Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 5
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Nov./2003
Cultivo da Videira Niágara Rosada em Regiões Tropicais do Brasil

João Dimas Garcia Maia
Rosemeire de Lellis Naves
Lucas da Ressurreição Garrido
Olavo Roberto Sônego
Gilmar Barcelos Kuhn

Início

O Clima em Regiões Tropicais do Brasil
Implantação do Vinhedo
Poda e Quebra de Dormência
Adubação da Videira Niágara Rosada
Manejo de Plantas Daninhas
Doenças e seu Controle
Insetos Pragas e seu Controle
Normas Gerais sobre o Uso de Agrotóxicos
Irrigação em Regiões Tropicais
Colheita, Embalagens e Classificação da Uva
Produção e Mercado
Custos e Rentabilidade
Referências

Expediente
Autores
Doenças e seus controles

Introdução

    A cv. Niágara Rosada, quando cultivada em condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento de patógenos durante o período vegetativo, está sujeita a uma série de doenças, que podem ocorrer em todas as partes da planta, como raízes, troncos, ramos, folhas, brotos e cachos. Algumas dessas doenças, de natureza fúngica ou virótica, provocam grandes perdas e, frequentemente, tornam-se fatores limitantes ao cultivo, se medidas de controle adequadas não forem adotadas. Dentre as doenças fúngicas que ocorrem na cv. Niágara Rosada em regiões tropicais, destacam-se o míldio ou mofo (Plasmopara viticola), a requeima foliar (Alternaria sp.), a ferrugem (Phakopsora euvitis). Outras doenças como: antracnose ou varola (Elsinoe ampelina), podridões dos cachos e manchas das folhas podem causar perdas em regiões de clima tropical mais úmido. Além das doenças fúngicas, as viroses também podem causar sérios prejuízos aos viticultores.

Doenças Fúngicas
Ocorrência das doenças fúngicas em regiões de clima tropical úmido
Viroses

Doenças Fúngicas

Míldio - Plasmopara viticola

    É a principal doença fúngica da cv. Niágara Rosada em áreas tropicais, podendo infectar todas as partes verdes da planta, sendo que os danos são maiores quando ataca os frutos.

Sintomatologia: Nas folhas, inicialmente aparecem manchas amarelas, translúcidas contra o sol, denominadas de "mancha de óleo" (Figura 1a). Nessas manchas, em condições de umidade relativa alta (acima de 98%), aparece um mofo branco na parte inferior das folhas (Figura 1b) e, em seguida, a área afetada fica necrosada. Nas inflorescências, observa-se escurecimento do ráquis, onde pode ocorrer esporulação do fungo. As inflorescências infectadas secam e caem. Nos cachos, após o pegamento, as bagas jovens ficam amareladas, onde também pode ocorrer esporulação (Figura 1c). Quando o fungo infecta as bagas mais desenvolvidas, ele penetra pelos pedicelos e se desenvolve no seu interior, tornando-as escuras, duras, com superfícies deprimidas e sem esporulação, o que provoca a sua queda. Esse sintoma é denominado de "míldio larvado" (Figura 1 d) e é comum quando a produção coincide com o período de chuvas. Sem um bom esquema de tratamento nesta fase, o míldio pode causar perdas de até 100%, com degrana e queda de bagas (Figura 1e).

Figura 1a
Fig. 1a. Sintoma de míldio na face superior da folhas - 'mancha óleo'. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 1b
Fig. 1b. Sintoma de míldio na face inferior da folha - esporulação do fungo. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 1c
Fig. 1c. Sintoma de míldio em cacho com bagas no estádio 'chumbinho'. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 1d
Fig. 1d. Sintomas de míldio no cacho - 'míldio larvado'. (Foto: O.R.Sônego)

Figura 1e
Fig. 1e. Queda de bagas devido ao míldio 'larvado'. (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes: A temperatura ideal para o desenvolvimento do míldio é de 18°C a 25°C. O fungo necessita de água livre nos tecidos por um período mínimo de 2 horas para infectar. A presença de água livre, seja proveniente das chuvas, de orvalhos (Figura 2) ou de gutação, é indispensável para haver a infecção, sendo que para haver a esporulação do fungo e a umidade relativa do ar deve estar acima de 98% . A penetração de Plasmopara viticola se dá pelos estômatos presentes na face inferior das folhas, e nos pedicelos, quando a baga é ainda jovem.

