de cultivares mais precoces.

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