Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 4
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jul./2003

Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado

Marcos Botton
Saulo de Jesus Soria
Eduardo Rodrigues Hickel

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Indicações Geográficas para Vinhos Brasileiros
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências

Expediente
Autores

Pragas da Videira

Pérola da Terra
Filoxera
Cochonilhas
Cigarrinha-das-fruteiras
Ácaros
Besouros desfolhadores da videira
Gorgulho-do-milho
Traça-dos-cachos
Lagarta-das-fruteiras
Mosca-das-frutas
Vespas e Abelhas
Formigas Cortadeiras

    A produção de uvas no Brasil encontra-se principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste com destaque para os Estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Pernambuco e Minas Gerais. O Estado do Rio Grande do Sul concentra a maior área cultivada no Brasil, que segundo o IBGE, é de aproximadamente 63.000 ha.
    Sobre a videira, já foram relatadas aproximadamente 160 espécies de insetos que se alimentam da planta, porém, poucas atingem a situação de praga que exija a adoção de medidas de controle. Em determinadas regiões, dependendo da localização e manejo do parreiral, insetos como o percevejo-da-soja Nezara viridula ou lagartas de solo dos gêneros Agrotis sp. e Spodoptera sp., podem alimentar-se de folhas e/ou frutos, porém, tais insetos são considerados de importância secundária. Além disso, dependendo da finalidade da produção (mesa ou processamento), a exigência por qualidade é diferenciada, fazendo com que a importância das pragas seja alterada.
    Nos últimos anos, devido à necessidade crescente de uvas principalmente para processamento, muitos produtores têm implantado novos parreirais e estão encontrando limitações de ordem fitossanitária, que praticamente inviabilizam o cultivo em determinadas áreas. Nestas situações, a presença de insetos como a pérola-da-terra Eurhizococcus brasiliensis e a filoxera Daktulosphaira vitifoliae, pragas de difícil controle, têm sido responsáveis pelo declínio e morte de plantas. Além destes insetos, em parreirais adultos, a presença de cochonilhas da parte aérea, cigarrinhas e insetos que atacam as bagas no periodo de pré-colheita como lagartas, gorgulho, vespas e abelhas, devem merecer atenção dos produtores.

Topo

Pérola-da-Terra Eurhizococcus brasiliensis (Hempel, 1922) (Hemiptera: Margarodidae)

Descrição e Biotecnologia - A pérola-da-terra Eurhizococcus brasiliensis (Hempel, 1922) (Hemiptera: Margarodidae), é uma cochonilha subterrânea que ataca as raízes de plantas cultivadas e silvestres (Figura 1). Várias espécies de plantas entre anuais e perenes são hospedeiras do inseto, destacando-se a videira e fruteiras de clima temperado (Tabela 1). A praga ocorre principalmente na região Sul do Brasil, onde acredita-se que a mesma seja nativa e também em São Paulo. Recentemente, a pérola da terra foi constatada atacando a cultura da videira no Vale do São Francisco, em Petrolina-PE. A cochonilha permanece na região das raízes e somente é prejudicial no primeiro e segundo ínstares, visto que os adultos são desprovidos de aparelho bucal. O inseto é considerado a principal praga da videira, sendo responsável pelo declínio da cultura em várias regiões devido às dificuldades de controle.

Tabela 1. Relação dos hospedeiros nos quais constatou-se a pérola-da-terra Eurhizococcus brasiliensis (compilação de Gallotti, 1976).