Figura 2
Fig. 2. Água livre na folha, condição para infeção de míldio. (Foto: J. Dimas G.M.)

Controle: O controle preventivo do míldio deve ser iniciado com a escolha do local adequado para instalação do parreiral, evitando-se áreas de baixada ou com face sul. Medidas que melhorem a aeração da copa, como espaçamento adequado, boa disposição espacial dos ramos sobre o aramado e poda verde (desbrota, desnetamento, desfolha, desponte, etc.), devem ser adotadas, objetivando diminuir o tempo de molhamento foliar. No controle químico, devem ser utilizados fungicidas registrados para a cultura (Tabela 2). Esses produtos podem ter ação protetora ou de contato, ação de profundidade ou ação sistêmica. Os produtos de contato só protegem a superfície atingida pela aplicação e não têm ação sobre o fungo no interior dos tecidos. Os produtos com ação de profundidade podem atuar matando o fungo no interior das folhas até 2 dias após a infecção, protegendo, porém, apenas as partes nas quais foram aplicados. Já os produtos sistêmicos, devido à sua capacidade de translocação, podem atuar em partes da planta que não foram atingidas na aplicação.
    Os fungicidas protetores do grupo dos ditiocarbamatos como ziram, zineb e mancozeb, são efetivos no controle de míldio. Entretanto, têm pouca persistência na planta e são facilmente destruídos por altas temperaturas, radiação solar e chuvas, condição presente em regiões de clima tropical úmido. Esses produtos podem ser misturados aos cúpricos, não apresentam fitotoxicidade às plantas e requerem aplicações a cada 3 a 4 dias no período chuvoso. Caso ocorram chuvas fortes, porém, há necessidade de repetir a pulverização. Os fungicidas que têm ação de profundidade são mais eficazes quando aplicados preventivamente.
    Embora sejam mais eficazes que os fungicidas de contato, os fungicidas sistêmicos, por serem mais específicos, não devem ser utilizados em mais de duas ou três aplicações por ciclo vegetativo, diminuindo os riscos do aparecimento de raças resistentes do fungo. Deve ser adotado, portanto, um programa de tratamentos com alternância de produtos com diferentes modos de ação, aplicando-se fungicidas sistêmicos nos estádios de maior sensibilidade da videira, ou seja, nos períodos de pré-floração e frutificação. No ciclo de formação de plantas, caso não seja deixada produção na entressafra ("safrinha"), devem ser utilizados apenas produtos com ação de contato.
    Os fungicidas a base de cobre não devem ser usados durante o florescimento e pegamento dos frutos, pois podem causar fitotoxicidade. Sua utilização é recomendada entre os estádios de 'chumbinho' até o amolecimento das bagas, e logo após a colheita. Entre os estádios de ervilha até a compactação dos cachos o cobre a ser usado deve ser na formulação de hidróxido de cobre na formulação GrDA, objetivando-se não manchar a uva.
    No período chuvoso, quando as condições são mais favoráveis ao desenvolvimento do míldio, pode-se adotar a seguinte estratégia de tratamentos durante o ciclo:

  • Do estádio de duas a três folhas separadas até 3 dias antes da florescimento aplicar produtos de contato, exceto à base de cobre, a cada 4 dias;

  • Um a dois dias antes de o florescimento aplicar metalaxyl ou fenamidone, repetindo-se aos sete dias após a primeira aplicação. Após a segunda aplicação de fungicidas sistêmicos, aplicar oxicloreto de cobre intercalado com outros produtos de contato a cada quatro dias, até o estádio de 'ervilha';

  • Entre os estádios 'ervilha' até a compactação dos cachos aplicar hidróxido de cobre GrDA intercalado com outros produtos de contato a base de mancozeb formulação SC, os quais não mancham a uva.

  • Após a colheita, aplicar calda bordalesa a 1% alternada com mancozeb a cada 10 dias, objetivando-se manter a folhagem sadia para recompor as reservas das plantas.

  • No período seco, o mais indicado é o acompanhamento das condições meteorológicas para verificar se há ou não a necessidade de algum tratamento em função da presença de água livre nas folhas, fator condicionante da infecção.

    Em termos gerais, para definir um calendário de tratamentos para míldio deve-se levar em consideração alguns aspectos básicos:

  • míldio só infecta os tecidos verdes se tiver água livre.

