Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 9
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uvas Rústicas para Processamento em Regiões Tropicais do Brasil
João Dimas Garcia Maia
Umberto Almeida Camargo
Cultivares

A denominação "uvas rústicas" ou "uvas comuns" é utilizada no Brasil para todas as cultivares de uvas americanas (Vitis labrusca e Vitis bourquina), e híbridas de diferentes espécies de Vitis. De maneira geral, estas videiras caracterizam-se por apresentar elevada produtividade e alta resistência às doenças que atacam as cultivares de Vitis vinifera, como o míldio e o oídio. No caso das cultivares de Vitis labrusca, as características de sabor e aroma da uva são determinantes da preferência de muitos consumidores, seja para consumo in natura seja dos vinhos e sucos elaborados. No caso de cultivares híbridas, muitas apresentam qualidade similar à das uvas finas (Vitis vinifera) associada à resistência às doenças fúngicas, constituindo-se em alternativa interessante para a produção de uvas, vinhos e sucos utilizando sistemas de produção alternativos (orgânico ou ecológico).
As videiras americanas apresentam resistência à filoxera, em grau variável segundo a espécie, e podem ser plantadas de pé-franco. Entretanto, a enxertia oferece diversas vantagens, sendo recomendada sua utilização. Além do controle à filoxera, destacam-se como principais vantagens do uso da enxertia: a) maior desenvolvimento inicial das plantas, proporcionando antecipação da produção e retorno mais rápido do inestimento; b) maior vigor geral das plantas, assegurando maior produtividade do vinhedo; e, c) produção de cachos e bagas de maior tamanho, também com reflexos positivos sobre a produtividade.
Neste capítulo são apresentados os principais cultivares de porta-enxertos e cultivares copa, de uvas rústicas, recomendados para cultivo nas regiões brasileiras de clima quente.

Principais Cultivares

Porta-enxertos

Em geral, os porta-enxertos cultivados em regiões de clima temperado também adaptam-se ao cultivo em regiões de climas quentes. Exemplo disto é o início da viticultura no Norte do Paraná, no Noroeste de São Paulo e no Norte de Minas Gerais, onde, nos idos das décadas de 1970 e de 1980, eram utilizados os porta-enxertos 420-A e Kober 5 BB. Outro exemplo é a viticultura tropical da Venezuela baseada, em grande parte, no porta-enxerto 1103 Paulsen.
Atualmente, no Brasil, graças ao trabalho pioneiro de melhoramento genético realizado por Santos Neto (1971), dispõe-se de porta-enxertos especialmente desenvolvidos para as condições de clima tropical, os quais são especialmente recomendados para o cultivo das uvas americanas e híbridas, conforme descrito abaixo.

IAC 313 "Tropical"

Este porta-enxerto foi o primeiro cultivar criado para as condições tropicais do Brasil desenvolvido por Santos Neto, no Instituto Agronômico de Campinas. Foi a base da viticultura do Vale do São Francisco, sendo também usado no Norte de Minas Gerais e no Noroeste de São Paulo. Na década de 1990 foi praticamente substituído pelo IAC 572, difundido em todas as regiões tropicais do Brasil, por engano, como Tropical livre de vírus. Atualmente está voltando a ser utilizado, especialmente no Vale do São Francisco, para o plantio de uvas de mesa sem sementes. Apresenta crescimento continuado, alto vigor, boa capacidade de enraizamento e boa pega de enxertia. Adapta-se bem em diferentes tipos de solo e tem ampla afinidade com as copas.

IAC 572 "Jales"

Porta-enxerto de grande vigor vegetativo, difundido equivocadamente em todas as regiões tropicais do Brasil como Tropical livre de vírus na década de 1990. Apresenta ótima capacidade de enraizamento e afinidade geral com as copas. Apresenta crescimento continuado e imprime grande vigor às copas. Atualmente é o porta-enxerto mais usado no cultivo de uvas rústicas nas regiões tropicais do Brasil.

IAC 766 "Campinas"

Este porta-enxerto é menos vigoroso que os dois anteriormente referidos e apresenta tendência ao repouso quando as temperaturas são mais amenas. É uma opção para o cultivo de uvas rústicas, porém tem sido pouco utilizado.

