Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 4
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jul./2003

Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado

Lucas da Ressurreição Garrido
Olavo Roberto Sônego

Início

Clima
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Pragas e medidas de controle
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Maturação e colheita
Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
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Expediente
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Doenças Fúngicas e Medidas de Controle

    A videira (Vitis spp.) quando cultivada em condições climáticas favoráveis (elevada umidade e temperaturas amenas) ao desenvolvimento de fungos, está sujeita a uma série de doenças, as quais poderão acarretar graves prejuízos se não forem devidamente controladas. As principais doenças fúngicas que podem causar prejuízos para as videiras européias são descritas a seguir:

Míldio - Plasmopara viticola
Oídio - Uncinula necator
Antracnose - Elsinoe ampelina
Escoriose - Phomopsis viticola
Podridão cinzenta da uva - Botryotinia fuckeliana (Botrytis cinerea)
Podridão da uva madura - Glomerella cingulata
Podridão Amarga - Melanconium fuligineum = Greeneria uvicola
Doenças da madeira ou podridão descendente
Fusariose - Fusarium oxysporum f.sp. herbemontis

Míldio - Plasmopara viticola

    É a principal doença fúngica da videira, podendo infectar todas as partes verdes da planta, causando maiores danos quando afeta as flores e os frutos.

Sintomatologia - Nas folhas, na parte superior aparecem manchas amarelas, translúcidas contra a luz do sol com aspecto encharcado, denominadas de "mancha de óleo"(Figura 1). Em umidade relativa alta (acima de 95%), surge a esporulação branca do fungo na parte inferior da mancha (Figura 2), a seguir a área afetada fica necrosada, podendo causar a queda da folha. Nas inflorescências infectadas ocorre o escurecimento da ráquis, podendo ainda haver esporulação do fungo (Figura 3), seguido pelo secamento e queda dos botões florais. Quando o fungo ataca as bagas mais desenvolvidas, estas são infectadas pelos pedicelos e o fungo se desenvolve no interior da baga, tornando-as escuras, duras, com superfícies deprimidas, provocando a queda das mesmas (Figura 4). Este sintoma nesta fase de desenvolvimento é denominado de "míldio larvado" ou "grão preto".

Figura 1
Fig. 1. Mancha de "óleo" de míldio (Foto: O.R.Sônego)

Figura 2
Fig. 2. Frutificação de Plasmopara viticola na parte inferior da folha (Foto: O.R.Sônego)

Figura 3
Fig. 3. Frutificação do fungo causador do míldio (Foto: O.R.Sônego)

Figura 4
Fig. 4. Sintomas de míldio no cacho (Foto: E. Hickel)

Condições predisponentes - A temperatura ideal para o desenvolvimento do míldio fica entre 18 °C e 25 °C. O fungo necessita de água livre nos tecidos por um período mínimo de 2 horas para haver infecção. A presença de água livre, seja proveniente de chuva, de orvalho, ou de gutação, é indispensável para haver a infecção, sendo a umidade relativa do ar acima de 98% necessária para haver a esporulação. A infecção do fungo nas folhas se dá pelos estômatos presentes na face inferior, estômatos e pedicelos durante a floração e inicio da frutificação e pedicelos quando a uva já está mais desenvolvida.

Medidas de controle - O controle preventivo deve começar adotando-se medidas que melhorem a aeração e insolação da copa, objetivando diminuir o tempo de molhamento foliar. Estas medidas incluem: espaçamento adequado; evitar áreas de baixada ou voltados para o sul quando for escolher o local do vinhedo; boa disposição espacial dos ramos sobre o aramado; adubação equilibrada; poda verde (desbrota, desnetamento, desfolha, desponte, etc.).

  • O controle químico deve ser realizado com os fungicidas registrados para a cultura. Estes podem ter ação de contato (superfície), de profundidade e ação sistêmica.

  • Os produtos de contato só protegem a superfície coberta pela aplicação, e não tem ação sobre o fungo no interior dos tecidos, por isso uma boa e uniforme cobertura durante a pulverização é necessária para a eficácia destes produtos. Estes tem pouca persistência na planta, são facilmente destruídos pelas altas temperaturas, radiação solar e lavados pela chuva.

  • Os fungicidas com ação de profundidade (translaminar) podem atuar sobre o fungo no interior das folhas até dois dias após a infecção, porém não circulam na planta e também só protegem as partes pulverizadas. Podem ser usados quando se constata os sintomas iniciais do míldio, porém são mais eficazes quando aplicados preventivamente.

