Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 9
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uvas Rústicas para Processamento em Regiões Tropicais do Brasil
Marco Antônio Fonseca Conceição
Irrigação de videiras em regiões tropicais do Brasil

Sistemas de Irrigação

Vários sistemas podem ser empregados para a irrigação da videira, dependendo das condições de solo e clima do local, bem como da disponibilidade de equipamentos e recursos financeiros. A maior parte das áreas vitícolas irrigadas nas regiões tropicais do Brasil localiza-se em terrenos de topografia elevada e em solos de textura média a arenosa. Por essa razão, a irrigação é realizada, principalmente, empregando-se sistemas sob pressão, como a aspersão, a microaspersão e o gotejamento.

Irrigação por aspersão

Em sistemas por aspersão, recomenda-se o emprego dos modelos subcopa, que operam abaixo do dossel das plantas. Os modelos sobrecopa molham as folhas, aumentando as chances de ocorrência de doenças, além de apresentarem maiores perdas de água devido à evaporação e ao arraste pelo vento. Nos sistemas subcopa, entretanto, há interferência dos troncos das plantas nos jatos de água, o que prejudica a uniformidade de distribuição, reduzindo a eficiência de aplicação de água e de nutrientes, nos casos em que se emprega a fertirigação. Deve-se utilizar aspersores com intensidade de precipitação baixa ou média, evitando o empoçamento da água abaixo da parreira. os sistemas de aspersão exigem, normalmente, moto-bombas de maior potência e demandam maior consumo de energia em relação ao gotejamento e à microaspersão. Por outro lado, os aspersores não necessitam de equipamentos de filtragem e apresentam uma menor necessidade de manutenção.

Irrigação por gotejamento

Esses sistemas aplicam baixas vazões com altas freqüências, muitas vezes diárias, umedecendo um volume de solo menor do que os outros sistemas. Os gotejadores são bastante suscetíveis ao entupimento, necessitando, normalmente, de filtros de discos (ou tela) e de filtros de areia. Tem-se observado a ocorrência de problemas sérios de entupimento nesses sistemas, principalmente quando se utiliza água com altos teores de ferro. Na irrigação por gotejamento a fertirrigação torna-se praticamente obrigatória, pois se os fertilizantes (ou esterco) forem aplicados em uma região do solo que não estiver umedecida eles não ficarão disponíveis para as plantas.

Irrigação por microaspersão

Os sistemas de microaspersão também necessitam de filtros, sendo comum, porém, empregar-se somente filtros de discos (ou tela), não necessitando de filtros de areia. Nesses sistemas podem ocorrer problemas com a entrada de insetos e aranhas nos microaspersores, prejudicando a aplicação de água. Por isso deve-se optar, sempre que possível, por microaspersores com dispositivos anti-insetos. Na microaspersão os emissores são, normalmente, posicionados a cada duas plantas, não havendo problemas de interferência dos troncos, como na aspersão subcopa. Sempre que possível as tubulações devem ficar suspensas na parreira, evitando-se cortes por enxadas ou danos por animais.

Necessidade de Água da Cultura

Para se determinar a quantidade de água a ser aplicada na irrigação deve-se conhecer a evapotranspiração da cultura (ETc), que engloba a evaporação da água do solo e a transpiração das plantas. Logo após a poda, durante os estágios iniciais de desenvolvimento dos ramos, há um predomínio da evaporação da água do solo sobre a transpiração das plantas. Posteriormente, com o desenvolvimento da área foliar, a transpiração passa a exercer o papel predominante no processo.
    A ETc é determinada multiplicando-se a evapotranspiração de referência (ETo) da região pelo coeficiente da cultura, denominado Kc (ETc = ETo x Kc). A ETo diária pode ser estimada por diferentes métodos, sendo normalmente fornecida por serviços de meteorologia regionais ligados a institutos de pesquisas ou universidades. Se não houver, contudo, disponibilidade de dados diários pode-se empregar valores médios mensais de ETo. Nas regiões vitícolas tropicais do Brasil, esses valores variam, em geral, entre 3,0 mm/dia e 7,0 mm/dia, conforme o local e a época do ano. Períodos ou locais com temperatura do ar mais alta, umidade relativa do ar mais baixa e com maior ocorrência de ventos apresentam valores de ETo mais elevados.
    Determina-se a ETc multiplicando-se a ETo pelo coeficiente da cultura (Kc). O valor de Kc é função da variedade, do local, das condições de manejo e do estádio de desenvolvimento da planta, sendo determinado por meio de pesquisas na região desejada. De uma forma geral o Kc da videira varia entre 0,50 e 1,00, conforme o seu estádio de desenvolvimento, assumindo um valor médio de 0,75. Para uma ETo, por exemplo, igual a 6,0 mm/dia e um Kc igual a 0,75 a ETc será igual a 4,5 mm/dia (6,0 mm/dia x 0,75), que representa 45.000 L/ha por dia (1mm = 10.000 L/ha). Para uma área, por exemplo, com 2.000 plantas/ha, o consumo de cada planta, nessas condições, será igual a 22,5 L/dia (45.000 / 2.000).

