Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 10
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uva de Mesa no Norte do Paraná
Jair Costa Nachtigal
Sérgio Rufo Roberto
Poda e quebra de dormência

    Em videira, a poda compreende a eliminação total ou parcial de diferentes partes da planta, tais como braços, sarmentos, brotos, folhas, rácimos, gavinhas e, excepcionalmente, o tronco. Aquela realizada durante o período de repouso vegetativo da planta é conhecida como "poda seca" ou "hibernal" e aquela executada durante o desenvolvimento vegetativo é chamada de "poda verde". Entre as podas verde mais usuais têm-se a desbrota, desbaste e descompactação do cacho, desponte do ramo, desnetamento e desfolha.
    Em alguns casos, a poda de produção para obtenção da "safrinha" é também considerada uma poda verde porque é feita em planta ainda bastante enfolhada apresentando intensa atividade metabólica.

Poda de formação
Formação de planta nova
Renovação de Copa
Poda de produção
Poda na época normal (inverno)
Poda para safra "temporã"
Poda verde
Quebra de dormência

Poda de formação

    A videira, por ser uma espécie sarmentosa, pode tomar diferentes formas conforme o desejo do produtor. O ideal é optar por uma forma que facilite o manejo da cultura, proporcione alta produtividade e contribua para produção de fruto de boa qualidade. Para formação da planta, as podas verde como esladroamento do cavalo, desbaste da inflorescência ou do cacho, desnetamento e desponte do broto constituem práticas auxiliares muito úteis.
    Um pomar constituído de plantas conduzidas e podadas sem critério técnico e sem forma definida torna muito ineficiente a execução dos tratos culturais, inclusive a execução da própria poda.

Formação de planta nova

    Para produção de uvas finas de mesa na região de Marialva, a "espinha de peixe" é a forma mais usual por ser de fácil formação, manejo e manutenção. As plantas podem ter um ou dois braços.
    Para se formar uma "espinha de peixe" com dois braços, segue-se os seguintes passos. Conduz-se verticalmente o broto do enxerto até 1m acima da parte superior da latada. "Deita-se", em seguida, este broto na horizontal orientando-o para o lado mais alto do terreno ou na direção da linha de plantio. Este constituirá o braço principal da planta. Transforma-se um neto que sair 30 a 40cm abaixo da latada em braço secundário e orienta-se este para o lado oposto do braço principal. Na parte que será o tronco, corta-se os netos deixando-se apenas uma folha. Amarra-se alternadamente para os dois lados os brotos que saírem dos braços e faz-se o desponte destes deixando 10 a 12 folhas. Pode-se também obter os dois braços despontando-se o broto do enxerto próximo à parte superior da latada. Força-se, desta forma, a brotação das duas gemas terminais que constituirão os dois braços.
    Para formação da "espinha-de-peixe" com um braço orientando-se o guia somente para um lado.

Renovação da copa

    A poda de renovação ou de rejuvenescimento da copa de uma videira adulta é executada visando:

  • corrigir a arquitetura "deformada" da planta,
  • obter sarmentos mais perto dos braços,
  • revigorar a planta debilitada e
  • rejuvenescer a copa da planta que sofreu danos de granizo.

    Essa poda pode ser feita no inverno ou na primavera-verão. Caso realize no inverno, é recomendável fazê-la quando não tiver mais riscos de ocorrências de geada para assegurar índice mais alto de brotação. Normalmente, faz-se poda curta porque este tipo de poda estimula a brotação das gemas e os brotos saem mais vigorosos que a poda longa. Mesmo assim, recomenda-se aplicar sobre as gemas a solução de calciocianamida a 20% ou de cianamida hidrogenada a 4%. Nesta poda, elimina-se todos os ramos inúteis.
    Na maioria das vezes, é preciso também encurtar os braços. Faz-se os cortes bem lisos com ferramentas bem afiadas. Protege-se os cortes maiores com uma cola para madeira. Essa cola "impermeabiliza" os cortes impedindo a desidratação e as infecções da planta por fungos. Além disso, os tecidos mortos podem dificultar a circulação da seiva por afetar os lenhos vivos localizados perto da ferida. Nesta ocasião, através da "incisão", completa-se também as falhas de sarmento que eventualmente existem nos braços.
    Pode executá-la fazendo-se um corte na frente das gemas dormentes encontradas nos nós. A aplicação da solução de calciocianamida a 20% melhora a brotação dessas gemas. Elimina-se os brotos em excesso e todos os cachos visando favorecer o desenvolvimento dos ramos. Desponta-se os mesmos com 10 ou mais folhas.
    Caso faça no verão, submete-se as plantas à poda curta após o término do ciclo normal de produção. O grande inconveniente desta poda é ter que eliminar as folhas em plena atividade fotossintética. Faz-se o forçamento da brotação, a desbrota, o desponte do broto e o controle de doenças foliares. Esta poda de primavera-verão é muito usada no Noroeste do Estado de São Paulo.