  • Os produtos sistêmicos circulam pela seiva da planta, podendo matar o fungo até três dias após a infecção. Devido a sua ação sistêmica, podem proteger as partes não pulverizadas da planta. Embora mais eficazes, não se recomenda mais de duas ou três aplicações por safra, pois há riscos do aparecimento de raças resistentes do fungo a estes fungicidas. Recomenda-se que estes produtos sejam aplicados nos estádios de maior sensibilidade da cultura, que são a floração até o início da maturação. Para evitar o aparecimento de resistência, recomenda-se também um programa de tratamentos com alternância de produtos.

    Os fungicidas cúpricos quando usados durante o florescimento e logo após o pegamento dos frutos podem causar fitotoxicidade. Um maior cuidado no controle do míldio deve ser dispensado durante a floração até o inicio da maturação, pois é nestes estádios que ocorre a infecção no cacho, causando o "míldio larvado ou grão preto". Os tratamentos devem ser preventivos, pois após o aparecimento do "grão preto" os danos e os prejuízos já foram produzidos. Na tabela 1, estão contidas informações sobre a eficácia dos principais princípios ativos registrados até 1998 para o controle do míldio. Algumas recomendações para evitar o surgimento de resistência de fungicidas ao fungo Plasmopara estão contidas na tabela 2. Os fungicidas registrados para o controle do míldio constam da tabela 3.

Tabela 1.Eficácia média de fungicidas recomendados para o controle do míldio baseado em resultados de três anos de avaliação. Bento Gonçalves, 1998.

Princípio ativo Concentração
g i.a. (%)
Dose
g i.a./hl
Ação do produto Eficácia
(%)
Classe toxicológica
Folpet 50 90 Contato 70 a 90 IV
Oxicloreto de cobre 50 137,5 Contato < 70 IV
Oxicloreto de cobre + Mancozeb 20 + 20 60 + 60 Contato 70 a 90 III
Sulfato de cobre 25 240 Contato 70 a 90 IV
Mancozeb 80 240 Contato 70 a 90 III
Ditianon 75 93.75 Contato > 90 II
Cymoxanil + Mancozeb 8 + 64 20 + 160 Penetrante + Contato > 90 III
Metalaxil + Mancozeb 8 + 64 24 + 192 Sistêmico + Contato > 90 II

i.a.= ingrediente ativo.
Pouca eficácia (< 70% de controle); Média eficácia (70 a 90% de controle); Alta eficácia (> 90% de controle

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Tabela 2. Modo de ação de fungicidas contra o míldio e recomendações para evitar o surgimento de resistência do patógeno.

Modo de Ação Ingrediente ativo Recomendação para evitar resistência
Multisítios mancozeb, folpet, dithianon, captan, cúpricos, etc. Sem limite de aplicações, deve ser reaplicado após chuva de 20-25 mm.
Unisítios - inibidores mitocondriais azoxystrobin, famoxadone Máximo três aplicações/safra, não mais que duas seguidas.
Metabolismo do ácido nucléico e aminoácidos cymoxanil Associar a produto de contato e limitar as aplicações.
Biossíntese da parede celular dimethomorfo Máximo de duas a três aplicações/safra
Inibidores da biossíntese do RNA metalaxil e benalaxil Associar a produto de contato e no máximo três aplicações/safra
Ação direta ou indireta (estimulando defesas naturais da planta) fosetyl Sem restrição
Ação sobre a parede celular iprovalicarb Associar a produto de contato, sem restrição.

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Oídio - Uncinula necator

    As cultivares européias (Vitis vinifera) são em geral suscetíveis ao oídio, mas nas condições climáticas do sul do Brasil onde normalmente a pluviosidade é alta durante todo o ciclo da cultura, este fungo não tem causado grandes perdas, com exceção de alguns anos em que ocorrem períodos de seca.

Sintomatologia - Todos os tecidos tenros da videira são suscetíveis à infecção e mostram sintomas característicos. Nas folhas as frutificações podem ser encontradas em ambos os lados e se apresentam como uma massa acinzentada (Figura 5). A face superior pode exibir manchas cloróticas difusas, lembrando a "mancha de óleo" do míldio (Figura 6). Em ataques severos as folhas não se desenvolvem e, às vezes, enrolam-se para cima. As bagas infectadas apresentam cicatrizes que posteriormente podem rachar, expondo as sementes, e permitindo a entrada de organismos que causam podridões. Sobre a superfície infectada ocorre a formação de uma massa branca acinzentada, constituída de micélio e estruturas reprodutivas do fungo. Nos ramos em desenvolvimento, formam-se manchas irregulares de cor marrom.

