Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 2
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jan/2003

Uvas Americanas e Híbridas para Processamento em Clima Temperado

Gilmar Barcelos Kuhn

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências
Glossário



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Obtenção e preparo da muda

     As mudas de videiras americanas (Vitis labrusca, Vitis bourquina) e híbridas podem ser adquiridas em viveiristas ou preparadas na propriedade pelo processo de estaquia (pé-franco) ou enxertia.

Aquisição da muda pronta
Formação da muda na propriedade
Material de propagação
Coleta e conservação do material propagativo
Preparo das estacas
Formação da muda
Escolha da área e preparo do solo para viveiro
Plantio das estacas
Enxertia de garfagem no campo
Enxertia verde

Aquisição da muda pronta


     Quando se adquire mudas prontas para implantar um vinhedo deve-se tomar muito cuidado. É imprescindível que se adquira as mudas de viveirista credenciado pela Secretaria da Agricultura e que tenha a origem do porta-enxerto e produtora com garantia de sanidade e a correta identificação varietal. A introdução de material contaminado (mudas, estacas, etc.) na propriedade pode comprometer a viabilidade econômica do empreendimento através do estabelecimento de focos de doenças e pragas de difícil controle. As mudas adquiridas devem ser de raiz nua, bem formadas, com comprimento mínimo de 20 cm e bem lavadas de forma que se possa observar a presença da praga "pérola-da-terra" e outros sintomas como engrossamento, nódulos, escurecimento e necroses causados por patógenos de solo. Também é importante que a muda apresente o calo de soldadura do enxerto bem formado, sem fendas e nem engrossamento excessivo. Além destes problemas que são visíveis, existem outros, especialmente aqueles causados por vírus que não são visíveis em mudas de um ou dois anos, quando são adquiridas, daí a importância de se conhecer a origem do material de propagação que originaram as mudas.


Formação da muda na propriedade

     Muda de videiras americanas e híbridas, na sua maioria, pode ser formada pelo enraizamento direto da estaca da produtora (pé-franco), visto que estas cultivares apresentam certa tolerância a filoxera, pulgão que ataca o sistema radicular da videira. Embora esta opção seja viável e menos trabalhosa recomenda-se a utilização da muda enxertada. Isto porque, com a utilização do porta-enxerto, além de melhorar a eficiência no controle da filoxera, tem-se a vantagem de propiciar maior produtividade e qualidade da uva, maior resistência a doenças e adaptação a diferentes tipos de solo.

Material de propagação

     O material de propagação para o preparo de mudas, seja de pé-franco (estacas da produtora) ou enxertada (gema da produtora e estaca do porta-enxerto), deve ser obtido em órgãos oficiais ou viveiristas credenciados. Outra opção e, neste caso, somente para material das produtoras é a obtenção do material em vinhedos comerciais que tenham sido formados com mudas de procedência conhecida onde deve-se proceder à seleção das plantas para a retirada do material.
     No caso do produtor optar em fazer a seleção das plantas de cultivares produtoras para a retirada de estacas para o plantio de pé-franco ou garfos (gemas) para enxertia, deve escolher vinhedos adultos, com idade mínima de quatro anos, de preferência acima de 8 anos e que tenha sido formado com material de boa procedência em relação à sanidade e identidade varietal. Na seleção deve-se marcar as plantas com bom vigor, produtivas e boa maturação da uva e sem qualquer tipo de sintoma que possa ser causado por doenças ou pragas. A observação das plantas deve ser feita em diversas épocas do ano, visto que os sintomas da maioria das doenças se expressam melhor em determinados estádios do ciclo vegetativo. As épocas mais aconselhadas para observar as plantas são: a) Na primavera, quando os ramos alcançam em torno do 50 cm, verificar se as folhas apresentam sintomas de deformações, amarelamentos e manchas cloróticas de contorno variado e nos ramos se há anomalias como bifurcações, entrenós curtos, achatamentos e nós duplos; b) Na fase de maturação da uva, antes da colheita, verificar se as plantas apresentam cachos com falhas e mal formados, maturação irregular (presença no mesmo cacho de uvas maduras e verdes), e também, se aquelas plantas que embora tenham boa produção apresentam maturação atrasada ou incompleta; c) No fim do ciclo vegetativo, antes da queda das folhas, observar se as folhas apresentam aspecto rugoso e coreáceo, avermelhamento nas cultivares de uva pretas ou rosa e amarelamento pálido nas cultivares de uva branca; d) No período de dormência, antes da poda, época que a planta está sem as folhas, verificar a presença de achatamento nos ramos, nós duplos (gemas opostas), bifurcações, entrenós curtos, engrossamento nos entrenós, amadurecimento irregular do lenho e morte de ramos.
     No caso de porta-enxertos é difícil selecionar plantas sadias na propriedade, pois mesmo infectadas, as plantas não mostram sintomas de muitas doenças importantes. Desta forma recomenda-se obter as estacas ou matrizes de porta-enxerto de fonte segura que tenham material certificado ou fiscalizado. Não utilizar para propagação, estacas retiradas de rebrotes de porta-enxerto que, eventualmente, brotam de plantas em vinhedos comerciais em plena produção.

