Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 4
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jul./2003

Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado

Alberto Miele
Francisco Mandelli

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências

Expediente
Autores
Sistema de Condução

  A videira, a não ser em casos especiais, não pode ser cultivada satisfatoriamente sem alguma forma de suporte. É uma planta que apresenta uma grande diversidade de arquitetura de seu dossel vegetativo e das partes perenes. A distribuição espacial desse dossel, do tronco e dos braços, juntamente com o sistema de sustentação, constituem o sistema de condução da videira.

Latada
Espaldeira

Escolha do Sistema de Condução

    Há vários fatores que influenciam a tomada de decisão para a escolha de um sistema de condução: a) o objetivo da produção (qualidade x quantidade); b) a variedade, especialmente no que se relaciona ao hábito de frutificação, que pode exigir poda em cordão esporonado ou mista, neste caso deixando varas e esporões; tamanho do cacho; vigor da planta, que pode requerer altura e/ou largura maiores para uma melhor exposição ao sol; c) as condições do solo e do clima; d) a topografia do terreno; e) o método de colheita, manual ou mecânico; f) o custo de instalação e de manutenção dos postes e fios; g) a conjuntura econômica/rentabilidade do viticultor; h) a tradição.
    Há uma diversidade muito grande de sistemas de condução da videira utilizados nas diferentes regiões vitícolas do mundo. Para o Sistema de Produção de Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado, são abordados os sistemas de condução latada e espaldeira.

Latada

    O sistema de condução latada é também chamado de pérgola. É o sistema mais utilizado na Serra Gaúcha, RS e no Vale do Rio do Peixe, SC. Na América do Sul tem alguma expressão na Argentina, Chile e Uruguai. Na Europa, aparece em determinadas regiões vitícolas, especialmente na Itália, com denominações e formas diferenciadas.
    O dossel é horizontal e a poda é mista ou em cordão esporonado, conforme a variedade de videira. As varas são atadas horizontalmente aos fios do sistema de sustentação do vinhedo. As videiras são alinhadas em fileiras distanciadas geralmente de 2,00 a 3,00 m, sendo 2,50 m o mais usual. A distância entre plantas é de 1,50 a 2,00 m, conforme a variedade e o vigor da videira. A zona de produção da uva situa-se a aproximadamente 1,80 m do solo. A carga de gemas também é variável, sendo em geral de 100 mil a 140 mil gemas/ha.

Principais Vantagens

  • Proporciona o desenvolvimento de videiras vigorosas, que podem armazenar boas quantidades de material de reserva, como o amido;
  • Permite uma área do dossel extensa, com grande carga de gemas. Isto proporciona elevado número de cachos e alta produtividade;
  • Em função de sua produtividade, possui uma boa rentabilidade econômica especialmente em pequenas propriedades;
  • É de fácil adaptação à topografia de regiões montanhosas, como a Serra Gaúcha e o Vale do Rio do Peixe;
  • Facilita a locomoção dos viticultores, que pode ser feita em todas as direções.

Principais Desvantagens

  • Os custos de implantação e de manutenção do sistema de sustentação são elevados;
  • A posição do dossel e dos frutos situados horizontalmente acima do trabalhador causa transtornos à execução das práticas culturais;
  • A posição horizontal do dossel e o vigor excessivo das videiras podem causar sombreamento, afetar negativamente o microclima, a fertilidade das gemas e a qualidade da uva e do vinho;
  • O elevado índice de área foliar, se o dossel não for bem manejado, pode proporcionar maior umidade na região dos cachos e das folhas, o que favorece o aparecimento de doenças fúngicas;
  • O sistema de sustentação necessita ser sólido para suportar o peso do dossel e da produção e o impacto do vento;
  • A área máxima recomendada de cada parcela de um vinhedo conduzido em latada é de 4 ha.