Figura 5
Fig. 5. Frutificação do fungo causador do oídio nas folhas (Foto: O.R.Sônego)

Figura 6
Fig. 6. Sintoma tipo mancha de "óleo" de oídio (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - A doença ocorre desde a primavera até o outono, sendo que a taxa de infecção está em função da temperatura ambiental e umidade (água livre). O oídio é uma doença de clima fresco e seco, sendo a temperatura ótima 25 °C; embora os esporos germinem na superfície da folha a temperaturas entre 6 °C e 33 °C. A rápida germinação e crescimento micelial ocorre entre 21 °C e 30 °C. Em temperaturas ótimas, o tempo de geração, que é o tempo entre a germinação e produção de novos esporos é de cinco dias. A temperatura desempenha um papel maior no desenvolvimento da doença do que a umidade. A fonte inicial de inóculo mais provável é o micélio, que sobrevive durante o inverno nas gemas.
    A suscetibilidade dos órgãos da planta à infecção muda com o período de crescimento. O fruto é suscetível à infecção desde o início do desenvolvimento até o teor de açúcar atingir cerca de 8%. Estabelecida a infecção a produção de esporos continua até as bagas atingirem 12% a 15% de açúcar. As bagas tornam-se imunes quando o teor de açúcar ultrapassar 15%. O fungo se desenvolve melhor sobre os tecidos jovens e geralmente não infecta folhas com mais de dois meses de idade.

Medidas de controle - A observação dos sintomas nos ramos maduros é fundamental para prever a intensidade da doença no próximo ciclo vegetativo e para articular as medidas de controle a serem adotadas. O melhor controle do oídio é a prevenção. Aplicação de fungicidas a base de enxofre é um eficiente e econômico meio de controle. Estes fungicidas devem ser aplicados antes do aparecimento do fungo. O controle químico com produtos sistêmicos (Tabela 3) poderá ser utilizado em situações onde o uso do enxofre não é aconselhável.
    Deve-se ter o cuidado de não aplicar enxofre trinta dias antes da colheita, pois poderá transmitir cheiro sulfídrico ao vinho. Também não se deve aplicar enxofre nas horas mais quentes do dia, pois pode causar queimaduras na folhagem, flores e bagas.

Antracnose - Elsinoe ampelina

Sintomatologia - A doença ataca todos órgãos verdes da planta (folhas, gavinhas, ramos, inflorescência, e frutos). Nos ramos, a doença causa o aparecimento de cancros com formatos irregulares de coloração cinzenta no centro e bordas pretas (Figura 7). Com a evolução da doença nas folhas, as manchas ficam perfuradas no centro (Figura 8) . Nas bagas também aparecem manchas circulares de cor cinza no centro e preta nas bordas, comumente chamada de "olho-de-passarinho" (Figura 9).

Figura 7
Fig. 7. Sintoma de antracnose no ramo.
(Foto: O.R.Sônego)

Figura 8
Fig. 8. Sintoma de antracnose na folha.
(Foto: O.R.Sônego)

Figura 9
Fig. 9. Sintoma de antracnose nas bagas.
(Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - O desenvolvimento do fungo é favorecido por alta umidade provocada pela precipitação, nevoeiro e orvalho. O fungo pode causar infecção em temperaturas de 2 °C a 32 °C, porém as temperaturas ótimas para o desenvolvimento do fungo estão entre 24 °C a 26 °C.

Medidas de controle - Algumas medidas preventivas devem ser tomadas por ocasião da implantação do vinhedo: evitar o plantio em baixadas úmidas e terrenos expostos aos ventos frios do sul, construir quebra-vento quando a área for exposta aos ventos frios; utilizar material sadio. Estas medidas normalmente não são suficientes para um controle eficiente da doença, portanto quando se observar incidência de antracnose em anos anteriores, o controle deve ser iniciado no período de repouso da videira, pela poda e queima de ramos doentes, e/ou tratamento químico de inverno com calda sulfocálcica, visando eliminar ou reduzir o inoculo inicial. No início da brotação, a alta umidade e os tecidos tenros favorecem a infecção das plantas pelo patógeno. As pulverizações devem ser iniciadas nesta fase. As demais aplicações dependerão das condições climáticas e da persistência do produto, até o estádio de meia baga, após esta fase as bagas tornam-se resistentes. Os produtos e doses recomendados para o controle da doença constam da tabela 3.

