Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 9
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uvas Rústicas para Processamento em Regiões Tropicais do Brasil
Jair Costa Nachtigal
João Dimas Garcia Maia
Obtenção e preparo de mudas

A propagação de videiras destinadas ao cultivo para processamento em regiões tropicais, de modo geral, pode ser feita da mesma forma como é para a produção de uvas de mesa nestas regiões. A enxertia por garfagem simples, aérea, diretamente no campo, ainda é o método mais usado, embora outros possam ser utilizados com sucesso. A seguir serão apresentadas as principais informações sobre a propagação da videira para auxiliar o produtor na obtenção de mudas com qualidade para implantação de pomares uniformes e produtivos.

Propagação de porta-enxerto

Independentemente do método de propagação a ser utilizado, para obtenção de material propagativo de boa qualidade, as plantas fornecedoras de estacas ou bacelos devem ser mantidas em áreas conduzidas especificamente para este fim, denominadas matrizeiro ou campo de matrizes devidamente registrado pelos órgãos de defesa fitossanitárias.
    A obtenção de porta-enxerto pode ser feita de diversas formas, porém, devido à praticidade e ao baixo custo de produção, a maioria dos porta-enxertos são propagados utilizando-se a estaquia lenhosa. Para a produção das estacas, os ramos devem ser coletados durante a fase de repouso da planta quando estão lignificados, o que corresponde à idade de dez a doze meses após a poda. Durante a coleta dos ramos deve-se eliminar as folhas, gavinhas, netos e as partes com diâmetro menor do que 6 mm ou maior do que 12 mm, quando são cortados em comprimento de 1,1 a 1,2 m. No viveiro ou galpão os ramos são cortados em seguimentos de 40 cm, com 4 a 5 gemas, realizando-se o corte basal reto logo abaixo do nó (cerca de 1,5 cm) e o corte superior em bisel na região do entrenó (cerca de 5 cm após o nó). Após o corte dos ramos assim como das estacas não se deve deixar tomar sol ou manter em lugares quentes para evitar desidratação o que prejudica a qualidade do material.
    Após o preparo, pode-se colocar as estacas imediatamente nas embalagens, normalmente saquinhos pretos perfurados de 15 X 25 cm, com o substrato para enraizamento (Fig. 1) ou deixá-las na sombra, com cerca de 1/3 do seu comprimento enterrada em areia grossa, para formação de calo (Fig. 2), o que ocorrerá em cerca de 21 dias (Fig 3). Durante esse período, a areia deve ser mantida úmida, por meio de irrigações diárias e, após, as estacas com calos bem formados devem ser colocadas para o enraizamento em saquinhos com substrato previamente molhado. Se o material cortado não for usado de imediato, deve ser armazenado em câmaras frias para conservação.
    No caso de haver necessidade de transportar as estacas para lugares distantes, recomenda-se embalar os feixes somente em plástico resistente e com boa vedação, sem a presença de jornais, serragem ou outro material umedecido, pois favorecem o ataque de fungos. Após o corte das estacas, os feixes devem ser colocados para hidratação, submergindo se a base das estacas em água limpa por 12 horas. Após a hidratação, as estacas serão colocadas para enraizamento nos recipientes com substrato., Para melhorar o enraizamento pode se fazer uso de AIB (ácido indolbutírico ), para tanto, recomenda-se imergir a base das estacas, antes da hidratação em solução à 10 ppm por 24 horas, como pode ser observado na Fig 4. Para preparar a solução de Àcido Indol butírico, recomenda se dissolver 1 grama de ingrediente ativo (puro) em 1 litro de álcool (solução estoque de 1000 ppm), depois retirar 10 ml da solução estoque para cada 990 ml de água a ser usada durante a imersão. Os feixes de estacas com suas bases justapostas devem ser colocados para imersão em um recipiente com uma lâmina de entre 6 a 8 cm de altura.
    Após o tratamento, as estacas devem ser colocadas nas embalagens tomando se o cuidado para que a base fique enterrada a uma profundidade máxima de 2/3 da altura do saquinho plástico e nunca com a base da estaca encostada no fundo, uma vez que nesta região pode haver acúmulo de água, o que prejudica a formação de raízes. Para manter o grau de umidade adequado no substrato, é necessário fazer irrigações diárias, de preferência uma pela manhã. Além da irrigação, durante a fase de desenvolvimento dos porta-enxertos no viveiro, as vezes, é necessário o controle fitossanitário, principalmente de antracnose, já que a maioria dos porta-enxertos é sensível a esta doença.
    Além da produção de porta-enxertos enraizados, as estacas podem ser utilizadas para a enxertia de mesa. Nesse caso, é necessário que o diâmetro das estacas seja semelhante ao diâmetro dos ramos da cultivar a ser enxertada. Para melhorar a uniformidade do diâmetro das estacas de porta-enxertos pode ser feito o desponte das brotações e a condução de dois a três netos no matrizeiro. No caso dos porta-enxertos vigorosos, como o IAC 766, o IAC 572 e o IAC 313, essa prática promove aumento no rendimento de estacas , pois permite a obtenção de um maior número de estacas com diâmetro uniforme.