Cultivares copa

As principais cultivares copa para a produção de uvas destinadas a fins industriais, passíveis de cultivo em regiões quentes, são referidas a seguir. Algumas apresentam ampla adaptação, com possibilidade de produção em todas as regiões vitícolas do Brasil; outras, como 'Bordô', 'Concord', 'Concord Clone 30' e 'Rúbea'' são passíveis de cultivo em regiões quentes, de climas subtropicais, mas não apresentam bom comportamento em regiões tropicais, onde não há o repouso hibernal. Na tabela 1 são apresentadas as características do mosto das diversas cultivares aqui descritas.

Bordô

No Brasil é conhecida por nomes regionais, 'Bordô' no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina; 'Terci' no Paraná; 'Folha de Figo' em Minas Gerais. Esta cultivar de uva tinta tem importância comercial só em regiões com inverno definido, apresentando grande dificuldade de desenvolvimento em climas tropicais. Assim, a recomendação de cultivo desta cultivar está restrita aos pólos do Sul de Minas Gerais e Norte do Paraná, além dos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. É uma cultivar muito rústica e resistente a doenças fúngicas, normalmente plantada de pé-franco. A uva apresenta alta concentração de matéria corante, motivo principal de sua significativa difusão. Origina vinho e suco intensamente coloridos que, em cortes, servem para a melhoria da cor dos produtos à base de 'Isabel' e de 'Concord'.

BRS Cora

É uma cultivar de uva tinta desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho a partir do cruzamento Muscat Belly A x BRS Rúbea, lançada em 2004 como alternativa de uva tintureira para cultivo nas regiões tropicais do Brasil (Camargo & Maia,2004). É altamente produtiva e apresenta mosto rico em cor, sendo especialmente recomendada para compor com Isabel e Concord na elaboração de suco de uva, agregando ao produto maior intensidade de cor. Já foi testada com sucesso no Noroeste Paulista, no Triângulo Mineiro, No Mato Grosso, em Goiás e também no Rio grande do Sul. Em avaliações preliminares também vem demonstrando bom comportamento no Vale do São Francisco.

BRS Lorena

A cultivar de uva branca BRS Lorena foi lançada pela Embrapa Uva e Vinho em 2001, recomendada especialmente para a elaboração de vinho espumante do tipo Asti, e também como opção para a elaboração de vinhos tranqüilos aromáticos (Camargo & Zanuz, 1997). É uma cultivar que apresenta alta produtividade, mosto rico em açúcar e acidez relativamente alta, proporcionando espumantes e vinhos tranqüilos bem equilibrados em sabor. Originária do cruzamento Malvasia Bianca x Seyval, herdou desta última as características de resistência às doenças fúngicas, em especial ao míldio e às podridões do cacho. Além de bem adaptada às condições ambientais do sul do Brasil, mostrou bom comportamento também nas regiões Centro-Oeste e Nordeste do país.

BRS Rúbea

'BRS Rúbea` é uma uva tinta oriunda do cruzamento 'Niágara Rosada' x ´Bordô`. Foi lançada pela Embrapa Uva e vinho como nova cultivar em 1999, especialmente recomendada para compor com 'Isabel' e 'Concord' na elaboração de suco de uva, podendo também ser utilizada na elaboração de vinho de mesa (Camargo & Dias, 1999). Sua principal qualidade é a intensa coloração do mosto, que contribui para a melhoria de qualidade de vinhos e sucos elaborados com outras uvas. É vigorosa e resistente a doenças, é bem adaptada às condições da Serra Gaúcha e apresenta potencial para cultivo em diferentes locais da Região Sul. Apresenta dificuldade de adaptação em climas quentes, expressa por baixo vigor, mas vem sendo cultivada em Goiás, com relativo sucesso, como alternativa de uva tintureira.

Concord

Tradicional cultivar de Vitis labrusca, ´Concord` é a uva tinta referência de qualidade para suco pelas suas características de aroma e sabor. É uma cultivar de alta rusticidade, muito cultivada nos Estados do Sul, onde normalmente é plantada em pé-franco e, muitas vezes, dispensando tratamentos com fungicidas. Para a obtenção de boas produções comerciais, entretanto, normalmente são feitas algumas pulverizações. Apresenta dificuldade de adaptação em regiões tropicais, sendo recomendada apenas para regiões onde existe um período de repouso definido. Seu limite de cultivo econômico é o Norte do Paraná.´Concord` é relativamente precoce, medianamente vigorosa e bastante produtiva quando bem manejada.