Escoriose - Phomopsis viticola

    Pode ser facilmente confundida com a antracnose, pois em determinada fase, os sintomas são muito semelhantes.

Sintomatologia - A escoriose se manifesta principalmente na base dos ramos do ano, apresentando os seguintes sintomas: necroses fusiformes ou arredondadas escuras, rachaduras e escoriações superficiais da casca (Figura 10). No outono, os ramos poderão se tornar esbranquiçados a partir de sua base e conter pequenos pontos negros que são os picnídios do fungo. Os ataques podem ocorrer nas nervuras principais de folhas jovens, pecíolos e pedúnculo.
    No limbo foliar, forma manchas arredondadas de 3 a 15 mm de diâmetro, sendo escuras no centro e amarelas (cloróticas) na periferia (Figura 11).
    Os ramos de ano podem quebrar facilmente devido ao intumescimento verificado em sua inserção. Devido a morte das gemas basais, a poda tem que ser realizada na parte mediana do ramo, o que distancia muito a produção da cepa, causando um desequilíbrio da planta.

Figura 10
Fig. 10. Sintomas de escoriose no ramo (Foto: O.R.Sônego)

Figura 11
Fig. 11. Sintomas de escoriose nas folhas
(Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - A conservação do fungo se dá por meio de picnídios formados sobre os sarmentos e/ou do micélio no interior das gemas basais. Períodos prolongados de chuva e frio são as condições ideais para o patógeno. Temperaturas entre 1 °C e 37 °C e períodos prolongados de água livre ou umidade relativa acima de 95% são as condições favoráveis às infecções. Os tecidos tenros (jovens) na fase inicial da brotação são altamente sensíveis ao fungo.

Medidas de controle - No inverno, reduzir o inóculo pela remoção e destruição dos ramos doentes e/ou tratamento com calda sulfocálcica antes do início da brotação.
    Na primavera, o controle deve ser realizado nos estádios iniciais da brotação, por ser a fase mais sensível da planta, é nesta época que as condições climáticas são mais favoráveis ao patógeno. Sendo recomendados tratamentos nos estádios 05 (ponta verde) e 09 (duas a três folhas separadas), com os fungicidas registrados para a doença (Tabela 3).

Podridão cinzenta da uva - Botryotinia fuckeliana (Botrytis cinerea)

    A podridão do cacho, podridão cinzenta ou botritis, existe em todos os países vitícolas do mundo, reduzindo qualitativa e quantitativamente a produção. É considerada a mais importante das podridões do cacho. As perdas podem ser significativas nas cultivares viníferas, especialmente nas de cacho compacto.

Sintomatologia - Os sintomas são observados principalmente nos cachos. Nas folhas, os sintomas ocorrem na forma de lesões marrom-escuras, mas são pouco freqüentes em condições de campo. Os primeiros sintomas ocorrem na primavera e são microscópicos. Na floração, o estilete floral é infectado, o fungo invade a baga, permanecendo latente durante o desenvolvimento da mesma, só aparecendo os sintomas no início da maturação. A podridão do cacho se inicia com uma simples baga que se torna marrom e apodrece, produzindo visível massa de esporos. Quando a película da baga racha o mosto da uva escorre sobre o cacho produzindo a característica aparência de mofo cinzento devido a esporulação do fungo (Figura 12). Se o ataque se der pelo pedúnculo ou pedicelo, ocorre a podridão peduncular, responsável pela queda prematura dos cachos ou parte deles. A esporulação é mais intensa em condições de alta umidade.
    Nas estacas armazenadas pode ocorrer o ataque do fungo, produzindo um micélio esbranquiçado com aspecto de "teia de aranha", podendo também haver a formação de escleródios escuros na superfície dos ramos.

Figura 12
Fig. 12. Podridão do cinzenta do cacho (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - Na maioria dos casos, podridões severas dos cachos estão associadas com umidade relativa alta e temperaturas entre 15 °C e 28 °C durante a maturação da uva. Estas condições ocorrem na Região Sul do Brasil, tornando difícil o controle da doença.
    Vários fatores explicam as diferenças na suscetibilidade entre as cultivares de uva ao Botrytis. Cultivares de uvas tintas contém compostos que inibem em parte o fungo, sendo menos atacadas que as brancas, a espessura da película também é um fator determinante na suscetibilidade da cultivar.
    A compactabilidade dos cachos é importante. Nos cachos compactos, a água persiste por mais tempo e a penetração dos fungicidas é dificultada, favorecendo o desenvolvimento de podridões.
    A hifa do fungo pode penetrar diretamente no tecido, entretanto, ferimentos de qualquer natureza favorecem a infecção.