Plantio do porta-enxerto no campo

Aos três meses após a colocação das estacas para o enraizamento, as mudas de porta-enxertos estarão áptas para plantio no campo (Fig. 5). Caso a área destinada à implantação do vinhedo esteja com o sistema de irrigação já instalado, pode-se plantar os porta-enxertos em qualquer época do ano, desde que estejam bem enraizados, o que pode ser notado pela presença de raízes na parte externa dos saquinhos. No caso de áreas que não disponham de irrigação, os porta-enxertos devem ser levados para o campo quando iniciar o período das chuvas, normalmente a partir de meados de novembro em regiões tropicais.
    No momento do transplante, é importante realizar uma poda nas raízes que estão enoveladas, quebradas ou que estão na parte externa da embalagem. Os porta-enxertos devem ser colocados a uma profundidade igual ao comprimento dos saquinhos. A embalagem utilizada para o enraizamento deve ser totalmente eliminada durante o transplante para o campo.
    Após o transplante, recomenda-se fazer uma irrigação para melhorar o contato das raízes com o solo. Esta irrigação somente poderá ser dispensada quando os porta-enxertos forem transplantados em dias chuvosos ou quando o solo apresentar elevado grau de umidade.
    Durante o desenvolvimento dos porta-enxertos no campo, deve-se fazer um eficiente controle fitossanitário, principalmente de formigas cortadeiras que causam sérios danos; irrigações quando necessárias e controle das ervas daninhas. Em alguns casos, é feito o tutoramento das brotações dos porta-enxertos, o que facilita a formação de ramos que darão origem a troncos retos e na posição vertical (Fig.6).
    Os porta-enxertos levados para o campo a partir de julho até dezembro, normalmente, podem ser enxertados na metade do ano seguinte. Porta-enxertos menos vigorosos, tais como: IAC 766 'Campinas', 420 A, Kobber 5BB e similares devem ser plantados assim que termina o período de inverno, caso contrário, o desenvolvimento pode ser insuficiente para a realização de enxertia no período de maio a agosto do ano seguinte. Este problema é agravado quando ocorre deficiências nutricionais ou déficit hídrico.
    O plantio das estacas não enraizadas diretamente no campo não é recomendado em função do grande número de falhas que ocorrem no estabelecimento das plantas devido principalmente falhas no enraizamento.

Enxertia

A enxertia das cultivares destinadas ao processamento pode ser feita diretamente no campo ou em galpões, neste caso chamada de enxertia de mesa. A enxertia no campo pode ser realizada utilizando-se material lenhoso (enxertia lenhosa ou de inverno) ou material herbáceo (enxertia herbácea, verde ou de verão).