Poda de produção

    Normalmente, a videira começa a produzir no segundo ciclo vegetativo pós-enxertia. Porém, é possível também produzir no primeiro ciclo vegetativo se a planta tiver bom vigor.
    Uma boa poda de produção é aquela que permite obter, ao mesmo tempo, alta produtividade, frutos de boa qualidade e sarmentos de vigor mediano a serem utilizados na produção da safra seguinte. Deve ser feita levando-se em conta:

  • hábito de frutificação da cultivar,
  • vigor da planta ou do sarmento e
  • potencial produtivo da planta.

    Conforme o hábito de frutificação da cultivar, faz-se podas de produção curta ou longa. A poda longa é aquela que se deixa seis ou mais gemas por vara e a curta a que se deixa duas gemas por esporão. As videiras 'Kioho' e 'Vênus', por exemplo, produzem bem com poda curta, enquanto que 'Itália', 'Rubi', 'Benitaka', 'Sunrise' e 'Brasil' produzem mais com poda longa. Durante a realização desta poda, o produtor também deve procurar:

  • equilibrar o desenvolvimento radicular/parte aérea da planta,
  • obter sarmentos mais perto possível dos braços e
  • melhorar as condições sanitárias da planta eliminando-se as partes afetadas por pragas e doenças.

    No Norte e Noroeste do Paraná, para as cultivares de uvas finas de mesa, faz-se a poda de produção no outono-inverno para se colher entre novembro e janeiro e no verão (entre fim de janeiro e início de fevereiro) para se colher entre maio e julho. Quando se faz duas colheitas consecutivas num ano, recomenda-se observar um período de pelo menos 30 dias entre o fim da colheita e a poda visando acumular maior quantidade possível de carboidratos na planta.
    Os produtores de uvas finas, muitas vezes, ficam "surpresos" com a ausência de inflorescência nos brotos que saem das varas. As saídas dos brotos estéreis, além de outros fatores, pode ter relação com o comprimento inadequado da poda. Para definição da posição em que a vara deva ser podada, pode-se fazer uma análise das gemas em lupa ou podar uma planta ou algumas varas cerca de 30 dias das demais.

Poda na época normal (inverno)

    Nas videiras 'Itália' e seus mutantes, usualmente, faz-se poda mista. Para se produzir na época normal, faz-se a poda longa em junho-julho deixando-se 6 ou mais gemas por ramo (ou conforme o resultado da análise da fertilidade de gemas) e estimula-se a brotação dessas gemas com calciocianamida ou cianamida hidrogenada. Caso ainda haja risco de ocorrência de geada, "guarda-se" as gemas na parte basal do sarmento (sem "forçar" a brotação) para depois , se preciso, usá-las para produzir.
    Em plantas de vigor mediano, o ideal é deixar 2 ou 2,5 varas por metro quadrado (m2), o que representa 20.000 a 25.000 varas por hectare (Tabela 1). Na poda, deixa-se preferentemente sarmentos de vigor médio que, em geral, são mais produtivos e apresentam melhor brotação. Elimina-se pela base os sarmentos excessivamente vigorosos e faz-se poda curta dos ramos fracos localizados perto dos braços visando obter ramos a serem usados na produção da safra seguinte.