Coleta e conservação do material propagativo

     A coleta do material propagativo do porta-enxerto (estacas) e da produtora (gemas), deve ser feita no inverno, quando a planta esta em dormência (sem folhas) e com os ramos bem lignificados (amadurecidos). Somente devem ser aproveitados os ramos que vegetaram na última estação (ramo do ano) e que nasceram de ramos do ano anterior, ou seja, ramos de dois anos. Recomenda-se que a coleta do material seja feita o mais próximo possível da época do plantio ou da enxertia.
     Quando for necessária a conservação do material, antes do plantio ou da enxertia, deve ser feito, de preferência, em câmara fria. Caso a câmara fria não disponha de controle de umidade, os feixes devem ser cobertos com papel jornal úmido e envolvidos em plástico bem vedados, para evitar a perda de umidade do material. Não dispondo de câmara fria, conservar em local fresco (porão) sob areia ou serragem úmida. Quando for estacas (40-45 cm) a conservação pode ser feita em feixes, em pé, com a base das estacas enterrada (10-20 cm) em areia com bastante umidade e em local bem sombreado e fresco, onde pode permanecer por até duas ou três semanas. Se os ramos da videira perderem água equivalente a 20% do seu peso, podem se tornar inviáveis para o plantio ou enxertia. O ideal é que todo o material, antes de ser colocado na câmara fria, seja hidratado por 24 horas por imersão ou em pé na água. Quando o material destinado ao plantio é retirado da câmara fria ou da areia, deve ser hidratado por dois ou três dias, antes de ser plantado. No caso de material de produtora destinado a fornecer gemas para enxertia é suficiente uma hidratação de 24 horas antes da enxertia.

Preparo das estacas

     As estacas para plantio de pé-franco (produtora) ou para enxertia (porta-enxerto) devem ter o comprimento em torno de 45 cm, correspondendo, aproximadamente, a 4-6 gemas e com um diâmetro de 7-12 mm. O corte na extremidade inferior da estaca (base) deve ser horizontal, logo abaixo da gema (0,5 cm). Na extremidade superior, o corte deve ser inclinado (bisel) de 3 a 5cm acima da gema. 

Formação da muda

     As mudas de videiras americanas e híbridas de pé-franco ou enxertada podem ser preparadas diretamente no local de implantação do vinhedo ou em viveiro para posterior transplante. O preparo das mudas em viveiro possibilita, numa pequena área, fazer grande número de mudas, facilitando os tratamentos fitossanitários, adubação, irrigação, cobertura plástica do solo etc. Além disso as mudas podem ser selecionadas antes de ir para o local definitivo. Em contrapartida, a muda feita no local definitivo tem a vantagem do maior desenvolvimento inicial das plantas, especialmente nos primeiros dois anos, visto que, neste caso, o porta-enxerto já está enraizado no local definitivo quando enxertado.

Escolha da área e preparo do solo para viveiro

     O viveiro deve estar distanciado pelo menos 50 m de vinhedos comerciais. Escolher um solo com predominância para o tipo arenoso, profundo e bem drenado, de preferência que não tenha sido cultivado com videiras nos últimos anos. Deve estar livre de fungos de solo que afetam a videira e da praga "pérola da terra", que ataca as raízes da videira e de inúmeras outras plantas cultivadas. Retirar amostras para análise do solo e fazer a correção do pH e de adubação, conforme recomendação. O solo tem que ficar bem preparado (solto), de modo a facilitar o desenvolvimento da muda.