Enxertia lenhosa

A enxertia lenhosa é realizada, de preferência, nos meses de maio a agosto, utilizando-se ramos maduros ou lignificados, tanto do porta-enxerto quanto da cultivar produtora (copa). A enxertia no início do período com menor ocorrência de chuvas favorece a formação da copa das plantas, devido à menor incidência de doenças.
    Os sarmentos, ou seja, os ramos da cultivar copa de onde serão retirados os garfos para a enxertia devem apresentar diâmetro e estágio de desenvolvimento semelhantes ao do porta-enxerto para facilitar a realização e o pegamento do enxerto.
    Logo depois de coletados, os ramos não devem ser expostos ao sol ou às altas temperaturas, para evitar a desidratação. Caso haja necessidade de transporte para locais distantes ou armazenamento por alguns dias, recomenda se envolver os ramos em plástico e acondicioná-los em geladeira ou câmara frigorífica. Da mesma forma que para as estacas de porta-enxerto, não é recomendado a colocação de papel, serragem ou outro material umedecido.
    A enxertia é realizada pelo método da garfagem simples (Fig.7), em ramos que apresentem cerca de 8,0 a 10,0mm de diâmetro. Os garfos devem ter cerca de 5 cm de comprimento, sendo 1 cm acima da gema e o restante abaixo da mesma onde é feita uma cunha com 2 cm de comprimento, utilizando se um canivete ou faca bem afiados para obter superfícies lisas visando um bom contato com o porta-enxerto.
    A amarração pode ser feita com fitas plásticas ou outro material que permita a fixação das partes enxertadas e a proteção contra a perda de umidade. A utilização de filmes de PVC dá ótimos resultados e é de baixo custo. Para garantir o pegamento, são realizadas duas enxertias em cada porta-enxerto, cerca de 50 cm acima do solo, deixando-se uma ou mais brotações como dreno para evitar que haja exudação de seiva na região enxertada. As brotações deixadas como drenos devem ser eliminadas 2 ou 3 semanas após a realização da enxertia, quando iniciar a brotação dos enxertos.

Enxertia verde ou herbácea

Esse tipo de enxertia pode ser usada quando constata falhas no pegamento dos enxertos maduros ou quando se deseja fazer a substituição da variedades copa, neste último caso, só é recomendável quando a planta estiver livre de viroses e em bom estado fitossanitário. Para substituir a variedade copa, logo após a colheita, faz-se uma poda drástica abaixo do ponto de enxertia, cerca de 20 a 30 cm acima do solo, para a emissão de brotações no troco do porta-enxerto, as quais devem ser tutoradas (Fig.8). Cerca de 45 a 60 dias após a poda drástica é possível realizar a enxertia verde nas brotações emitidas e formar a nova copa para possibilitar a poda longa de produção já a partir de março do ano seguinte. Este tipo de enxertia também pode ser usada na implantação de novas áreas, quando os ramos de porta-enxertos estão lignificados porém com pouco vigor, espessura inferior 7 mm, neste caso é necessário fazer uma aplicação de esterco de galinhas 15 a 20 t/ha em sulcos ao lado das plantas, momento em que se faz uma poda drástica de todos os ramos à 25 cm do solo, sendo a enxertia realizada 45 a 60 dias após (Fig. 12), lembrando que as brotações do porta-enxerto e o garfo devem apresentar o mesmo diâmetro e estágio de desenvolvimento. As gemas da variedade copa devem ser retiradas de ramos com cerca de 45 a 70 dias após a poda de formação, na porção intermediária, onde as gemas permitem a obtenção de um bom pegamento. Os ramos devem ser limpos, retirando-se as gavinhas e folhas com os pecíolos. Após a limpeza, os feixes de ramos com suas bases voltadas para baixo devem ser parcialmente submersos em água e colocados à sombra. Os garfos verdes devem ser cortados somente na momento da enxertia, evitando-se a desidratação de suas extremidades.
    Para amarração do enxerto, a utilização de filme de PVC transparente não picotado, usado para embalar alimentos, tem proporcionado excelentes resultados, uma vez que, por ser auto-aderente, não é necessário dar nós para arrematar as extremidades. Para facilitar o manuseio durante a amarração o filme de PVC, comercializado em bobinas de 28cm, são cortados em anéis 2 cm de largura. Durante a amarração, deve-se tomar o cuidado de passar duas ou três vezes o plástico na extremidade superior do garfo, uma vez que o material não é lignificado e desidrata com facilidade. Assim como na enxertia lenhosa, na enxertia verde devem ser realizados dois enxertos em cada porta-enxerto, deixando se um ou dois ramos para servir como dreno.
    Cerca de 10 dias após a realização, inicia a brotação do enxerto, período bem inferior ao necessário para o pegamento dos enxertos lignificados (30 a 45 dias), em condições normais. A enxertia verde pode ser realizada praticamente em qualquer época do ano, porém as épocas em que ocorrem temperaturas elevadas e ausência de chuvas intensas são as mais adequadas para o desenvolvimento das brotações e para a formação da nova planta. O período menos adequado é durante o inverno ou próximo dele, quando é difícil formar bem a planta.