Tabela 1. Número de varas e brotos a deixar em videira 'Itália' de vigor mediano com alto suprimento de substâncias de reserva, conduzida em latada, na safra normal.
Número de varas/m2 Número de varas/ha Número de brotos/vara Brotos/m2 Brotos/ha
2 20.000 3 6 60.000
2,5 25.000 3 7,5 75.000
Fonte: Universidade Estadual de Londrina

    Em videiras muito vigorosas, deixa-se maior número de sarmentos de vigor mediano visando obter maior número possível de cachos. Com produção maior, a tendência dessas plantas é estabilizar o seu desenvolvimento vegetativo (devido à competição com o fruto) e produzir mais sarmentos com gemas férteis. É uma das formas de se conseguir o equilíbrio vegetativo da planta. Elimina-se pela base os sarmentos muito vigorosos e em excesso.
    As plantas muito fracas devem ser revigorados com a poda curta. Elimina-se os eventuais cachos produzidos para favorecer o seu desenvolvimento vegetativo.

Poda para safra "temporã"

    Para se produzir uvas temporãs, faz-se a poda longa deixando-se 8 a 10 gemas por vara e estimula-se a brotação somente das duas localizadas na sua extremidade. O desenvolvimento de dois brotos terminais inibirá a brotação das gemas basais e da porção mediana da vara. Algumas dessas gemas principais não brotadas poderão morrer devido à forte dominância apical exercida por dois brotos terminais. Quando se faz a poda para a safra normal, deve-se atentar para a integridade dessas gemas visando assegurar uma boa produção. Muitas vezes, somente as gemas secundárias têm brotado
    Na poda seguinte, ou seja, para produzir novamente na época normal, elimina-se os ramos que já produziram, deixando-se 6 a 8 gemas da base e reduzindo-se o número de varas deixado por planta. Estimula-se a brotação das gemas, novamente, em toda extensão do sarmento para se iniciar o novo ciclo produtivo.

POda verde

    A poda verde compreende todas aquelas operações realizadas na planta com o objetivo de melhorar a estrutura da planta, a insolação, a aeração, o manejo e o controle fitossanitário.
    A seguir serão apresentadas as principais recomendações para cada uma dessas operações.

Desbrota

    A desbrota consiste em eliminar o excesso de brotos visando:

  • uniformizar o vigor dos ramos na planta,
  • maior desenvolvimento dos ramos e cachos deixados na planta,
  • diminuir o autossombreamento das folhas e
  • diminuir as incidências de doenças expondo melhor a parte aérea da planta à luz, ao ar e aos fungicidas aplicados.

    O desejável é fazer a desbrota em duas ou três vezes quando os brotos tiverem de 10 a 20cm de comprimento, eliminando-se:

  • broto visivelmente muito mais vigoroso em relação aos demais,
  • broto produtivo ou estéril em excesso,
  • brotações duplas e triplas que saem de uma gema (deixa-se um broto quando bem localizado),
  • broto estéril ou muito fraco (conserva-se, porém, aquele localizado perto do braço) e
  • broto que sai do tronco.

    Em videiras do grupo 'Itália' e outras cultivares de vigor mediano, bem supridas de substâncias de reserva, deixa-se desenvolver três brotos produtivos e/ou estéreis em cada vara. Lembrar que, na poda, foram deixadas 2 a 2,5 varas/m2, o que dá entre 60.000 a 75.000 brotos por hectare. Os brotos estéreis remanescentes na planta também nutrem os ramos e os cachos localizados nas proximidades e ajudam a acumular os fotossintetizados na planta. Estes brotos devem ser bem cuidados para serem utilizados para produção na safra seguinte.
    Alguns produtores denominam a eliminação das brotações oriundas dos porta-enxertos de esladroamento.

Desbaste do cacho

    Além dos objetivos já referidos, com o desbaste do excesso de cacho visa-se diminuir, numa mesma planta, as competições entre frutos e entre frutos e ramos. Com isto consegue-se:

  • aumentar e padronizar o tamanho/peso do cacho,
  • melhorar a cor da baga e
  • antecipar a colheita (maior relação área foliar/produção).

