Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 8
ISSN 1678-8761, Versão Eletrônica
Dez.2005
Uvas Sem Sementes
Cultivares BRS Morena, BRS Clara e BRS Linda
Jair Costa Nachtigal
Propagação

Porta-enxertos
Propagação do porta-enxerto
Plantio do porta-enxerto no campo
Enxertia
Enxertia madura ou lenhosa
Enxertia verde ou herbácea
Enxertia de mesa

Porta-enxertos

    A escolha do porta-enxerto depende da região produtora, da preferência do produtor, do espaçamento, entre outras. Nos testes de validação das cultivares, nas diferentes regiões produtoras, foram utilizados os porta-enxertos 'IAC572' (Jales) e o 'IAC766' (Campinas), com um bom comportamento para as três cultivares. Outros porta-enxertos ainda não foram testados, mas acredita-se que não tenham restrições quanto ao uso para essas cultivares.

Propagação do porta-enxerto

    Independentemente do método de propagação a ser utilizado, para obtenção de material propagativo de boa qualidade, as plantas fornecedoras de estacas ou garfos devem ser mantidas em áreas conduzidas especificamente para este fim, denominadas matrizeiros ou campo de matrizes.
    A obtenção dos porta-enxertos pode ser feita de diversas formas, porém, devido à praticidade e ao baixo custo de produção, a maioria dos porta-enxertos são propagados utilizando-se a estaquia lenhosa. Para preparo das estacas, os ramos devem ser coletados durante a fase de repouso da planta ou, no caso daqueles porta-enxertos que não perdem as folhas, quando os ramos encontrarem-se maduros, ou seja, com a coloração marrom característica e com diâmetro de 6 mm a 10 mm. As estacas devem ser preparadas com 3 a 5 gemas, o que corresponde a cerca de 40 cm de comprimento, cortando-se logo abaixo do nó inferior e na região do entrenó, em bisel, na parte superior.
    Após o preparo, pode-se colocar as estacas imediatamente nas embalagens (saquinhos pretos perfurados, balainhos de bambu, etc.) com o substrato para enraizamento (Fig. 1), ou deixá-las na sombra com a base, cerca de 1/3 do comprimento, submersa em areia, devendo-se irrigar uma ou duas vezes por dia para manter a umidade da areia, ou ainda armazená-las em câmaras frias.

Figura 1. Estacas do porta-enxerto IAC 572 colocadas para enraizamento em saquinhos perfurados. (Foto: Jair Costa Nachtigal)

    Quando o armazenamento for feito em areia, assim que iniciar o processo de formação de calo, as estacas deverão ser transplantadas para as embalagens.
    Se for necessário transportar as estacas a longas distâncias, recomenda-se embalar os feixes somente com material plástico (sacos, lonas, etc.), resistente e com boa vedação. Não se deve utilizar jornais, serragem ou outro material umedecido, o que pode favorecer o ataque de fungos.
    Antes de colocá-las nas embalagens para o enraizamento, deve-se fazer uma hidratação das mesmas, que consiste na imersão da parte basal ou de toda a estaca em água durante cerca de 12 horas.
    Durante a colocação das estacas nas embalagens, deve-se tomar o cuidado para que a base fique enterrada a uma profundidade máxima de 2/3 da altura da embalagem e nunca encostada no fundo, uma vez que nessa região existe acúmulo de umidade, o que prejudica a formação das raízes. Para manter o grau de umidade adequado para a formação de raízes, é necessário fazer irrigações diárias, de preferência uma pela manhã e outra no final da tarde. Além da irrigação, durante a fase de desenvolvimento dos porta-enxertos no viveiro, às vezes é necessário o controle fitossanitário, principalmente de antracnose, já que a maioria dos porta-enxertos é sensível a essa doença.
    Além da produção de porta-enxertos enraizados, as estacas podem ser utilizadas para a enxertia de mesa. Nesse caso, é necessário que o diâmetro das estacas seja semelhante ao diâmetro dos ramos da cultivar a ser enxertada.