  • Os produtos de contato só atuam preventivamente e só protegem as superfícies aplicadas, não combatendo o fungo no interior dos tecidos.

  • Os produtos que têm ação de profundidade só têm efeito na área aplicada por um período de 5 a 7 dias. Sua eficácia será tanto maior quanto mais próximo de 100% de área foliar for coberto pêlos produtos. Esses produtos matam o fungo dentro das folhas se aplicado até dois dias após a infecção.

  • Os produtos sistêmicos, que se translocam na planta, protegem por cerca de 7 dias em áreas tropicais, e seu uso deve ser restringido a duas aplicações no ciclo de produção. Esses produtos matam o fungo no interior da folha quando aplicado até três dias após a infecção.

  • A cv. Niágara Rosada exige maior cuidado no período de frutificação, uma vez que a infecção no cacho causa grandes perdas;

  • Entre os produtos registrados, após o estádio de 'ervilha' dar preferência para aqueles que não mancham a uva.


Requeima das folhas - Alternaria sp.

    A requeima foliar da videira, problema recentemente constatado em condições tropicais, tem causado grandes preocupações para os produtores de uvas de mesa da região de Jales, SP. Observações iniciais ocorreram no ano de 1998 em uvas americanas (Vitis labrusca L.) e híbridas no início da maturação dos frutos e, no ano seguinte, o problema passou a ser observado também nas cultivares de uvas finas (Vitis vinifera L.) durante o ciclo de formação. A doença tem sido muito agressiva, uma vez que provoca a queda prematura de folhas e prejudica a maturação dos frutos, acarretando em baixos teores de açúcares, elevada acidez e fraca coloração, tornando os cachos inadequados para a comercialização. Além disso, compromete a formação e maturação dos ramos no ciclo seguinte, devido ao menor acúmulo de reservas de carboidratos.

Sintomatologia: Os sintomas começam a ser percebidos como manchas bem definidas, de contorno irregular e coloração arroxeada na face superior das folhas (Figura 3a). Nesta fase também pode ser facilmente observada necrose interna de tecidos expondo a face de baixo da folha contra a luz do sol. As manchas, em seguida, tornam-se necróticas e de coloração cinza-escura, evoluindo para os bordos, aumentando rapidamente e podendo coalescer e cobrir quase todo o limbo foliar (Figura 3b). Em seguida ocorre a morte e queda das folhas, permanecendo temporariamente os pecíolos presos nos ramos. A doença tem ocorrido com maior freqüência no início do amolecimento das bagas, causando desfolha precoce e prejudicando a maturação da uva (Figura 3c).

Figura 3a
Fig. 3a. Sintomas de requeima das folhas.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 3b
Fig. 3b. Sintomas avançados de requeima das folhas. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 3c
Fig. 3c. Maturação prejudicada devido a desfolha precoce causada pela requeima. (Foto: J. Dimas G.M.)

Controle: Embora a doença venha sendo objeto de observação por pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho e da Universidade Camilo Castelo Branco (UNICASTELO), até o presente momento não há resultados de pesquisa que permitam a recomendação de medidas adequadas para o seu controle. No entanto, em observações de campo verifica-se um bom controle da doença na cv. Niágara Rosada quando as pulverizações são iniciadas 30 dias após a poda e se estendem por até dez dias após o início do amolecimento das bagas, utilizando-se fungicidas a base de tebuconazole (quinzenal) e mancozeb SC (semanal), Maia1. Esses produtos têm proporcionado bom controle de míldio e alternaria sem manchar a uva.


Ferrugem - Phakopsora euvitis

    Causada pelo fungo Phakopsora euvitis, que tem grande potencial de disseminação, a doença foi inicialmente detectada na Ásia e na América do Norte, sendo constatada pela primeira vez no Brasil no ano de 2001 em municípios da região norte do Estado do Paraná. Atualmente, a ocorrência do patógeno já se estendeu aos parreirais de outras regiões vitícolas do país.
    Phakopsora euvitis, ocorre principalmente, em áreas tropicais e subtropicais onde a severidade da doença parece ser maior que nas regiões de clima temperado. Registros preliminares têm mostrado que cultivares americanas e híbridas como Niágara e Isabel são mais suscetíveis que variedades européias (V. vinifera).