    Este desbaste, quando bem feito, ao contrário do que muitos viticultores pensam, não diminui a produtividade porque aumenta o peso individual dos cachos remanescentes na planta. Permite também que o viticultor "trabalhe" menor número de cachos, porém, apresentando melhor qualidade e maior valor comercial. Como regra, deixa-se maior número de cacho em planta e/ou ramo mais vigoroso e menor número naqueles de baixo vigor. As plantas e os ramos muito fracas devem ser revigorados eliminando-se todos os cachos. Em cultivares tetraplóides como 'Kioho' e em plantas muito vigorosas suscetíveis ao abortamento da flor, recomenda-se desbastar os cachos somente após a constatação do vingamento do fruto.
    A relação cacho/número de folhas por ramo é um bom critério para se desbastar adequadamente os cachos. Em videira 'Itália', por exemplo, 15 folhas sadias não autossombreadas são necessárias para nutrir satisfatoriamente um cacho pesando 600 a 800 gramas. Já um cacho de mesmo peso de 'Rubi' necessita de 17 a 18 folhas para suas bagas ficarem maiores e mais avermelhadas. Nessas cultivares, pode-se deixar até 20 folhas visando nutrição adequada dos cachos, maior desenvolvimento radicular e maior acúmulo de substâncias de reserva na planta. Em videira 'Niagara', é desejável deixar, 8 a 10 folhas por ramo para "alimentar" dois cachos pesando 200g cada.

Amarrio do broto e eliminação de gavinha

    Para evitar que se quebrem com a ação do vento, amarra-se os brotos aos arames do sistema de sustentação à medida que estes forem crescendo. Não convém, porém, forçar o amarrio para evitar que o broto se "destaque" do esporão ou vara. O broto da videira 'Kioho', em especial, se destaca com muita facilidade. O atraso no amarrio de brotos propicia o aumento das incidências de doenças porque cria um microclima mais favorável (com um emaranhado de ramos) e os fungicidas aplicados não atingem uniformemente todas as partes do broto.
    Numa latada, amarra-se os brotos de forma a obter uma distribuição mais homogênea das folhas e dos cachos. Assim, aproveita-se melhor a radiação solar incidente sobre as folhas. Consegue-se também melhorar a aeração do parreiral e diminuir o período de molhamento foliar.
    Amarra-se os brotos, de preferência, com "alceador", uma máquina manual munida de fita plástica, grampo e cortador de fita com alto rendimento operacional. Na falta deste, amarra-se com palha de milho umedecida ou barbante. Elimina-se, nesta ocasião, todas as gavinhas.

Desponte do ramo

    O desponte consiste em cortar uma pequena porção da ponta do broto principal visando deter temporariamente a sua dominância apical e, com isto, "desviar" quantidade maior de fotossintetizados para a inflorescência. Quando executado uma semana antes do início da floração, o desponte propicia:

  • maior fixação de baga nas plantas e ramos vigorosos e nas cultivares tetraplóides suscetíveis ao "corrimento da flor",
  • maior alongamento da inflorescência e
  • desenvolvimento mais uniforme dos ramos na planta (através da contenção temporária do crescimento dos mais vigorosos e favorecimento do crescimento dos mais fracos).

    Desponta-se também os brotos estéreis visando desviar os fotossintetizados elaborados para aqueles férteis localizados perto.

Desnetamento

    O desnetamento refere-se à eliminação total ou parcial dos netos que se desenvolvem nas axilas do broto principal. A saída destes brotos e de brotos terciários é mais abundante em plantas e ramos vigorosos, principalmente, após realização do desponte do ramo. Se as feminelas vigorosas não forem eliminadas no momento oportuno, podem:

  • competir em fotossintetizados com os cachos,
  • criar um microclima favorável à infecção por doenças (por dificultar a aeração e prolongar o período de molhamento foliar),
  • dificultar a perfeita cobertura dos fungicidas pulverizados no ramo, folha e cacho (por produzir um grande emaranhado de brotos) e
  • aumentar o autossombreamento das folhas e, conseqüentemente, diminuir a eficiência fotossintética da planta.