Manejo do Dossel Vegetativo

    O manejo do dossel de um vinhedo conduzido em latada pode se tornar relativamente dispendioso se o número de varas e de esporões não for condizente com as características da cultivar, o vigor das plantas e a densidade de plantio. Nesse caso, há necessidade de realizar a poda verde, especialmente a desbrota, a desfolha e a desponta, a fim de que haja uma melhor distribuição espacial das folhas e uma maior captação da radiação solar.

Instalação do Sistema

    O sistema de sustentação deve ser suficientemente resistente, durável e ter custos acessíveis de instalação e de manutenção ao empreendimento. O sistema de sustentação deve suportar o peso da uva, dos braços, dos ramos e folhas. Além disso, deve-se considerar o impacto de acidentes durante as operações no vinhedo e os efeitos de ventos e de chuvas muito intensas. Ele é formado por postes e fios que podem ter especificações variadas.

Postes

    Os postes devem ter algumas características especiais para serem utilizados nos sistemas de sustentação. Eles devem ser a) resistentes, para suportar o peso do dossel vegetativo e da produção de uva; b) duráveis, de preferência durante todo o tempo de vida da planta; e c) enterrados a uma profundidade adequada para que não caiam sob o efeito de chuvas e de ventos intensos.
    Eles podem ser de madeira, metálicos, de pedra ou de concreto. Os de madeira são os mais usados, mas devem ter resistência aos fungos e insetos que atacam a madeira. Em geral utiliza-se o eucalipto, que tem fraca resistência natural mas pode tornar-se excelente quando tratado. Para isso, deve-se a) utilizar postes redondos; b) secá-los de 3 a 6 meses antes do tratamento; c) tirar a casca e fazer uma ponta em uma das extremidades; d) tratá-los com produto recomendado para sua conservação e que substitui a seiva, inicialmente fazendo-se vácuo e após, pressão. Os produtos usados são sais metálicos à base de cobre, de cromo e de arsênio (CCA), o que exige cuidado com seu manuseio. O creosoto é um outro produto que também apresenta uma eficácia muito boa. De qualquer forma, é importante que o viticultor tenha certeza que o tratamento foi bem realizado, a fim de evitar sérios transtornos operacionais e econômicos mais tarde. Isso pode ser feito cortando-se o poste a uns 20 cm da extremidade e verificar se no corte transversal há coloração cinza-esverdeada em toda sua extensão. Atualmente, pode-se adquirir postes tratados de empresas especializadas nesse trabalho, mas elas têm de ser idôneas.
    Os postes de pedra e de concreto são muito resistentes, especialmente os de pedra. Mas são pesados e difíceis de serem manipulados, são quebradiços e apresentam certa dificuldade para a instalação dos fios. Os postes metálicos são muito utilizados nos principais países vitivinícolas. Eles são facilmente colocados nos solos não pedregosos e permitem uma fixação rápida dos fios de sustentação da vegetação. São flexíveis, mas precisam ser firmemente inseridos no solo para evitar que se inclinem com a ação de ventos fortes. Sua longevidade depende do material de que são feitos e do material de revestimento. Em geral são galvanizados, o que aumenta sua longevidade e permite uma boa relação preço/longevidade.
    No sistema de condução latada, há os seguintes tipos de postes: cantoneiras, cabeceiras, laterais, internos e rabichos. As cantoneiras são postes reforçados, colocados nas quatro extremidades do vinhedo. Em geral, devem medir 3,00 m de comprimento e ter um diâmetro de 16 a 18 cm (Figura 1). Além dos postes, há os tutores.