Enxertia de mesa

A enxertia de mesa é um processo bastante utilizado em outros países, principalmente para a produção de mudas de videiras para elaboração de vinhos finos. No Brasil esse sistema encontra-se em fase de adaptação e, pelos resultados obtidos, é possível verificar que o sucesso do método depende do porta-enxerto e/ou cultivares copas utilizados, grau de maturação dos ramos, aclimatação das mudas, entre outros, mas é um método que poderá vir a ser utilizado com sucesso, principalmente para implantação de novas áreas em regiões mais distantes.
    A enxertia de mesa pode ser feita manualmente ou com o uso de máquinas de enxertia que realizam o corte do tipo ômega, o que proporciona um rendimento em cerca de 5.000 enxertos/homem/dia. A produção das mudas pode ser feita em viveiros, utilizando-se canteiros ou recipientes (Fig.9) (normalmente sacos plásticos ou tubetes) ou em canteiros diretamente no campo, onde faz-se a proteção do solo com cobertura de plástico preto, e uso de irrigação.
    A comercialização é feita na forma de mudas de raiz nua, com poda da parte aérea (1 ou 2 gemas) e do sistema radicular ( raízes com cerca de 25cm) (Fig. 10) , ou na própria embalagem (sacos plásticos ou tubetes).
    A produção de mudas de cultivares rústicas para processamento por meio da enxertia de mesa está em fase de credenciamento de viveiristas. No momento a disponibilidade de mudas de raiz nua é muito pequena, porém tende a aumentar nos próximos anos. Os resultados preliminares obtidos em plantios com mudas de raiz nua mostraram a necessidade de pesadas adubações química e orgânica para o preparo de covas e de realização do plantio de julho a início de agosto para possibilitar boa formação das plantas e produção em março/abril do ano seguinte.

Fig. 1. Estacas do porta-enxerto colocadas diretamente para enraizamento em saquinhos perfurados.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Fig. 2. Estacas colocadas em areia grossa para formação de calos.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Fig. 3. Estacas 21 dias após colocação na areia grossa, formação de calos.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Fig. 4. Estacas de IAC 572 enraizada após tratamento com AIB (10mg. L-1) por 24 h.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Fig. 5. Mudas de porta-enxerto IAC 572 aptas ao plantio.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Fig. 6. Plantas de IAC 572 aptas a enxertia verde ou herbácea.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Fig. 7. Enxertia lenhosa em videira pelo método de garfagem em fenda cheia.
Foto: J. C. Nachtigal (A) e João Dimas Garcia Maia (B)

Fig. 8. Enxertia verde utilizando-se o método de fenda cheia.
Foto: João Dimas Garcia Maia

Fig. 9. Mudas produzidas por enxertia de mesa e colocadas em saquinhos e canteiros para enraizamento.
Foto: N. P. Feldberg

Fig. 10. Muda de raiz nua.
Foto: N. P. Feldberg

Fig. 10. Muda de raiz nua.
Foto: N. P. Feldberg

Fig. 11. Parte remanescente de garfos de enxertia com filme de PVC.
Foto: J. Dimas G.M.

Fig. 12. Plantas de IAC 752 áptas a enxertia herbácea 60 dias após poda de ramos lenhosos finos.
Foto: J. Dimas G.M.

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