Manejo da Irrigação

A freqüência de irrigação dependerá do tipo de solo e do sistema de irrigação utilizado. Nos sistemas de gotejamento a freqüência é normalmente alta (às vezes até diariamente), devido ao menor volume de solo molhado, o que representa uma menor reserva hídrica para a cultura. Para os sistemas de aspersão e microaspersão o turno de rega não deve ser muito pequeno (de um ou dois dias) devido às perdas maiores por evaporação do solo e ao menor umedecimento do seu perfil, o que fará com que as raízes permaneçam muito superficiais. Nesses sistemas, a irrigação pode ser aplicada sempre que a ETc acumulada ficar entre 10 mm e 30 mm, conforme o solo apresentar menor ou maior capacidade de retenção de água, respectivamente (os valores da precipitação pluvial ocorrida no período entre irrigações devem ser descontados da soma de ETc).
    Para se calcular a lâmina a ser aplicada na irrigação (LAI), deve-se acrescentar de 10% a 20% ao valor acumulado de ETc no período, compensando a possível desuniformidade de aplicação do sistema. Se a ETc acumulada for igual a 20 mm, por exemplo, o valor da LAI ficará entre 22 mm (20 mm + 10%) e 24 mm (20 mm + 20%), o que equivale a 220.000 L/ha e 240.000 L/ha, respectivamente. Para se determinar o tempo de irrigação (TI) basta-se dividir a LAI pela vazão aplicada pelo sistema. Se em um hectare, por exemplo, estiverem instalados 500 microaspersores de 70 L/h, a vazão do sistema será de 35.000 L/h (500 x 70 L/h) por hectare. Uma LAI igual a 24 mm equivale a 240.000 L/ha, que dividida pela vazão do sistema (35.000 L/h por hectare) significará um tempo de irrigação aproximado de 7,0 horas (240.000 / 35.000).
    Para avaliar se os critérios adotados no manejo estão adequados (Kc, turno de rega), deve-se monitorar a umidade no perfil do solo empregando-se equipamentos como tensiômetros, por exemplo. Em um hectare pode-se instalar tensiômetros a 25 cm e 50 cm de profundidade em três plantas representativas da área. Os tensiômetros devem ser instalados na linha da cultura a cerca de ¼ da distância entre plantas. Se essa distância for, por exemplo, de 2,0 m, os tensiômetros devem ser instalados a cerca de 50 cm das plantas. A tensão da água no solo a 25 cm de profundidade deve ficar entre 6,0 kPa e 20,0 kPa (0,06 atm e 0,20 atm), enquanto que a 50 cm ela deve ser maior que 15,0 kPa, para evitar perdas por drenagem profunda (quanto maior a tensão menor a umidade do solo). Muitos produtores costumam avaliar a umidade do solo apenas na sua superfície, o que é um erro, uma vez que a maior parte das raízes da videira está até uma profundidade de, aproximadamente, 50 cm. Por isso, mesmo que não se disponha de tensiômetros, deve-se avaliar a umidade do solo a uma maior profundidade, utilizando-se trado ou enxadão, por exemplo.

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