Concord Clone 30

A cultivar Concord Clone 30 foi lançada pela Embrapa Uva e Vinho em 2000 como alternativa para a ampliação do período de produção e processamento de uvas para suco na região Sul do Brasil. Trata-se de um clone precoce da cultivar Concord, cujas características gerais de comportamento, produção e qualidade da uva são as mesmas da cultivar original, porém a maturação é antecipada em cerca de duas semanas (Camargo). Assim como a 'Concord', este clone apresenta dificuldade de adaptação em regiões tropicais, sendo recomendada apenas para regiões temperadas e subtropicais, como o norte do Paraná, onde existe um período de repouso definido.

Isabel

'Isabel' é uma cultivar de uva tinta, muito rústica e altamente fértil, proporcionando colheitas abundantes com poucas intervenções de manejo. Tem o sabor característico das labruscas, adaptando-se a todos os usos: é consumida como uva de mesa; usada para a elaboração de vinhos branco, rosado e tinto, os quais, muitas vezes, são utilizados para a destilação ou para a elaboração de vinagre; origina suco de boa qualidade; pode ser matéria prima para o fabrico de doces e geléias. É a cultivar mais plantada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Apresenta boa performance nos climas tropicais do Brasil, com resultados positivos comprovados no Noroeste de São Paulo, no Triângulo Mineiro, em Goiás e no Mato Grosso. Resultados mais recentes, ainda não conclusivos, indicam que esta cultivar poderá ser também uma alternativa para a produção de vinho de mesa e suco também no Vale do São Francisco. Normalmente os produtos elaborados com uvas da cultivar Isabel precisam ser cortados com vinho ou suco de cultivares tintureiras para obtenção de produtos com a intensidade de coloração que o mercado exige.

Isabel Precoce

Trata-se de um clone da 'Isabel' selecionado pela Embrapa Uva e Vinho, lançado como nova cultivar em 2002. Esta cultivar de uva tinta é recomendada como alternativa para a elaboração de vinho de mesa, suco de uva e também como opção para o consumo in natura (Camargo,2004). Apresenta as características gerais da Isabel, porém, tem maturação mais precoce, sendo a colheita antecipada em cerca de 35 dias. Diferentemente da cultivar Isabel, na qual é comum a presença de bagas verdes entremeadas no cacho maduro, a 'Isabel Precoce' apresenta maturação uniforme. A área cultivada com 'Isabel Precoce' vem crescendo tanto no Rio Grande do Sul com em novos pólos de produção de vinhos de mesa e de sucos das regiões Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. É uma cultivar com ampla capacidade de adaptação

Moscato Embrapa

A 'Moscato Embrapa' foi lançada pela Embrapa Uva e Vinho, em 1997 como alternativa para a produção de vinhos aromáticos de mesa. É uma cultivar de uva branca, vigorosa e resistente a doenças fúngicas, em especial às podridões do cacho. Está bastante difundida no Rio Grande do Sul, porém, comporta-se bem em regiões subtropicais e tropicais, demonstrando ótimos resultados no Mato Grosso do Sul, no Mato Grosso e no Vale do São Francisco. O vinho é tipicamente aromático, agradável ao paladar, pouco ácido, bem aceito pelos consumidores.

Niágara Branca

É uma cultivar de Vitis labrusca, muito rústica e resistente às principais doenças. Destacam-se, atualmente, como produtores de 'Niágara Branca' o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Sul de Minas Gerais.É utilizada principalmente como fonte de matéria prima para a elaboração de vinho, muito típico por suas características de aroma e sabor, amplamente aceito pelo consumidor brasileiro. Apresenta alguma dificuldade de adaptação em climas quentes, exigindo abundantes adubações orgânicas e irrigação para atingir vigor adequado em regiões tropicais.

Tabela 1. Características médias do mosto das cultivares de uvas rústicas para processamento, dados do Banco Ativo de Germoplasma de uva da Embrapa
Cultivar °Brix Acidez Total pH
 
Bordô 15,3 66,2 3,29
BRS Cora 20,3 72 3,4
BRS Lorena 21,2 102 3,13
BRS Rúbea 16,56 67,4 3,36
Concord 17,01 62,3 3,26
Concord Clone 30 16,9 68 3,35
Isabel 18,6 51,8 3,27
Isabel Precoce 19,06 57,7 3,22
Moscato Embrapa 20,4 75,54 3,32
Niágara Branca 16,9 62,4 3,25
Fonte: João Dimas G. Maia.
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