Sintomatologia: Os sintomas da doença na videira são lesões amareladas a castanhas de várias formas e tamanhos nas folhas, podendo aparecer manchas cloróticas em áreas correspondentes na face superior (Figura 4a). Massas amarelo-alaranjadas de uredosporos são produzidas na face inferior das folhas (Figura 4b), com manchas escuras necróticas na face superior. Ataques severos do fungo causam senescência e queda prematura de folhas, prejudicando os frutos e reduzindo o vigor das plantas no ciclo seguinte.

Figura 4a
Fig. 4a. Sintomas de ferrugem na face superior das folhas.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 4b
Fig. 4b. Frutificação da ferrugem na face inferior das folhas.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Controle: O controle químico da ferrugem durante o ciclo produtivo é necessário em poucas áreas, uma vez que, apesar de ser elevado o número de pústulas nas folhas, a velocidade de desfolha é relativamente lenta. Após a colheita, no entanto, essa velocidade aumenta sensivelmente, chegando a desfolhar a cultura durante a fase de repouso. Dessa forma, o controle deve ser iniciado próximo à colheita e na fase inicial do repouso para evitar a desfolha precoce. Em ensaios de avaliação da eficiência de fungicidas no controle da ferrugem da videira, obtiveram-se bons resultados quando foram realizadas pulverizações com produtos do grupo dos triazóis (tebuconazole, metconazole e cyproconazole) e um produto do grupo das estrobirulinas (azoxystrobin), já registrados para cultura da videira (Tabela 1).


Antracnose - Elsinoe ampelina

Sintomatologia: O fungo ataca todos os órgãos verdes da planta (folhas, gavinhas, ramos, inflorescências e frutos). Nos ramos, a doença causa o aparecimento de cancros com formatos arredondados de coloração cinzenta no centro e bordas de coloração preta (Figura 5). Nas folhas com a evolução da doença as manchas ficam perfuradas no centro. Nas bagas também aparecem manchas circulares de cor cinza no centro e preta nas bordas. Na região noroeste paulista a doença não tem ocorrido, porém poderá assumir maior importância em regiões com maior intensidade pluviométrica.

Figura 5
Fig. 5. Formação de cancros nos ramos.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Condições predisponentes: O desenvolvimento do fungo é favorecido pela alta umidade provocada por precipitação, nevoeiro e orvalho. Temperaturas de 2ºC a 32ºC permitem que o patógeno se desenvolva, sendo a temperatura ótima de 20ºC.

Controle: O controle deve ser iniciado na época da poda com a queima de ramos doentes e com tratamento químico, visando eliminar ou diminuir o inoculo inicial. A cv. Niágara Rosada é menos sensível à antracnose do que as uvas finas. Na região Noroeste Paulista a antracnose não tem ocorrido. Em outras regiões se ocorrer o controle deve ser preventivo até os primeiros 60 dias após a poda. Os produtos recomendados para o controle de antracnose e as épocas de aplicações estão apresentados na Tabela 2.


Mancha das folhas - Pseudocercospora vitis

    Também conhecida como isariopsis, a doença, causada por Isariopsis clavispora=Pseudocercospora vitis, tem grande importância em cultivares americanas, entre elas a Niágara, principalmente em regiões mais quentes, onde a doença evolui rapidamente. A desfolha precoce é o principal dano, acarretando o enfraquecimento da planta e deficiência na maturação dos ramos e consequentemente má brotação no ciclo seguinte.

Sintomatologia: Os sintomas se manifestam principalmente nas folhas, onde são bastante característicos. No limbo foliar aparecem manchas bem definidas, de contorno irregular e coloração inicialmente castanho-avermelhada, que mais tarde escurece. As manchas podem atingir até 2 cm de diâmetro e apresentam um halo amarelado ou verde-claro bem visível (Figura 6); na face oposta da folha, no tecido correspondente, ocorre uma coloração pardacenta. Não há perfurações nem deformações da folha. As frutificações do fungo se desenvolvem tanto na face superior como na inferior da folha. O ataque severo da doença provoca a queda prematura das folhas, impossibilitando a planta recompor as reservas de carboidratos para o ciclo seguinte.

Figura 6
Fig. 6. Sintomas de manchas das folhas. (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes: A doença se desenvolve em condições de alta temperatura e umidade. As folhas basais normalmente são as mais afetadas. O aparecimento dos sintomas ocorre, geralmente, no início da maturação da uva. A ausência ou um número insuficiente de tratamentos para o controle do míldio pode favorecer o desenvolvimento da doença.