Figura 2
Fig. 1. Sistema de condução da videira em latada, especificando postes e fios. Postes - a) cantoneira; b) lateral; c) interno; d) rabicho; Fios - e) cordão primário de cabeceira; f) cordão primário lateral; g) fio da produção; h) fio da vegetação; i) fio de sustentação da malha; j) fio rabicho. (Ilustração: A. Miele)

    As cabeceiras são postes externos que limitam o início e o fim das fileiras. Os laterais, são igualmente postes externos mas colocados nas laterais do vinhedo. Ambos devem ser reforçados. Em princípio, são feitos com os mesmos materiais das cantoneiras e devem medir cerca de 2,50 m de comprimento e ter de 12 a 14 cm de diâmetro. O espaçamento entre as cabeceiras é determinado pela distância entre as fileiras e o dos laterais deve ser de 5,00 m no máximo. As cantoneiras, as cabeceiras e os laterais podem se colocados verticalmente ou oblíquos para fora do vinhedo, dependendo das condições de solo e do tipo de rabicho a ser utilizado.
    Os postes internos devem medir 2,20 m de comprimento e ter um diâmetro de 7 a 10 cm. Eles são colocados no cruzamento dos fios da produção e os de sustentação da malha. Deve-se fazer uma canaleta na extremidade superior para apoiar o fio de sustentação da malha.
    Os rabichos devem ser colocados oblíquos e externamente a 1,50 m das cantoneiras, das cabeceiras e dos laterais. Medem 1,20 m de comprimento e são feitos de pedra, concreto ou ferro, atados a esses postes com um cordão de três fios, o que permite manter o aramado esticado.
    O material necessário para a formação de um vinhedo na forma de quadrado e conduzido em latada varia conforme as características do desenho idealizado. A seguir, enumeram-se os postes necessários para a formação de um hectare de vinhedo com as seguintes especificações: a) distância entre fileiras - 2,50 m; b) distância entre plantas - 1,50 m; c) distância entre os laterais -5,00 m; d) distância entre os postes internos - 5,00 m; e) um fio da produção e quatro fios da vegetação por fileira (Tabela 1).

Tabela 1. Especificações e número de postes para formar um hectare de vinhedo na forma de quadrado e conduzido em latada.

Tipo de poste Comprimento
(m)
Diâmetro
(cm)
Número de peças
Cantoneira 3,00 16 a 18 4
Cabeceira 2,50 12 a 14 78
Lateral 2,50 12 a 14 38
Interno 2,20 7 a 10 741
Rabicho 1,20 15 124

Fórmula para determinar o número de cabeceiras e de laterais necessários:

[(comprimento da latada ÷ espaçamento dos postes laterais) -1] x 2 +
[(largura da latada ÷ espaçamento dos postes cabeceira) -1] x 2

Fórmula para determinar o número de postes internos:

[(comprimento da latada ÷ espaçamento dos postes laterais) -1] x
[(largura da latada ÷ espaçamento dos postes cabeceira) -1]



Arames

    Os cordões, fios e acessórios utilizados na formação de vinhedos devem ser especiais para a finalidade desejada. São produtos com galvanização pesada, o que implica numa maior vida útil do aramado devido à maior proteção contra a ferrugem e à maior resistência mecânica. Além disso, apresentam menor coeficiente de alongamento, isto é, aumentam pouco seu comprimento quando a temperatura se eleva ou são tracionados pelo peso dos frutos e da vegetação.
    O aramado é formado por cordões de cabeceira e cordões laterais e por fios da produção, da folhagem e dos rabichos (das cantoneiras, das cabeceiras e dos laterais). Os cordões de cabeceira são dois, interligando as cantoneiras de duas extremidades do vinhedo e os postes de cabeceira situados entre eles. Os cordões laterais também são dois, colocados perpendicularmente aos cordões de cabeceira e interligando as cantoneiras de duas cabeceiras do vinhedo e unindo os postes laterais. Ambos geralmente são formados por sete fios enrolados helicoidalmente e revestidos por uma camada de alumínio pesada.
    Os fios de sustentação da malha são colocados perpendicularmente às fileiras das plantas e paralelamente aos cordões de cabeceira. Eles unem os postes laterais de ambos os lados do vinhedo, passando pelos postes internos. São formados por três fios, com um diâmetro total de 4,00 mm.
    Os fios da produção unem os postes das duas cabeceiras do vinhedo e têm a finalidade de sustentar a cabeça da videira, quando ela é podada em poda mista, ou os cordões, quando a poda é em cordão esporonado. Utilizam-se fios ovalados 15 x 17 (2,40 mm x 3,00 mm).
    Os fios da vegetação unem os dois cordões de cabeceira e são paralelos aos fios da produção. Utilizam-se fios de 2,10 mm de diâmetro. Tanto os fios da produção como os fios da vegetação passam por cima dos fios de sustentação. Geralmente colocam-se quatro fios da vegetação para cada fio da produção, dois de cada lado e distanciados cerca de 50 cm um do outro, dependendo da distância entre as fileiras.
    Os postes de cabeceira e laterais são amarrados aos rabichos correspondentes através de fios. Para as cantoneiras, utilizam-se dois cordões com três fios cada e para as cabeceiras e os laterais, um cordão com três fios. O cordão deve ter cerca de 4,00 mm de diâmetro.
    As características dos diferentes tipos de fios que podem ser utilizados no sistema de sustentação de um vinhedo conduzido em latada são descritas na Tabela 2. Além da cordoalha e dos fios, são necessários acessórios para o acabamento do aramado.