Plantio do porta-enxerto no campo

    Após 2 a 3 meses da colocação das estacas para o enraizamento, os porta-enxertos estarão prontos para serem levados para o campo. Caso a área destinada à implantação da parreira tenha o sistema de irrigação instalado, pode-se levar os porta-enxertos em qualquer época do ano, desde que estejam bem enraizados, o que pode ser notado pela presença de raízes na parte externa dos saquinhos ou pelo tempo após a colocação das estacas nas embalagens, citado anteriormente. No caso de áreas sem irrigação, os porta-enxertos devem ser levados para o campo quando iniciar o período das chuvas, o que, na maioria das regiões tropicais e subtropicais produtoras de uvas de mesa, ocorre a partir de novembro.
    No momento do transplante, é importante realizar a poda das raízes que estão enoveladas, quebradas ou na parte externa da embalagem. Os porta-enxertos devem ser colocados a uma profundidade que permita a parte de cima do substrato ficar no nível do solo. A embalagem utilizada para o enraizamento deve ser totalmente eliminada durante o transplante para o campo.
    Após o transplante, recomenda-se fazer uma irrigação para melhorar o contato das raízes com o solo. Essa irrigação poderá ser dispensada se os porta-enxertos forem transplantados em dias chuvosos ou se o solo apresentar elevado teor de umidade.
    Durante o desenvolvimento dos porta-enxertos no campo, deve-se fazer um eficiente controle fitossanitário, principalmente de formigas cortadeiras que causam sérios danos, irrigações quando necessárias e controle das ervas daninhas. Em alguns casos, é feito o tutoramento das brotações dos porta-enxertos, o que facilita a formação de troncos retos e na posição vertical.
    Os porta-enxertos levados para o campo até o final do ano, normalmente, podem ser enxertados na metade do ano seguinte. Em alguns casos, principalmente quando se utiliza porta-enxertos pouco vigorosos, como o 'IAC 766' ou similares, deve-se realizar o transplante para o campo o mais cedo possível, de preferência antes do final do mês de novembro, caso contrário não se consegue o desenvolvimento satisfatório das brotações para a enxertia de maio a agosto do ano seguinte, principalmente no caso de ocorrerem deficiências nutricionais e/ou hídricas.

Enxertia

    A enxertia das cultivares sem sementes pode ser feita diretamente no campo, em galpões ou em outros locais, neste caso chamada de enxertia de mesa. A enxertia no campo pode ser realizada utilizando-se material lenhoso (enxertia lenhosa ou de inverno) ou material herbáceo (enxertia herbácea, verde ou de verão).

Enxertia madura ou lenhosa

    A enxertia lenhosa é realizada nos meses de maio a agosto, embora possa ser realizada em outras épocas, utilizando-se ramos maduros ou lignificados, tanto do porta-enxerto quanto da cultivar copa. A enxertia, no início do período da seca, favorece a formação da copa das plantas, devido à menor incidência de doenças.
    A enxertia é feita pelo método da garfagem em fenda cheia (Fig. 2), em ramos que apresentem cerca de 8 mm de diâmetro. Os sarmentos - ramos da cultivar copa dos quais são retiradas as gemas ou borbulhas - devem apresentar diâmetro e estágio de desenvolvimento semelhantes ao porta-enxerto, o que facilita a realização e o pegamento da enxertia.

Figura 2. Enxertia lenhosa em videira pelo método de garfagem em fenda cheia. (Foto: Jair Costa Nachtigal)

    Logo depois de coletados, os ramos não devem ser expostos ao sol ou às altas temperaturas, para evitar a desidratação dos mesmos. Caso haja necessidade de transporte para locais distantes ou armazenamento por alguns dias, é recomendável que os ramos sejam envolvidos por um material plástico e colocados em geladeira ou câmara fria. Da mesma forma que, para as estacas do porta-enxerto, não se recomenda a colocação de papel, serragem ou outro material umedecido.
    A amarração pode ser feita com plástico ou outro material que permita a fixação das partes enxertadas e a proteção contra a perda de umidade.
    A amarração pode ser feita com plástico ou outro material que permita a fixação das partes enxertadas e a proteção contra a perda de umidade.
    Para garantir o pegamento, podem ser feitas duas enxertias em cada porta-enxerto, deixando-se uma ou mais brotações como dreno para evitar que haja exudação de seiva na região enxertada. As brotações deixadas como drenos devem ser eliminadas 2 ou 3 semanas após a realização da enxertia, ou quando iniciar a brotação dos enxertos.