Controle: As medidas adotadas para o controle do míldio, exceto os produtos cúpricos, geralmente são suficientes para manter a doença em níveis baixos. Os tratamentos químicos pós-colheita dão uma melhor proteção à folhagem, mantendo-a por mais tempo na planta.


Podridões do cacho - Melanconium fuligineum e Glomerella cingulata

    As principais podridões do cacho da Niágara são a podridão amarga causada pelo fungo Melanconium fuligineum e a podridão da uva madura, causada por Glomerella cingulata. Provocam perdas tanto na qualidade como na quantidade da uva produzida.

Sintomatologia: Podridão amarga - As infeções iniciam-se após a floração e permanecem latentes até a maturação da uva, quando os sintomas são mais evidentes. Inicialmente se observa uma lesão aquosa, marrom que aumenta em forma de anéis concêntricos até envolver toda a baga. Em condições favoráveis, aparecem pústulas escuras, irregulares e de tamanho variável, que são as estruturas do fungo. Quando os frutos úmidos são manipulados, liberam esporos em forma de resíduos escuros. Os frutos atacados podem enrugar e mumificar.

Podridão da uva madura

    As infeções iniciam-se após a floração e permanecem latentes até a maturação da uva. Os sintomas mais evidentes são observados nos cachos na fase de maturação ou em uvas colhidas. Sobre as bagas atacadas surgem manchas circulares, marrom-avermelhadas, que, posteriormente, atingem todo o fruto, escurecendo-o. Em condições favoráveis (alta umidade), aparecem as estruturas reprodutivas do fungo (acérvulos) na forma de pontuações cinza-escuras, concêntricas, das quais exsuda uma massa rósea ou salmão, que são os conídios do fungo. Esta massa rósea serve para diferenciar da podridão amarga. Estas doenças podem ocorrer simultaneamente no mesmo cacho, provocando a murcha do cacho e a mumificação de parte ou de todas as bagas.

Condições predisponentes: O desenvolvimento e a esporulação dos fungos são favorecidos por alta umidade e temperaturas em torno de 25 a 30°C . O vento, a chuva e os insetos auxiliam na disseminação dos esporos dos fungos. Ferimentos nos frutos favorecem o estabelecimento dos patógenos. Adubação com nitrogênio em excesso proporcionam alto vigor à planta, o que favorece a infeção e o desenvolvimento da doença no fruto. Na podridão da uva madura as infeções podem ocorrer em todos os estádios de desenvolvimento do fruto. No final da floração ou em bagas jovens, o fungo penetra na cutícula e permanece latente até o inicio da maturação da uva, quando então os sintomas tornam-se visíveis. O fungo sobrevive em frutos mumificados e pedicelos e na primavera, com elevada umidade, produz abundante frutificação, que é a fonte primária de inóculo.

Controle: As podridões podem ser melhor controladas por um programa integrado de manejo, onde são observadas as seguintes práticas: adotar espaçamentos que proporcionem uma boa aeração e insolação; evitar excesso de nitrogênio; colher todos os cachos, evitando assim que eles mumifiquem no pé; controlar doenças como o míldio; controlar as pragas da parte aérea; proporcionar boa distribuição superficial dos ramos sobre o aramado, realizar o abaixamento de cachos, deixando-os livres; realizar poda verde (desbrota, desfolha, desnetamento e esladroamento); tratar com fungicidas específicos; no caso do uso de fungicidas sistêmicos, alterná-los com fungicidas protetores; iniciar os tratamentos bem antes da compactação do cacho, geralmente no final da floração com os produtos da Tabela 2.

Ocorrência das doenças fúngicas em regiões de clima tropical úmido

    Na região noroeste do Estado de São Paulo o controle tem sido necessário apenas para míldio, requeima e ferrugem. O controle não é difícil e alguns produtos controlam simultaneamente ferrugem e requeima das folhas, assim como míldio e requeima, permitindo reduzir o número de aplicações durante o ano. Em outras regiões de clima tropical mais úmido, como na região norte do Brasil, as outras doenças como; antracnose, mancha das folhas e as podridões de cachos poderão assumir importância econômica e necessitar de controle a partir de observações locais de severidade. Na figura 7 observa-se os estádios fenológicos mais suscetíveis para cada uma das doenças citadas.

