Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 2
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jan/2003

Uvas Americanas e Híbridas para Processamento em Clima Temperado

José Fernando da Silva Protas

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências
Glossário


Expediente
Autores
Apresentação

Duas características marcantes da vitivinicultura brasileira são a diversidade e a complexidade. Na verdade, temos diversas vitiviniculturas no país, cada uma com sua realidade climática, fundiária, tecnológica, humana e mercadológica. Entretanto, para qualquer uma delas, o cenário que se esboça neste início de século XXI é o de competição acirrada, tanto no mercado interno quanto no externo, exigindo grande esforço para o estabelecimento de um Programa Estratégico, com projetos e ações estruturais, que facilite a organização e oriente o estabelecimento de uma política setorial de desenvolvimento a curto, médio e longo prazo.

Embora a produção de vinhos, suco de uva e demais derivados da uva e do vinho também ocorra em outras regiões, a maior concentração está no Rio Grande do Sul, onde são elaborados, em média anual, 330 milhões de litros de vinhos e mostos, representando 95% da produção nacional. O Cadastro Vitícola do Rio Grande do Sul (1995-2000) registra, no Estado, 12.829 propriedades que cultivam e vendem uva para processamento, as quais ocupam uma área total de 27.986,97 ha com vinhedos, sendo 417 ha com viveiros de porta-enxertos e coleções (1,5%); 4.792 ha com variedades viníferas (17,12%); e 22.777 ha com variedades americanas e híbridas (81,38%). Relativamente ao contingente humano envolvido na atividade, segundo pesquisa realizada pela Embrapa Uva e Vinho, em 1995 o número de pessoas residentes nas propriedades vitícolas era de 46.334, assim distribuídas de acordo com a faixa etária: 7,69% com 10 anos ou menos; 9,56% entre 11 e 18 anos; 69,20% entre 19 e 60 anos, e 13,56% com mais de 60 anos. Quanto à estrutura fundiária, são propriedades que possuem em média 15 ha de área total, sendo 40% a 60% destes de área útil. Trata-se, portanto, de uma atividade tipicamente de "agricultura familiar".

A agroindústria vitivinícola do Rio Grande do Sul assumiu, historicamente, a liderança da produção e abastecimento do mercado interno brasileiro. Mais recentemente, especialmente a partir da década de 70, começaram a ocorrer investimentos com a implantação e/ou modernização das vinícolas, principalmente daquelas voltadas para a produção de vinhos finos. No mesmo período, a agroindústria de suco conseguiu se destacar pela qualidade e singularidade do produto elaborado, vindo a conquistar mercados internacionais exigentes e seletivos. Porém, o setor de produção vitícola não participou desta mudança com a mesma velocidade e objetividade, o que é evidenciado por um significativo desnível tecnológico entre os sistemas de produção da matéria prima (uva) e dos produtos (vinho, suco e derivados).

Inseridos neste cenário como principais protagonistas da cadeia produtiva, os produtos derivados das variedades de uvas americanas e híbridas apresentam um bom desempenho mercadológico. A comercialização de Vinho de Consumo Corrente apresenta um crescimento equilibrado ao longo do período 1997-2001, com taxas positivas que somam 26,4%. Este comportamento, em parte, está relacionado com o poder aquisitivo da população, pois, como se sabe, este tipo de vinho geralmente é comercializado a preços relativamente acessíveis. Outros aspectos, tais como a preferência pelas características de gosto e aroma "foxado" típico das variedades V.labrusca, a simpatia destes consumidores por produtos tipo "colonial", e a facilidade de encontrar os produtos mesmo nos locais mais remotos do país, também explicam, em parte, a estabilidade verificada neste mercado.

Quanto ao segmento Suco de Uva, verifica-se um crescimento estável na produção que, no período 1997-2000, foi de 22% para o suco simples e de 35% para o suco concentrado. Neste período, do conjunto de produtos que compõem a cadeia produtiva vitivinícola, o suco concentrado foi o que apresentou melhor desempenho relativamente às exportações, superando, inclusive, as uvas de mesa, tanto em volume quanto em valores. A expectativa é de que, em não havendo maiores dificuldades em relação à política cambial, este segmento da cadeia vitivinícola venha a se expandir. Relativamente ao mercado interno, o desempenho do suco de uva também é positivo e estável, o que é confirmado não só pela produção crescente, mas também pelo aumento do consumo per capita do produto que, no período de 1997-2000, foi de 36% (esta evolução, no período 1993-2000, foi de 266%). Entretanto, este consumo interno ainda pode ser aumentado, já que, em termos absolutos, 0,33 litros/per capita/ano ainda é muito baixo.

O contraste entre os cenários aqui traçados, sinaliza a existência de uma lacuna tecnológica capaz de melhorar a eficiência técnica e econômica do sistema de produção de uvas americanas e híbridas. O preenchimento desta lacuna, se acompanhado por ações de políticas de desenvolvimento setorial, certamente viabilizará um processo de modernização/reconversão sintonizado com as exigências e oportunidades do mercado.

Com base no conhecimento técnico-científico acumulado, a Embrapa Uva e Vinho disponibiliza, neste trabalho, uma proposta de sistema de produção para uvas americanas e híbridas, capaz de mudar o perfil da vitivinicultura tradicional do Rio Grande do Sul, e de outras regiões de clima temperado que produzam este tipo de uva.   

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