    O desnetamento pode ser feito cortando-se as feminelas pela base com uma tesoura, exceto aquele que sai na ponta do ramo; este deve ser despontado deixando-se duas ou mais folhas. Quando se faz com a mão, é preciso cuidar para não danificar as gemas axilares do broto principal. Em videiras conduzidas em latada, alguns produtores deixam uma folha por neto até o local onde está inserido o cacho para prevenir a incidência de "golpe de sol" no cacho; a partir daí elimina-se pela base. Pode-se também fazê-lo deixando-se uma folha em cada neto quando este tiver 20cm de comprimento. Do último neto deixado pode sair o broto terciário se a planta ainda tiver "sobra" de vigor. Caso saia, corta-se deixando três ou mais folhas. Desta forma, completa-se o número necessário de folhas por ramo.
    A forma mais eficiente de conter as saídas de netos, porém, é obtendo-se o equilíbrio vegetativo da planta. Nessa planta, os netos param de crescer sozinho. Em planta muito vigorosa, a adubação potássica, em cobertura no solo na fase pré-floração, ajuda também a conter o crescimento excessivo dos netos. Normalmente, uma planta mais vigorosa necessita de aplicação de maior quantidade deste adubo que aquela menos vigorosa para se ter a relação nitrogênio/potássio adequada. Não se deve, porém, esquecer que a adubação potássica excessiva diminui a absorção de magnésio pela planta. Consegue-se também conter o crescimento das feminelas aplicando-se cal hidratada duas semanas antes do amolecimento da baga.
    Uma planta fraca emite feminelas muito fracas, mas, não interessa ao produtor por apresentar potencial produtivo muito baixo.

Desfolhamento

    O desfolhamento consiste em tirar as folhas que estiverem "escondendo" ou sombreando os cachos. Visa-se, com isto, expor melhor os cachos ao ar, à luz e aos fungicidas aplicados e evitar danos físicos nas bagas por atrito. O desejável é fazê-lo logo após a fecundação tanto em cultivares de uvas finas como de uvas rústicas. É realizado visando:

  • diminuir as incidências de doenças no cacho,
  • diminuir os danos físicos na baga,
  • uniformizar e intensificar a coloração da baga no cacho,
  • uniformizar os teores de açúcares das bagas no cacho (as bagas do lado sombreado ficam esverdeadas e menos doces que o lado que recebe luz),
  • aumentar a espessura da casca da baga e
  • facilitar a colheita (tornando os cachos mais visíveis e as bagas com coloração mais uniforme).

    A desfolha excessiva, por outro lado, pode debilitar a planta e prejudicar a qualidade do fruto por diminuir a área fotossintética. Se realizado pouco antes do amolecimento da baga, pode favorecer a ocorrência do "golpe de sol"; este pode ser evitado preservando-se as folhas do ramo principal ou do neto que estiverem protegendo os cachos contra a incidência direta de radiação solar. Não se deve desfolhar a videira muito fraca para não debilitá-la ainda mais.

Raleio de botões florais

    Em videiras 'Itália' e seus mutantes, é desejável eliminar, no estádio de pré-floração, 60 a 70% dos botões florais. A diminuição da competição entre os botões florais dentro de uma mesma inflorescência permite obter maior fixação e maior desenvolvimento inicial da baga. Este raleio pode ser feito "passando-se" uma ou duas vezes a "pente" plástica ao longo da inflorescência. Obtém-se melhor efeito praticando-o num dia ensolarado e seco, com temperatura do ar favorável à polinização e à fecundação (20 a 26°C). A disponibilidade de mão-de-obra treinada é fundamental para sua perfeita execução. As inflorescências devem estar sadias para não disseminar as doenças. Este raleio de botões florais também pode ser feito com a mão. Terminado o raleio, pulveriza-se fungicida para prevenir as infecções por patógenos através de "feridas" abertas com a "operação". Entre os estádios de ervilha e amolecimento de bagas, uniformiza-se o tamanho das bagas com uma tesoura de desbaste.
    Não convém fazer raleio de "botões" em videiras 'Kioho' que naturalmente abortam as suas flores, muitas vezes, de forma excessiva. As inflorescências de uvas 'Red Globe' e as sem sementes dispensam este raleio.