Enxertia verde ou herbácea

    A enxertia herbácea ou enxertia verde é uma prática relativamente recente que tem sido bem aceita pelos viticultores, principalmente devido à facilidade de execução, elevados índices de pegamento e à rapidez com que a nova planta é formada. Em parreiras onde é feita a substituição da cultivar copa, a rapidez na formação da planta é ainda mais pronunciada, visto que o porta-enxerto apresenta o sistema radicular completamente desenvolvido. Nesse caso, é necessário que o porta-enxerto e a cultivar copa a ser substituída sejam livres de vírus e estejam com uma boa sanidade. Para a emissão das brotações do porta-enxerto, a copa da planta é eliminada logo depois da colheita dos frutos, abaixo do ponto da enxertia anterior (ao redor de 20 cm a 30 cm acima do nível do solo). Cerca de 45 dias após, é possível a realização da enxertia verde nas brotações e a obtenção de uma planta formada já para a próxima poda de produção, a ser realizada a partir de março do ano seguinte.
    A enxertia verde também pode ser usada para implantação de novas áreas, porém é necessário que o porta-enxerto tenha um bom desenvolvimento para emissão de brotações vigorosas e para a formação da cultivar copa enxertada.
    Com relação à execução da enxertia, o processo é semelhante ao da enxertia de inverno, sendo normalmente utilizado o método de garfagem em fenda cheia (Fig. 3), lembrando que as brotações do porta-enxerto e o garfo devem apresentar diâmetro e estágio de desenvolvimento correspondentes.

Figura 3. Enxertia verde utilizando-se o método de fenda cheia. (Foto: João Dimas Garcia Maia)

    Para amarração do enxerto, a utilização de filme de PVC transparente, usado para embalar alimentos, tem proporcionado excelentes resultados. Além disso, por ser auto-aderente, não é necessário dar nós para arrematar as extremidades. Esse tipo de material também pode ser utilizado para amarrar enxertos maduros com excelentes resultados.
    Como o filme de PVC é comercializado em bobinas de 28 cm, para facilitar o manuseio durante a amarração, é necessário cortá-los em rolos com 2,0 cm a 2,5 cm de largura, conforme a preferência do enxertador. Durante a amarração, deve-se tomar o cuidado de passar duas ou três vezes o plástico na parte superior do garfo, uma vez que o material não é lignificado e desidrata com facilidade. Durante a amarração, somente a gema enxertada deve ficar descoberta pelo filme de PVC. Na enxertia verde, também devem ser realizados dois enxertos em cada porta-enxerto e deixadas uma ou duas brotações como dreno.
    Cerca de 10 dias após a enxertia, inicia a brotação do enxerto, permitindo observar se houve ou não o seu pegamento. A enxertia verde pode ser realizada praticamente em qualquer época do ano, porém as épocas em que ocorrem temperaturas elevadas e ausência de chuvas intensas são as mais adequadas para o desenvolvimento das brotações e para a formação da nova planta.

Enxertia de mesa

    A enxertia de mesa pode ser feita manualmente, ou com o uso de máquinas de enxertia que realizam o corte tipo ômega, o que aumenta o rendimento da operação para cerca de 5.000 enxertos/homem/dia. O sistema de produção de mudas de raiz nua pela enxertia de mesa para as condições do Brasil encontra-se em fase de adaptação e, pelos resultados obtidos, é possível verificar que o sucesso varia conforme o porta-enxerto e/ou cultivares copas utilizados, grau de maturação dos ramos, aclimatação das mudas, entre outros.
    A produção das mudas pode ser feita em viveiros, utilizando-se canteiros ou recipientes (normalmente sacos plásticos ou tubetes) ou em canteiros no campo, onde faz-se a proteção do solo com cobertura de plástico preto e a irrigação.
    A comercialização é feita na forma de raiz nua, efetuando-se a poda da parte aérea (uma ou duas gemas) e das raízes (25 cm) (Fig. 4), ou na própria embalagem (sacos plásticos ou tubetes).

Figura 4. Muda de raiz nua. (Foto: Nelson Pires Feldberg)

    A produção de mudas das cultivares sem sementes BRS Morena, BRS Clara e BRS Linda, por meio da enxertia de mesa, está em fase de credenciamento dos viveiristas. Desse modo, a disponibilidade de mudas de raiz nua é muito pequena, porém tende a aumentar nos próximos anos.

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