Tabela 2. Características do aramado para a formação de um hectare de vinhedo conduzido em latada.

Fio Número de fios Carga mínima de ruptura (kgf) Diâmetro (mm) Quantidade (m)
Cordão de cabeceira 7 2.500 6,4 210
Cordão lateral 7 2.500 6,4 210
Fio de sustentação da malha 3 1.000 4,0 1.920
Fio da produção 1 800 2,40 x 3,00
(15 x 17)
4.000
Fio da vegetação 1 500 2,10 16.000
Fio do rabicho 3 1.000 4,0 350

Etapas para Formação do Vinhedo

    O formato da latada deve ser, de preferência, quadrado ou retangular. Entretanto, pode ter outra forma, como a de um trapézio.

Marcação do Terreno e Colocação dos Postes

    A formação do vinhedo inicia com a marcação das covas, que pode ser feita com um teodolito ou através do esquadrejamento. Estica-se uma linha de pedreiro ou um fio onde deve se localizar uma das cabeceiras ou das laterais. Na extremidade dessa linha, instala-se uma estaca onde deverá se situar uma das cantoneiras e, a partir dela, fazer um outro alinhamento de 20 m. Uma segunda estaca deve ser colocada a 15 m da estaca da cantoneira e no mesmo alinhamento do fio. A partir dela, estica-se uma linha ou fio de 25 m de comprimento, de modo que a extremidade do alinhamento de 20 m coincida com o alinhamento de 25 m. Coloca-se, então, uma baliza sobre esta estaca e a estaca correspondente à cantoneira. Após, com uma terceira estaca faz-se o alinhamento desta com a cabeceira ou a lateral do vinhedo até completar o seu comprimento. Esse procedimento deve ser repetido na outra extremidade do alinhamento inicial. Ligam-se, então, as extremidades dos alinhamentos das cabeceiras ou dos laterais. No contorno, colocam-se estacas conforme os espaçamentos pré-deteminados para o vinhedo. A seguir, unem-se as estacas correspondentes da cabeceira e da lateral com um fio. A interseção desses alinhamentos corresponde à marcação dos postes internos.
    A escavação pode ser feita com trator munido de broca e seu diâmetro deve ser de pelo menos 2,5 vezes o dos postes. Essas escavações são verticais para os postes das cabeceiras, dos laterais e dos internos e inclinadas de 60º para os rabichos.
    O preparo dos postes, como os entalhes, pode ser feito anteriormente à instalação da latada. Emprega-se, em geral, um molde para fazer a marcação dos entalhes dos postes e dos rabichos. Os entalhes dos postes de cabeceira devem ser feitos de preferência após sua instalação: deve-se fazer dois anelamentos rasos semicirculares a 50 cm da parte de cima do poste, um para cada rabicho, com uma distância de 5 cm um do outro.