Eliminação de bagas inviáveis

    A eliminação de bagas inviáveis é realizada, usualmente, com a mão ou com tesoura de desbaste. É uma operação muito trabalhosa e demorada.
    Existe, porém, uma maneira de provocar a sua queda. Pulveriza-se, por exemplo, a solução de 0,2% de adubo foliar de fórmula 30-10-10, entre os estádios Id e Frc. Obtém-se melhor efeito aplicando-se durante os horários mais frescos do dia (por exemplo, de manhã bem cedo). Seu efeito será melhor se prevalecerem condições de temperaturas altas durante o restante do dia. Derruba-se as "baguinhas" agitando levemente o cacho. Esta prática permite reduzir em muito o tempo de realização do raleio. Surgiu da observação de que existe uma relação muito estreita entre vigor da videira, compacidade do cacho e queda natural de bagas inviáveis. Deve-se, no entanto, ter cautela na sua adoção porque os tecidos da planta tornam-se mais tenros e, com isto, aumenta a suscetibilidade às doenças da parte aérea da planta. Não é aconselhável adotá-la na "safrinha" por coincidir com um período de temperatura e umidade do ar altas muito favoráveis à infecção por míldio.

Alongamento dos ombros

    Pode-se alongar os ombros dos cachos de uvas do grupo 'Itália' eliminando-se, no estádio Ia, 1/3 da parte terminal das suas inflorescências. Maior crescimento do ombro ocorre em planta com suprimento mais alto de substâncias de reserva. O desejável é produzir cacho pesando 600 a 800g por apresentar:

  • maior uniformidade de teores de açúcares e cor da baga,
  • baixa incidência de "seca do rácimo",
  • antecipação da colheita entre 3 e 5 dias e
  • fácil acomodação na embalagem.

    Produzir cachos com ombros longos muito grandes e compactos são indesejáveis porque:

  • as bagas localizadas na parte interna ficam deformadas, menos coloridas e menos doces que as situadas na periferia do cacho,
  • pode-se perder o cacho inteiro se as bagas localizadas na parte interna forem infectadas por podridões,
  • favorece a infestação de cochonilha no cacho se prevalecer ambiente úmido com pouca luz,
  • dificulta o embalamento devido a sua compacidade e por faltar altura na embalagem e
  • durante o transporte e comercialização, o próprio peso do cacho pode amassar as bagas que ficam em contato com o fundo da caixa.

    Caso a expectativa é de o cacho ficar muito grande, elimina-se pela base os dois ombros superiores ou simplesmente encurta-se aqueles muito longos.

Encurtamento do cacho

    O encurtamento dos cachos de uvas 'Itália' e de seus mutantes é feito visando:

  • uniformizar os teores de açúcares das bagas dentro do cacho e
  • diminuir a incidência de "seca do rácimo"

    O ideal é cortar, já no estádio Frc, pouco acima do local onde o cacho se curva naturalmente.

Raleio de bagas

    O raleio de bagas é uma prática de execução obrigatória em cultivares de uvas finas de mesa, principalmente 'Itália' e suas mutações. Faz-se o primeiro raleio entre os estádios chumbinho e meia baga. Com esta operação visa-se:

  • produzir cacho mais solto contendo bagas maiores,
  • produzir cacho com bagas de tamanho, cor e teores de açúcares mais uniformes e
  • permitir que os fungicidas aplicados atinjam melhor o interior do cacho e protejam contra a ação dos fungos patogênicos ou saprófitas (ex.: podridão da uva madura e podridões ácidas).

    Elimina-se, com tesoura de desbaste de ponta fina, as bagas inviáveis remanescentes, pequenas, em excesso e que apresentam danos de tripes. Uniformiza-se o tamanho das bagas no cacho fazendo-se vários "repasses" à medida que as diferenças no tamanho das bagas vão-se tornando mais visíveis. A eliminação das bagas doentes, machucadas e rachadas deve ter continuidade até a colheita.
    O raleio excessivo reduz o peso do cacho e diminui a produtividade; o cacho resultante é conhecido como "banguelo". Este tipo de cacho pode resultar também da eliminação de grande número de bagas rachadas e podres na fase de maturação do fruto. Ao ralear as bagas, deve-se evitar as manipulações desnecessárias do cacho visando preservar maior quantidade possível de pruína.

Controle de produtividade

    O desejável é iniciar este controle de produtividade com a poda de produção, para depois, complementá-lo com a desbrota e o desbaste do cacho. Tanto as cultivares de uvas finas como as rústicas necessitam deste controle. Repartir melhor os fotossintetizados entre os diferentes "drenos" úteis da planta é o seu principal objetivo. Em viticultura, esta prática permite:

  • diminuir a alternância anual de produção,
  • obter, simultaneamente, alta produtividade, uva de qualidade e sarmento a ser usado na safra subsequente e
  • padronizar o tamanho do cacho no pomar.