Viroses

    As doenças causadas por vírus nem sempre despertam a preocupação dos viticultores, talvez por desconhecimento da sintomatologia ou mesmo por seus efeitos mais graves aparecerem a médio prazo, embora alguns vírus possam causar a morte de mudas com idade entre um a três anos. A videira por ser propagada vegetativamente por estacas (pé-franco) ou pela enxertia (muda enxertada), facilita a disseminação das viroses. A produção da muda pelo viticultor, utilizando material vegetativo do seu próprio vinhedo ou de vizinhos, sem o conhecimento do estado sanitário (presença ou não de vírus), tem favorecido a disseminação dessas doenças e, com muita freqüência, o acúmulo de mais de um tipo de virose na mesma planta.
    A uva Niágara pode ser afetada por inúmeros vírus, embora a maioria de forma latente, ou seja, a planta afetada não mostra os sintomas característicos da doença e, quando mostra, estes sintomas aparecem somente em determinadas fases do ciclo da planta, dificultando a sua observação. Entretanto, algumas viroses podem causar prejuízos consideráveis a esta variedade, entre as quais, a doença "Enrolamento da Folha" e a doença do "Complexo Rugoso da Videira".


"Enrolamento da Folha da Videira" (Grapevine leafroll-associated virus, GLRaV)

    É uma doença complexa, onde podem estar associados até nove vírus diferentes. Destes, os dois de maior importância econômica GLRaV-1 e três já foram identificados no Brasil, além do GLRaV-2. Os sintomas dessa doença, em plantas de Niágara, não são muito pronunciados, mas podem ocorrer queimaduras entre as nervuras principais e leve enrolamento das folhas, bem como redução no desenvolvimento da planta. É importante salientar que as cultivares de porta-enxerto, em geral, não mostram sintomas dessa virose, impossibilitando distinguir uma planta doente de uma sadia, o que facilita a utilização de material contaminado.


"Complexo rugoso da Videira"

    Nesta doença estão associadas quatro viroses que afetam o lenho das plantas, especialmente o tronco, sendo: Acanaladura do lenho de Kober (Grapevine virus A, GVA); Caneluras do tronco de Rupestris (Rupestris stem pitting-associated virus, RSPaV); Acanaladura do lenho de LN33 e Intumescimento dos ramos (Grapevine virus B, GVB). Estas viroses, com exceção da última, são conhecidas na prática por caneluras do tronco ou lenho rugoso por causarem sintomas muito semelhantes nos troncos das plantas.


Virose do intumescimento dos ramos

    Plantas de Niágara afetadas por esta virose mostram engrossamento em um ou mais entrenós do ramo do ano (Figura 8), com fendilhamento longitudinal da região afetada. Eventualmente estes sintomas podem ser observados, também, no pecíolo das folhas próximas à região afetada do ramo. As plantas doentes definham gradativamente com eventual morte de ramos e a brotação é fraca e atrasada.

Figura 8
Fig. 8. Sintomas de intumescimento de ramos.
(Foto: G.B.Kuhn)

Virose das Caneluras do Tronco ou Lenho Rugoso

    As plantas de Niágara afetadas por estas viroses apresentam caneluras no tronco, sob a casca, inclusive no porta-enxerto. As caneluras (Figura 9a) são ranhuras longitudinais que correspondem ao local onde a casca penetra no lenho do tronco (Figura 9b), trazendo como conseqüência a má formação dos vasos condutores da seiva. As plantas doentes, em geral, diminuem o vigor e as gemas brotam mais tardiamente. A casca do tronco é mais grossa e de aspecto corticento e escamada. Também pode ocorrer na região da enxertia uma diferença de diâmetro entre o enxerto e o porta-enxerto. A morte de plantas pode ocorrer a partir de 6 e 8 anos de idade e até mais cedo, quando o porta-enxerto é muito sensível.

Figura 9
Fig. 9a. Sintoma da virose das caneluras do tronco. (Foto: G.B.Kuhn)

Figura 9b
Fig. 9b. Virose das caneluras do troco, detalhe da casca penetrando no lenho. (Foto: G.B.Kuhn)