Plantio das estacas

     O plantio das estacas deve ser feito no período de julho/agosto. Quando a muda é preparada em viveiro o plantio das estacas pode ser feito em valas com profundidade de 30 cm a 40 cm e largura de 30 cm. As estacas são enterradas à profundidade de 2/3 do seu comprimento e espaçadas de 5 cm a 10 cm. Pode-se colocar na vala duas fileiras de estacas distanciadas 20 cm a 30 cm uma da outra e, entre as valas, deixar uma distância de 1 m. Outra alternativa é preparar canteiros com 15-20 cm de altura e com 60 cm de largura e distantes 50 cm um do outro, cobrindo-os com plástico preto. O plantio deve ser feito em duas fileiras, facilitando a operação de enxertia pelos dois lados do canteiro. Para muda de pé-franco pode-se colocar três fileiras. O plantio pode ser feito furando o plástico com a própria estaca ou perfurando-o antes de colocar a estaca. Deve-se ter o cuidado de manter o solo úmido antes de cobrir o canteiro com plástico. Após o plantio das estacas é importante irrigar em cima do plástico fazendo a água penetrar pelos furos, de modo a deixar o solo bem úmido e em contato com toda a superfície enterrada da estaca.
     Quando o plantio das estacas é feito no local definitivo, a forma mais comum de plantio é em covas, sempre colocando duas estacas da produtora (pé-franco) ou do porta-enxerto (muda enxertada) em cada cova, enterrando 2/3 do seu comprimento. Se as duas estacas enraizarem elimina-se uma ou transplanta-se para covas onde não houve enraizamento. Outra alternativa, mais aconselhável, é plantar as estacas do porta-enxerto já enraizadas (barbado), para evitar as falhas.
     

Enxertia de garfagem no campo

    No Brasil, esta é a prática mais utilizada e a quase totalidade das mudas são feitas no local definitivo. Como já foi mencionado, a enxertia é feita um ano após o plantio das estacas do porta-enxerto (enxertia de inverno). Em regiões sujeitas à ocorrência de geadas tardias, a enxertia deve ser feita na última quinzena de agosto. O tipo de enxertia feita no campo é a garfagem simples, executada do seguinte modo: inicialmente, faz-se uma limpeza em torno do porta-enxerto para facilitar a operação de enxertia. A seguir elimina-se a copa a uma altura de 10 cm a 15 cm acima do solo, ficando, assim, um pequeno caule ou cepa. Após, com o canivete de enxertia, é feita uma fenda de 2 cm a 4 cm (Figura 1 ), na qual será introduzido o garfo da videira que se deseja enxertar.


Fig. 1. Preparo da fenda no porta-enxerto
para enxertia de inverno.
(Foto: G. Barros).

     Para o preparo do garfo (enxerto), toma-se uma parte do ramo (bacelo) com duas gemas, de preferência com diâmetro igual ao do porta-enxerto. Com canivete bem afiado são realizados cortes rápidos e firmes em ambos os lados, de maneira que o garfo fique em forma de cunha, com largura maior para o lado que fica a gema basal. O comprimento da cunha deverá ser semelhante ao da profundidade da fenda feita no porta-enxerto. É importante que o garfo, assim preparado, seja imediatamente encaixado na fenda do porta-enxerto, de tal maneira que as regiões da casca do porta-enxerto e do garfo (enxerto) fiquem em contato direto. Quando o diâmetro do porta-enxerto e do garfo forem diferentes, é fundamental que, no lado em que se situa a gema basal do garfo, ocorra o contato direto da casca das duas partes - enxerto/porta-enxerto (Figura 2). A seguir, enrola-se firmemente toda a região da enxertia com fita plástica, com cuidado para não deslocar o enxerto. Além da fita plástica pode ser usado ráfia ou vime, embora a fita plástica seja mais indicada por vedar bem os cortes da enxertia, evitando a entrada de água e terra (Figura 3 ). Quando a muda é preparada no local definitivo, crava-se uma estaca ou taquara (tutor) junto ao enxerto, de modo a conduzi-lo até o arame do sistema de sustentação.


Fig. 2. Encaixe do garfo no porta-enxerto mostrando o contato necessário da casca do enxerto/porta-enxerto.
(Foto: G. Barros).

Fig. 3. Fixação e proteção do enxerto com fita plástica.
(Foto: G. Barros).


     Para favorecer a soldadura, deve-se cobrir totalmente o enxerto, com cuidado, utilizando terra solta, areia ou serragem, que devem estar umedecidas, não em excesso, pois com a secamento da superfície do solo pode ficar muito compacto dificultando a saída da brotação do enxerto (Figura 4).


Fig. 4. Proteção do enxerto com terra.
 (Foto: G. Kuhn).