    Recomenda-se começar a instalação do vinhedo por um poste de cabeceira ou por um poste lateral vizinho ao cabeceira. Inicialmente, faz-se uma marca que identifica o comprimento do poste que ficará acima e abaixo do solo. Coloca-se o poste no buraco e alinha-se esta marcação rente à superfície do solo. Após, mede-se o comprimento vertical da parte superior do poste até a superfície do solo. Se a latada estiver em área plana, esticam-se duas linhas, uma na parte superior e a outra na metade do comprimento exposto, ligando os dois postes vizinhos às cantoneiras de cada cabeceira e de cada lateral. A instalação dos demais postes externos terá a inclinação e a altura dos postes onde essas linhas foram amarradas. Mas, se a latada for instalada em solo irregular, o que é o mais freqüente, a instalação dos postes externos deverá ser feita individualmente. Neste caso, usa-se molde de madeira ou de metal com as dimensões de comprimento do poste e altura vertical. Para evitar que a terra do fundo do buraco ceda e o poste afunde, coloca-se pedra ou terra batida. Colocado o poste, deve-se encher esse buraco com terra e compactá-la completamente.
    Colocados todos os postes de cabeceira e os laterais, procede-se à instalação das cantoneiras. Faz-se um alinhamento da base da cantoneira com a base dos postes laterais e de cabeceira, cuja parte superior deve estar alinhada com a parte superior desses postes. Feito isso, compacta-se a terra.
    A colocação dos postes internos pode ser feita antes ou depois da colocação do aramado. Se após, tem-se a vantagem de conhecer o ponto de apoio e de fixação de um poste interno através da interseção do fio da produção com o fio de sustentação da malha. Esse procedimento conduz a um alinhamento perfeito. Além disso, em solos irregulares a instalação do aramado antes da dos postes internos pode fazer com que o vinhedo não tenha sempre a mesma distância da malha até o solo.
    Os rabichos são instalados após os demais postes: para cada poste de cabeceira ou lateral há um rabicho; mas para as cantoneiras há dois, um para o cordão de cabeceira e, outro, para o cordão lateral.

Instalação do Aramado

    Ao adquirir os fios, eles não devem ser armazenados próximos de adubos ou em locais excessivamente úmidos, pois isso pode comprometer sua qualidade. Para desenrolar os fios, deve-se usar um desenrolador de arame ou, na ausência deste, colocar três estacas inclinadas no interior do rolo.
    Inicia-se a instalação do aramado pelos cordões de cabeceira ou laterais. A seguir, colocam-se sucessivamente o fio de sustentação da malha, o fio da produção e, finalmente, o fio da folhagem. Este fio é desenrolado numa cabeceira e finalizado na outra, tomando-se o cuidado de passá-lo sobre o fio de sustentação da malha. A seguir, ele é cortado e emendado. Faz-se um novo arremate com o fio da folhagem na outra cabeceira, tensionando-o com um alicate. Recomenda-se iniciar o tensionamento da malha pelo vão situado no meio da cabeceira e, a partir daí, proceder dessa forma alternadamente com o vizinho da esquerda e da direita.