    Todas estas viroses são transmitidas pelo material de propagação da videira. Até o momento não foi constatada a transmissão dos vírus através das ferramentas como a tesoura de poda, canivete para enxertia, etc. Na Europa já está comprovado que espécies de cochonilhas transmitem alguns vírus do Enrolamento da Folha e do Complexo Rugoso. No Brasil, estudos estão sendo conduzidos e ainda não se tem resultados conclusivos se as espécies que ocorrem nos nossos vinhedos são ou não vetoras de vírus. Recomenda-se, portanto, que se faça um controle rigoroso das cochonilhas, não só pelos sérios danos físicos que causam à cultura mas, também, pela possibilidade de transmitirem vírus.
    A substituição de variedades copa, devido a problemas de mercado ou de produtividade, mantendo-se os porta-enxertos originais é uma prática comum adotada pelos viticultores em algumas regiões do Brasil. Essa prática, embora permita a substituição rápida da variedade copa sem interrupção de um ano de produção, oferece grandes riscos, pois se o porta-enxerto estiver infectado, a nova copa também será contaminada. Dessa forma, quando não se tem a garantia da sanidade do material original, é recomendável o arranquio das plantas e o plantio de novos porta-enxertos sadios para serem enxertados com garfos sadios.
    Os principais prejuízos causados pelas viroses estão relacionados a queda acentuada da produção, diminuição do teor de açúcar da uva, maturação irregular e deficiente, diminuição da longevidade e morte de plantas.

Controle: Como no campo não é possível fazer o controle químico das viroses, o único modo seguro de se implantar um vinhedo sadio é adquirindo o material de propagação (porta-enxerto e copa) livre de vírus. Para isso deve-se obter o material propagativo (mudas, estacas, garfos) de viveiristas que multipliquem material sadio sob fiscalização dos órgãos oficiais. A idoneidade da origem do material propagativo é de fundamental importância pois, no momento da aquisição, tanto de mudas como de estacas de porta-enxertos e garfos das produtoras, dificilmente se poderá visualizar sintomas no caso do material estar infectado. Somente com o desenvolvimento das plantas no vinhedo é que o produtor vai se dar conta que adquiriu material contaminado.


Tabela 1.
Fungicidas registrados no Ministério da Agricultura, pecuária e Abastecimento para controle das doenças fúngicas da videira.

Ingrediente ativo Produto Comercial Formulação Classe Toxicológica Dose (g ou mL/100 L) P.C. Modo de ação
Azoxystrobin Amistar GrDa IV 24 S
Benalaxyl + macozeb Galben-M PM III 200 a 250 S
Captan Captan 500 PM PM III 240 C
Captan SC SC III 400 C
Orthocide 500 PM III 240 C
Carbendazim Derosal 500 SC SC III 100 S
Chlorothalonil Bravonil 500 SC I 400 C
Bravonil 750 PM PM II 200 C
Bravonil Ultrex GrDa I 150 C
Isatalonil PM II 200 C
Daconil BR PM II 200 C
Daconil 500 SC I 300 C
Dacostar 500 SC I 400 C
Vanox 500 SC SC I 400 C
Vanox 750 PM PM II 250 C
Dacostar 750 PM II 200 C
Chlorothalonil + Tiofanato metil Cerconil PM PM II 200 C+S
Cerconil SC SC III 200 C+S
Cymoxanil + Famocadone Equation GrDa III 60 S
Cymoxanil + Macozeb Curzate BR PM III 250 P
Cymoxanil + maneb Curzate – M + Zinco PM III 250 P
Cyproconazole Alto 100 SC III 20 S+C
Difenoconazole Score CE I 8 a 12 S
Dithianon Delan PM II 125 C
Enxofre Cover DF WG IV 200 a 400 C
Kolossus PM IV 400 C
Kumulus DF WG IV 200 a 400 C
Microsol SC IV 150 C
Sulficamp PM IV 500 C
Fenamidone Censor SC III 30 P
Fenarimol Rubigan 120 CE II 15 a 20 S
Folpet Folpan Agricur 500 PM PM IV 135 a 180 C
Fosetyl-Al Aliette PM IV 250 S
Hidróxido de cobre Contact PM IV 150 a 200 C
Garant PM IV 200 C
Garant BR PM III 200 C
Kocide WDG GrDa III 180 C
Imibenconazole Manage 150 PM III 100 S
Iprodione Rovral PM IV 200 C
Rovral SC IV 150 a 200 C
Irpovalicarb + propineb Positron Duo PM III 200 a 250 S+C
Mancozeb Dithane PM PM III 250 a 350 C
Mancozeb 800 PM PM II 350 C
Manzate 800 PM III 250 C
Manzate GrDa GrDa III 250 C
Persist SC SC III 630 C
Mancozeb + Metalaxyl-M Ridomil Gold MZ PM III 300 S
Mancozeb + Oxicloreto de cobre Cuprozeb PM III 350 C
Mancozeb + Tiofanato metil Dithiobin 780 PM PM III 250 C+S
Maneb Maneb 800 PM III 350 C
Metconazole Caramba 90 SC III 50 a 100 S
Myclobutanil Systhane PM III 20 S
Oxicloreto de Cobre Agrinose PM IV 300 a 350 C
Cupravit Azul BR PM IV 300 C
Fungitol Azul PM IV 275 C
Fungitol Verde PM IV 222220 C
Hokko Cupra 500 PM IV 250 a 300 C
Propose PM IV 300 C
Ramexane 850 PM PM IV 250 C
Reconil PM IV 300 C
Procymidone Sialex 500 PM III 150 a 200 S
Propineb Antracol 700 PM PM II 300 C
Pyraclostrobin Comet CE II 40 S
Pyrazophos Afugan CE II 60 S
Pyrimethanil Mythos SC III 200 S
Tebuconazole Elite CE III 100 S
Folicur 200 CE CE III 100 S
Folicur PM PM III 100 S
Constant CE III 100 S
Triade CE III 100 S
Tetraconazole Domark 100 CE II 50 a 75 S
Tiofanato metil Metiltiofan PM IV 100< /td> S
Tiofanato metil Cercobin 700 PM PM IV 70 S
Tiofanato metil Tiofanato 500 SC SC IV 100 S
Triadimenol Shavit Agricur 250 CE CE I 50 a 100 S