Medidas de controle - A podridão cinzenta pode ser reduzida por meio de algumas medidas que integradas aumentam a eficácia do controle. São elas: evitar cultivares de cacho compacto; adotar espaçamentos que proporcionem uma boa aeração e insolação; controlar a adubação nitrogenada; colher todos os cachos, evitando assim que eles mumifiquem no pé; proporcionar um bom distanciamento entre cachos, deixando-os livres; realizar poda verde (desfolha, desnetamento e esladroamento); tratar com fungicidas registrados (Tabela 3), e recomendados nas épocas de maior suscetibilidade, nos estádios 23 (50% das flores abertas), 27 (frutificação) e 35 (início da maturação).

Podridão da uva madura - Glomerella cingulata

Sintomatologia - O sintoma principal é o apodrecimento dos frutos maduros. Sobre as bagas inicialmente aparecem manchas marrom-avermelhadas, que posteriormente atingem todo o fruto, escurecendo-o. Em condições de alta umidade aparecem as estruturas do fungo na forma de pontuações cinza-escuras, das quais exsuda uma massa rósea, que são os conídios (Figura 13). Esta massa rósea serve também para diferenciar da podridão amarga.

Figura 13
Fig. 13. Sintoma de podridão da uva madura no cacho (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - Temperaturas entre 25 °C e 30 °C e alta umidade são as condições favoráveis ao patógeno. O fungo sobrevive em frutos mumificados e pedicelos, e na primavera com elevada umidade produz abundante frutificação. O excesso de nitrogênio favorece a infecção e o desenvolvimento do fungo.

Medidas de controle - Medidas de controle: A implementação de algumas medidas gerais são importantes para o manejo e controle da doença: remoção e destruição de frutos mumificados; eliminação de ramos podados; adubação equilibrada; localização do vinhedo (meia encosta e exposição norte). O tratamento químico deve ser iniciado no final da floração, e repetir as pulverizações para proteger as bagas em todos os seus estádios de desenvolvimento.

Podridão Amarga - Melanconium fuligineum = Greeneria uvicola

Sintomatologia - Nas folhas e ramos formam-se manchas marrom-avermelhadas escuras e pequenas, raramente maiores que 0,1 a 0,3 mm de diâmetro, com um halo amarelo. A ocorrência mais séria é sobre as bagas causando podridões e destruição dos pedicelos. Nos cachos, quando afeta o engaço, impede o livre fluxo da seiva para as bagas. Estas tornam-se enrugadas e mumificadas e caem com facilidade. O ataque direto do fungo sobre as bagas faz com que elas adquiram, inicialmente, coloração marrom-avermelhada, sem entretanto alterar-lhes a conformação. Pode-se observar, posteriormente, pontuações negras constituídas por estruturas típicas do fungo (acérvulos). As bagas restantes que permanecem no cacho, murcham, tornam-se múmias pretas, duras e secas (Figura 14).

Figura 14
Fig. 14. Sintoma de podridão amarga no cacho (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - Embora possa ocorrer em temperaturas de 12 °C a 36 °C, a temperatura em torno de 28 °C e alta umidade, são as condições ideais para o desenvolvimento da doença.
    O fungo pode sobreviver saprofiticamente de um ano para outro sobre os restos de cultura, pedicelos e frutos mumificados remanescentes nas plantas, e que servem de fonte de inóculo para o próximo ciclo.

Medidas de controle - Algumas práticas são importantes para o manejo da doença e para melhorar a eficácia do tratamento químico: remoção e destruição de frutos mumificados; eliminação de ramos podados; adubação equilibrada, e arejamento da copa. O tratamento químico deve ser iniciado no final da floração, e deve-se repetir as pulverizações para proteger as bagas em todos seus estádios de desenvolvimento.

Doenças da madeira ou podridão descendente

    As doenças da madeira podem ser causadas por diversos fungos, os quais colonizam a parte interna da planta ocasionando podridão descendente, o que pode levar a planta à morte se não controlada adequadamente. Os principais agentes de podridão descendente encontrados em vinhedos do Rio Grande do Sul são: Eutypa sp., Botryosphaeria spp., Sphaeropsis sp. e Phomopsis viticola.