Topo

Espaldeira

    O sistema de condução espaldeira é um dos mais utilizados pelos viticultores nos principais países vitivinícolas. No Rio Grande do Sul, é adotado especialmente na Campanha e na Serra do Sudeste e por algumas vinícolas da Serra Gaúcha.
    As videiras conduzidas em espaldeira tem dossel vertical e a poda é mista ou em cordão esporonado. As varas são atadas horizontalmente aos fios da produção do sistema de sustentação do vinhedo. Se necessário, os ramos são despontados. Normalmente, deixam-se duas varas/planta quando a poda é mista; em cordão esporonado, há dois cordões/planta. A distância entre as fileiras varia de 2,00 a 2,50 m, mas se a altura do dossel vegetativo for de 1,00 m a captação da radiação solar é maximizada com fileiras distanciadas de 1,00 m. A distância entre plantas é de 1,20 a 2,00 m, conforme a variedade e a fertilidade do solo. A zona de produção geralmente situa-se entre 1,00 e 1,20 m do solo. Deixam-se de 65 mil a 80 mil gemas/ha, dependendo principalmente da variedade. A altura do sistema de sustentação do solo até a parte superior é de 2,00 a 2,20 m (Figura 2).

Principais Vantagens

  • Adapta-se bem ao hábito vegetativo da maior parte das viníferas;
  • Os frutos situam-se numa área do dossel vegetativo e as extremidades dos ramos em outra: isso facilita as operações mecanizadas, como remoção de folhas, pulverizações dos cachos e desponta;
  • Apresenta boa aeração;
  • Pode ser ampliado paulatinamente, pois a estrutura de cada fileira é independente;
  • O custo de implantação é menor que o do latada;
  • É atrativo aos olhos, especialmente quando se faz a desponta.

Principais Desvantagens

  • Apresenta tendência ao sombreamento, portanto não é indicado para cultivares muito vigorosas ou para solos muito férteis;
  • A densidade de ramos geralmente é muito elevada;
  • Se a distância das fileiras for maior que 3,00 m, a área de superfície do dossel vegetativo será pequena;
  • Como conseqüência do exposto no item c, é necessário compensar a perda exagerada da produtividade com elevada carga de gemas o que aumenta o sombreamento e diminui a qualidade da uva e do vinho.

Manejo do Dossel Vegetativo

    Geralmente, são necessários de dois a três repasses durante o ciclo vegetativo para posicionar os ramos. Essa prática pode ser realizada colocando os ramos entre os fios e amarrando-os quando necessário. Mas, é bem mais rápido quando o sistema de sustentação possui fios móveis para o posicionamento dos ramos. Esses fios devem ser colocados paralelos ao 2º fio e são movimentados em direção aos ramos, apanhando-os e posicionando-os para cima. Portanto, não necessitam ser atados. O primeiro posicionamento dos ramos deve ser feito próximo à floração e o último, antes da mudança de cor da uva. A desponta deve ser feita deixando-se ramos com cerca de 1,30 m de comprimento, os últimos 30 cm dos ramos estendendo-se além do 4º fio.

Instalação do Sistema

    As considerações gerais feitas sobre o material utilizado para a formação de um vinhedo conduzido em latada servem, também, para um conduzido em espaldeira. Portanto, descrevem-se, a seguir, somente as especificações do material e os passos para a instalação do vinhedo.

Postes

    A estrutura do sistema de sustentação da espaldeira é formada de postes de cabeceira e internos, rabichos, tutores e fios. Os postes de cabeceira devem ter 2,50 m de comprimento e de 12 a 14 cm de diâmetro e são colocados nas extremidades das fileiras; os postes internos, 2,20 m de comprimento e de 7 a 10 cm de diâmetro, colocados a uma distância máxima de 5,00 m um do outro.
    Os rabichos medem 1,20 m de comprimento e são colocados em cada extremidade das fileiras da mesma forma que o foram para o sistema latada. Sua colocação pode ser externa ao sistema de sustentação, em posição oblíqua e afastando-se da cabeceira; ou internos, oblíquos e escorando as cabeceiras das fileiras.
    O aramado é formado por três ou quatro fios. Neste caso, o 1° fio situa-se de 1,00 a 1,20 m do solo; o 2°, a 30 cm do primeiro; o 3°, a 35 cm do segundo; e o 4°, a 35 cm do terceiro. Para manter o dossel numa posição vertical pode-se usar um fio suplementar, móvel, paralelo ao 2° fio.
    Similarmente ao sistema de condução latada, o material necessário para a formação de um vinhedo conduzido em espaldeira é variável conforme as características do desenho idealizado. A seguir, descrevem-se os postes necessários para a formação de um hectare de vinhedo no formato de quadrado possuindo as seguintes especificações: a) distância entre fileiras - 2,00 m; b) distância entre plantas - 1,50 m; c) distância entre os postes internos - 5,00 m; d) há um fio da produção, três fios fixos da vegetação e um fio móvel de posicionamento do dossel (Tabela 3).