     
     Ocorrida a pega da enxertia no decorrer da primavera, muitos brotos do porta-enxerto podem surgir, sendo que todos deverão ser removidos sem, contudo, desfazer o montículo. Deve-se ter muito cuidado para não eliminar a brotação originada do garfo (enxerto) que, normalmente, é de coloração mais clara que a do porta-enxerto.
     Quando o broto do enxerto atingir um comprimento aproximado de 50-60 cm, deve ser observado se houve afrancamento, ou seja, se ocorreu emissão de raízes a partir do garfo (enxerto). Em caso positivo, as raízes devem ser cortadas com tesoura ou canivete. Nesta época, também deve ser observado se está havendo estrangulamento na região da enxertia, cortando a fita plástica se necessário. Realizadas estas operações chega-se terra novamente, protegendo a região da enxertia até que se inicie o amadurecimento do ramo, quando pode ser tirada a terra. Deve-se fazer o controle da formiga cortadeira e validar os tratamentos fitossanitários, especialmente, do início da brotação em setembro até dezembro, quando doenças como antracnose e míldio ocorrem com maior freqüência. As operações de manejo do enxerto, tais como eliminação da brotação do porta-enxerto, desafrancamento e eliminação da terra que cobre o enxerto, devem ser efetuadas, preferencialmente, em dias nublados.
     Ocorrendo a brotação das duas gemas do enxerto e quando estas alcançarem em torno de 1 m, elimina-se o broto mais fraco, amarrando o outro, freqüentemente, junto ao tutor, para evitar a sua quebra pelo vento.
     No caso da enxertia ser feita em viveiro, não é necessário tutorar as mudas, devendo-se fazer despontes do broto sempre que atingir em torno de 50 cm a 60 cm, de forma que o ramo engrosse e fique ereto, facilitando os tratos culturais e fitossanitários. As demais operações são as mesmas já mencionadas quando se forma a muda no local definitivo, e deve ser arrancada no inverno seguinte após a enxertia e replantada no local onde vai ser implantado o vinhedo.

Enxertia verde

Esta modalidade de enxertia é efetuada durante o período vegetativo da videira, sendo recomendada para a reposição de falhas da enxertia de inverno. Pode também ser empregada na renovação do vinhedo. A enxertia é feita por garfagem simples na primavera, nos meses de novembro e dezembro. Se feita mais tarde poderá ocorrer problema na maturação (lignificação) das brotações, principalmente em localidades onde o outono é bastante frio.

Consiste dos seguintes procedimentos: selecionar dois brotos do porta-enxerto conduzindo-os junto ao tutor e eliminando as demais brotações. Quando os ramos do porta-enxerto atingirem em torno de 5mm de diâmetro e estiverem com boa consistência, verdes mas rígidos, já poderão ser enxertados. A altura da enxertia é variável, dependendo do desenvolvimento do ramo, o qual deverá ser despontado a partir do quarto ou quinto entrenó, contado da extremidade para a base (Figura 5). Todas as gemas do porta-enxerto devem ser eliminadas, deixando as folhas. O garfo da produtora com uma ou duas gemas (Figura 6) deve ter o mesmo diâmetro do ramo do porta-enxerto para facilitar a enxertia e a soldadura do enxerto. A elaboração dos cortes é igual ao da enxertia de inverno já descrita. O enxerto deve ser amarrado com plástico fino (Figura 7) vedando totalmente a superfície, desde a região da enxertia até o ápice, ficando a descoberto apenas a(s) gema(s) do garfo (Figura 8). Após a enxertia, deve ser feito duas vistorias semanais eliminando-se os brotos que se originam do porta-enxerto. A brotação do enxerto deve ser amarrada freqüentemente para não quebrar com o vento. Também devem ser realizados os tratamentos fitossanitários, especialmente para o controle da antracnose e míldio. Cerca de dois meses após a enxertia, afrouxar o amarrio para evitar o estrangulamento, permanecendo o enxerto coberto com plástico. A retirada definitiva do plástico somente 90 dias após a enxertia. Estas práticas devem ser feitas em dias nublados e úmidos.


Fig. 5. Ramos do porta enxerto
preparados para enxertia verde.
 
(Foto: G. Kuhn).

Fig. 6. Garfo e porta-enxerto de
diâmetros semelhantes facilitam a 
enxertia e a soldadura do enxerto.
 
(Foto: G. Barros).

Fig. 7. Detalhe da amarração do enxerto com fita plástica.
(Foto: G. Barros).

Fig. 8. Cobertura de toda região
enxertada com fita plástica, ficando
a gema de fora.

(Foto: G. Barros).

    

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