Sintomatologia - Os sintomas do declínio são bastante genéricos, caracterizando-se pelo retardamento da brotação na primavera; encurtamento dos internódios; deformação e descoloração dos ramos; as folhas são menores do que o normal, deformadas e cloróticas, com pequenas necroses nas margens, podendo murchar e cair; redução drástica do vigor; superbrotamento; seca de ramos e morte da planta. Frutificação irregular e com menor número de bagas também é verificada. Morte de ramos e frutificação do fungo nestes locais são características importantes para o diagnóstico do agente envolvido no declínio. O corte transversal da região do ramo afetado mostra a extensão da doença, apresentando área da madeira escura, morta e não funcional, em forma de cunha, contrastando com a parte ainda viva (Figura 15).

Figura 15
Fig. 15. Corte transversal de podridão descendente (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - A infecção ocorre por ferimentos da poda ou outras injúrias produzidas sobre a planta, sendo que o patógeno sobrevive em tecidos infectados. Estresse hídrico e desequilíbrio nutricional favorecem o desenvolvimento da doença. Os fungos se desenvolvem numa ampla faixa de temperatura, sendo a temperatura ótima para Eutypa entre 20 °C e 25 °C; para Botryosphaeria e Phomopsis entre 23 °C e 26 °C. Todos os patógenos são favorecidos por alta umidade.

Medidas de controle - Como a infecção ocorre por cortes de poda ou outros ferimentos, quanto mais rápida a cicatrização destes, menor é o risco de infecção. As observações mostraram que mesmo com as causas primárias definidas, o declínio agrava-se quando a videira está em estresse de qualquer natureza. A redução da ação dos fatores que provocam estresse nas plantas poderá diminuir o efeito do declínio e às vezes até controlá-lo. Como medidas gerais de controle recomenda-se: utilização de material sadio, na poda retirar e destruir as partes doentes, desinfetar as ferramentas com hipoclorito de sódio (água sanitária a 1%), proteger os ferimentos da poda o mais rápido possível com um fungicida que pode ser o tebuconazole, tiofanato metílico ou pasta bordalesa.

Fusariose - Fusarium oxysporum f.sp. herbemontis

    Esta doença causa redução drástica da produtividade da videira por provocar a mortalidade de plantas, além de ser uma doença de difícil controle.

Sintomatologia - A fusariose é uma doença vascular, provocando interrupção na translocação da seiva (Figura 16). A doença reduz o crescimento dos brotos, e provoca escurecimento interno da madeira, murchamento de folhas e de cachos. Os cachos murcham ainda verdes ficando aderidos aos ramos. As plantas infectadas podem morrer subitamente (Figura 17), normalmente em reboleiras. Em outras plantas pode-se verificar brotações no tronco, que também morrerão com a evolução da doença.

Figura 16
Fig. 16. Escurecimento interno típico da fusariose (Foto: O.R.Sônego)

Figura 17
Fig. 17. Sintomas de morte súbita da planta devido a fusariose (Foto: O.R.Sônego)

Condições predisponentes - O uso de implementos para o manejo do solo e o controle de plantas daninhas pode causar ferimentos às raízes, provocando aberturas que favorecem a infecção pelo fungo. Solos mal drenados e principalmente com excesso de matéria orgânica favorecem a ocorrência da doença. Altas temperaturas e baixa umidade relativa aumentam a severidade da doença.

Medidas de controle - As medidas de controle são preventivas pois o controle químico não é eficaz. As medidas recomendadas são: plantio em áreas livres da doença; adotar práticas que não provocam ferimentos ao sistema radicular; escolher solos bem drenados para a instalação do vinhedo; usar material de propagação sadio. Em áreas já contaminadas deve-se proceder o arranquio das plantas infectadas com o máximo possível de raízes e queimá-las, aplicar cal virgem nas covas, evitar o uso de máquinas em áreas contaminadas e depois em áreas de vinhedos sadios, controlar a erosão para evitar o escoamento de águas superficiais de áreas contaminadas para áreas não contaminadas. A principal medida de controle é a utilização de porta-enxerto resistente. O porta-enxerto Paulsen 1103 tem mostrado boa tolerância a fusariose, enquanto o porta-enxerto SO4 é muito susceptível; a cv. Isabel de pé franco, apresenta boa tolerância ao patógeno.

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