PM - Pó molhável: CE - concentrado emulsionável; SC - suspensão concentrada; GrDa ou WG - grânulos dispersíveis em água; S - sistêmico; C - contato; P - profundidade; P.C. - Produto Comercial.


Tabela 2.
Recomendações para o controle químico das principais doenças da 'Niágara Rosada' em regiões tropicais.

Doença/Patógeno Época de aplicação Princípio ativo, concentração (%) Dosagem (i.a.)* (g/100L) Intervalo de Aplicação (dias) Período de Carência (dias)
Antracnose (Elsinoe ampelina) Umidade e temperatura favoráveis: do início da brotação até 60 dias após a poda captan 50 125 7 1
folpet 50 140 7 1
dithianon 75 93,75 7 21
difenoconazole 2-3 12-14 21
chlorothalonil 75 200 7 7
tiofanato Metílico 50 50 12 14
imibenconazole 15 12 7
Míldio (Plamopara viticola) Presença de água líquida : 2-3 folhas separadas até o pegamento dos frutos. dithianon 75 125 5-7 21
mancozeb 80 240 4 21
folpet 50 140,0 5-7 1
metalaxyl 64 + mancozeb 64 24+192 7 21
cymoxanil 8 + famoxadone 31,5 - -
cymoxanil 8 + maneb 64 20+160 5-7 7
iprovalicarb + propineb 135 7 10
azoxystrobin 12 5-7 7
fosetyl-Al 200 7 7
benalaxyl + mancozeb 146 7 21
captan 120 4 1
propineb 210 7 7
Pegamento de frutos até a compactação dos cachos hidróxido de cobre (GrDA)** 54 7 7
mancozeb (SC)*** 240 7 21
Requeima das folhas (Alternaria sp.) 30 dias após a poda até dez dias após o início do amolecimento das bagas mancozeb 240 3-4 21
tebuconazole 10 15 14
Ferrugem (Phakopsora euvitis) Próximo à colheita até a fase inicial do repouso tebuconazole 20 7 14
metconazole 9 7 7
cyproconazole 10 7 14
azoxystrobin 12 7 7
Manchas das folhas (Pseudocercopora vitis) Iniciar os tratamentos nos primeiros sintomas mancozeb 80 200-280 7-10 21
tiofanato metílico 70 49 10-12 14
difenoconazole 2 a 3 12-14 21
Dithianon 93,75 7-10 21
tebuconazole 20 10-14 14
Podridões do cacho (Melanconium fuligineum, Glomerella cingulata) Iniciar os tratamentos na floração Tebuconazole 25 10-14 14
Captan 125 7-10 1
Mancozeb 200-280 7-10 21
Folpet 65 7-10 1

* i.a.= ingrediente ativo.
**GrDA: grânulos dispersíveis em água.
*** SC: suspensão concentrada

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