Tabela 3. Especificações e número de postes para formar um hectare de vinhedo conduzido em espaldeira.

Tipo de poste Comprimento (m) Diâmetro (cm) Número de peças
Cabeceira 2,50 12 a 14 98
Interno 2,20 7 a 10 931
Rabicho 1,20 15 98

Fórmula para determinar o número de cabeceiras necessários:

Número de fileiras x 2.

Fórmula para determinar o número de postes internos:

[(comprimento de cada fileira ÷ espaçamento dos postes internos) -1] x Número de fileiras



Arames

    O aramado do sistema de condução espaldeira é bem mais simples que o do latada, pois consta de fios da produção, da vegetação e rabichos. Os fios da produção sustentam as cabeças das videiras, quando conduzidas em poda mista, ou os cordões, quando conduzidas em cordão esporonado. Os fios da vegetação são geralmente quatro, sendo três fixos e um móvel, este paralelo ao 2º fio. Tanto os fios da produção como os da vegetação, partem de um poste cabeceira, passam pelos postes internos e terminam no poste cabeceira da outra extremidade da fileira. Os fios rabichos sustentam as cabeceiras.
    As características dos diferentes tipos de fios que podem ser utilizados no sistema de sustentação de um vinhedo conduzido em latada são descritas na Tabela 4.

Tabela 4. Características do aramado para a formação de um hectare de vinhedo conduzido em espaldeira.

Fio Número de fios Carga mínima de ruptura (kgf) Diâmetro (mm) Quantidade (m)
Fio da produção 1 800 2,40 x 3,00
(15 x 17)
5.150
Fio da vegetação 1 500 2,10 20.600
Fio rabicho 3 1.000 4,00 120

Etapas para Formação do Vinhedo

    A instalação de um vinhedo conduzido em espaldeira é mais simples, e mais barata, que a da latada. É conveniente que as fileiras não excedam 100 m de comprimento e que o espaçamento entre os postes internos seja, no máximo, de 5 m.
    A colocação das estacas em áreas planas deve ser feita da mesma forma que a instalação de uma latada. Em área com declives, recomenda-se colocar as fileiras em curvas de nível. A escavação dos pontos demarcados pelas estacas pode ser feito com broca de trator.
    Os entalhes das cabeceiras são feitos de acordo com o número de fios a serem utilizados. Recomenda-se furar os postes internos para a passagem dos fios, o que assegura maior sustentação vertical e horizontal ao aramado. Os furos devem ter ½ polegada no mínimo, a fim de evitar acúmulo de umidade e corrosão dos fios. Os entalhes e as furações devem ser feitas de preferência antes da instalação dos postes.
    A instalação das cabeceiras e dos rabichos é feita da mesma forma que a colocação das cabeceiras e dos laterais da latada.
    Após a colocação dos postes, deve-se compactar a terra para evitar que caiam com as intempéries e o peso da vegetação e da produção. As espaldeiras construídas em curva de nível devem ter um comprimento menor que as de terreno plano. Além disso, os postes internos devem ser um pouco maiores para que a parte que fica em baixo da terra seja maior.

Figura 2
Fig. 2. Sistema de condução da videira em espaldeira e com poda mista: a) poste de cabeceira; b) poste interno; c) fio da produção; d) fios fixos da vegetação; e) fio móvel da vegetação. (Ilustração: A. Miele)

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