Quebra de dormência

    A produtividade de um pomar de videira depende, além de outros fatores, da obtenção de alto índice de brotação das gemas. Para se conseguir isto, usualmente, trata-se as gemas com as soluções de calciocianamida a 20% ou de cianamida hidrogenada (Dormex®) a 4 ou 5%. Os fatores ligados à planta e ao ambiente também têm grandes influências sobre a brotação. Normalmente, as plantas bem supridas de substâncias de reserva brotam melhor do que aquelas debilitadas e sofrem menos com as oscilações climáticas tão freqüentes no inverno do Estado do Paraná. As temperaturas altas pós-tratamento adiantam o início de brotação e as baixas retardam.
    Neste trabalho, em vez de "quebra de dormência", preferiu-se dizer "forçamento da brotação" porque, na prática, estimula-se a brotação das gemas também no verão quando a planta encontra-se em plena atividade vegetativa.
    No Paraná, antes de se conhecer os efeitos da calciocianamida, os produtores faziam a "emorgação" do sarmento para forçar a brotação. Essa prática consistia em fazer a torsão dos ramos. A "incisão" também foi utilizada.
    Calciocianamida - Este produto contém 63% de CaCN2, 17% de hidróxido de cálcio e 12% de carbono livre. O produto em pó, mais usado, tem 22% de nitrogênio, sendo 98% deste total solúvel em água
    O desenvolvimento da viticultura nas regiões subtropicais e tropicais do país se deve à descoberta desta tecnologia. Essa tecnologia possibilita:

  • aumento de produtividade,
  • desenvolvimento mais uniforme dos brotos e cachos,
  • melhoria da arquitetura da planta e
  • colheita na época desejada e fazer dois ciclos produtivos anuais.

    Em videira submetida à poda longa, na safra normal, deve-se tratar as gemas dentro de, no máximo, dois dias após a execução da poda. Com isto, evita-se que as gemas localizadas na parte terminal da vara brotem primeiro e inibam as brotações das gemas localizadas nas partes mediana e basal. Prepara-se a solução de calciocianamida com água quente duas a três horas antes de se fazer o pincelamento e deixa-se esfriar. O pincelamento torna-se mais fácil se adicionar 5 a 10mL de espalhante adesivo em 10 litros da solução. Reaplica-se caso chova dentro de 24 horas.

Cianamida hidrogenada

    O produto comercial "Dormex®" é um concentrado solúvel que contém 49% (520g/litro) de ingrediente ativo. Na sua composição também têm substância amarga para evitar a ingestão humana, corante azul para diferenciar de outros líquidos (da água, por exemplo) e estabilizantes para prolongar o período de armazenamento. Sua grande vantagem sobre a calciocianamida é a facilidade no preparo da solução a ser aplicada por pulverização.

Cuidados no uso:

  • Aplicar até 72 horas após a poda,
  • Não aplicar em horários muito quentes e na presença de ventos fortes,
  • Reaplicar se chover dentro de duas horas da aplicação,
  • Com pulverização obtém-se melhor qualidade de aplicação e
  • Não misturar com cobre.

Precauções:

  • Armazenar em locais com temperatura abaixo de 20°C (acima de 20°C, pode ocorrer a decomposição do ingrediente ativo com formação de precipitado cristalino, em processo irreversível),
  • Manter longe dos produtos alimentícios e das crianças,
  • Não consumir bebida alcoólica um dia antes, durante e um dia após a aplicação (ou, como precaução, até 3 dias antes e depois),
  • Evitar contato com pele e olhos por produzir irritação,
  • Evitar inalação,
  • Usar luvas, óculos e máscara durante o preparo e aplicação da solução;
  • Não provocar vômito em caso de intoxicação. Não se conhece antídoto específico.

    No pincelmento, gasta-se em torno de 100 litros de solução/ha. Para marcar varas ou esporões tratados podem ser usados Mancozeb, outro fungicida ou colante.

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