Espécie Nome científico Família
Aboboreira Cucurbita pepo L. Cucurbitaceae
Alecrim Rosmarinus officinalis L. Labiatae
Alface Lactuca sativa L. Compositae
Almeirão Chicorium endivia L. Compositae
Amarilis Amarilis sp. Amarilidaceae
Ameixeira Prunus domestica L. Rosaceae
Amendoim Arachis hipogea L. Leguminosae
Amora Morus nigra, Morus alba L. Moraceae
Batata doce Ipomoea batatas Lam. Convolvulaceae
Batatinha Solanum tuberosum L. Solanaceae
Camomila Matricaria chamomilla L. Compositae
Cana-de-açúcar Saccharum officinarum L. Gramineae
Capim de folha larga Digitaria sp. Gramineae
Carqueja Baccharis genistelloides Pers. Compositae
Carurú-bravo Phytoloca decandra L Phytolaccaceae
Castanheira portuguesa Castanea vesca Gaerth Fagaceae
Cenoura Daucus carota L. Umbelliferae
Cerejeira Prunus cerasus L. Rosaceae
Chicória Chicorium endivia L. Compositae
Chuchuzeiro Sechium edule Sw. Cucurbitaceae
Chorão Salix humboldtiana Kunth Salicaceae
Cinamomo Melia azedarach L. Meliaceae
Cipó-de-veado Convolvulus ottonis Convolvulaceae
Crisântemo Chrysanthemum sp. L. Compositae
Dália Dahlia sp. Compositae
Erva-de-bicho Polygonum cacre HBK. Poligonaceae
Erva lanceta Solidago microgiossa DC. Compositae
Erva mate Ilex paraguayensis St. Hil. Aquifoliaceae
Funcionária Gazania ringens \hibr.  
Gardênia Gardenia jasminoides Eii. Rubiaceae
Gerânio Pelargonium zonale Willd. Geraniaceae
Goiabeira Psidium guajava L. Myrtaceae
Guaxuma Sida thombifolia L Malvaceae
Língua-de-vaca Rumex sp. Compositae
Lírio-do-brejo Hedychium coronarium Koehne Zingiberaceae
Macieira Malus domestica Borkh Rosaceae
Mandioca Manihot utilissima Pohl. Euphorbiaceae
Marmeleiro Cydomia vulgaris L. Rosaceae
Melancia Citrullus vulgaris Schard Cucurbitaceae
Melão Cucumis melo L. Cucurbitaceae
Milho Zea mays L. Gramineae
Morangueiro Fragaria vesca L. Rosaceae
Nabo Brassica campestris L. Cruciferae
Nogueira Juglans regia L. Juglandaceae
Nogueira pecã Carya illinoensis Juglandaceae
Palmeira Arecastrum romanzophianum Palmae
Pepino Cucumis sativus L. Cucurbitaceae
Pereira Pyrus communis L. Rosaceae
Pessegueiro Prunus persica (Sieb. et Zucc.) Rosaceae
Pinheiro Araucaria angustifolia Araucariaceae
Quiabeiro Hibiscus esculentus L. Malvaceae
Quina Solanum pseudoquina Solanaceae
Rabanete Raphanus sativus L. Cruciferae
Romãzeira Punica granatum L. Punicaceae
Roseira Rosa sp. Rosaceae
Salsa Petroselinum hortense Umbelliferae
Sálvia Salvia splendes Sellow Labiatae
Sempre noiva Helichrysum sp. Compositae
Soja Glycine max Leguminosae
Uva do Japão Hovenia dulcis Thunb. Rhamnaceae
Vassoura Baccharis sp. DC. Compositae
Videira Vitis sp. Vitaceae

Figura 1
Fig. 1. Pérola da terra em raízes de videira (Foto: E. Hickel)

Figura 2
Fig. 2. Ciclo biológico da pérola-da-terra em plantas de videira (E. Hickel)

Figura 3
Fig. 3. Cisto branco com ovos da pérola-da-terra (Foto: E. Hickel)

Figura 4
Fig. 4. Eclosão das ninfas a partir dos cistos brancos (Foto: E. Hickel)

    Formigas doceiras, principalmente a espécie Linepithema humile (Mayr), geralmente estão associadas a infestações da pérola-da-terra em busca dos excrementos açucarados da cochonilha. Esta associação (protocooperação) resulta no transporte (forese) das ninfas de primeiro instar para novos pontos do hospedeiro ou entre plantas. Além do transporte das ninfas no interior do parreiral, as formigas protegem a cochonilha do ataque de inimigos naturais e, ao cavarem galerias, facilitam a sobrevivência do inseto sob o solo. A disseminação do inseto ocorre principalmente através da movimentação de mudas enraizadas infestadas pela praga, tanto de videira como de outras fruteiras de clima temperado e ornamentais. O transporte também pode ocorrer pelo uso de equipamentos agrícolas contaminados.
    A partir do segundo instar, as ninfas perdem as pernas, encerram-se no interior da exúvia que converte-se numa cápsula protetora, assumindo formato esférico. Esta fase atinge o máximo de crescimento em outubro-novembro, possui formato globoso, de coloração amarela, sendo denominada de pérola-da-terra (Figura 5). O completo desenvolvimento das ninfas origina fêmeas que podem morrer dentro do próprio cisto (reprodução assexuada), após realizar a postura ou então, rompê-lo e subir à superfície como fêmea móvel para um eventual acasalamento (reprodução sexuada), retornando em seguida para o interior do solo (Figura 6). Embora pouco comum, na reprodução sexuada, as ninfas podem passar por dois instares, pré-pupa, pupa e originar machos alados (Figura 7) que vivem no máximo dois dias e, a princípio, servem apenas para copular as fêmeas móveis. Poucas informações encontram-se disponíveis sobre o que ocorre com as fêmeas móveis após a fecundação, bem como os fatores que levam ao aparecimento de machos na espécie.

Figura 5
Fig. 5. Cisto amarelo da pérola-da-terra (Foto: E. Hickel)
Figura 6
Fig. 6. Fêmea móvel da pérola-da-terra (Foto: E. Hickel)
Figura 7
Fig. 7. Macho alado da pérola da terra. (Foto: E. Hickel)

    Nos meses mais frios, mesmo com plantas de videira em repouso vegetativo, as ninfas de segundo instar não interrompem o desenvolvimento, caracterizando ausência de estratégia de dormência ou diapausa.

Sintomas e danos - A sucção da seiva efetuada pela pérola-da-terra nas raízes provoca um definhamento progressivo da videira, com redução da produção e conseqüente morte das plantas. Em parreirais adultos, as folhas amarelecem entre as nervuras de maneira similar à deficiência de magnésio; os bordos das folhas encarquilham para dentro, ocorrendo em alguns casos, queimaduras nas bordas (Figura 8). Plantas com estes sintomas, geralmente têm baixo vigor, entrenós curtos, entram em declínio e morrem (Figura 9). No caso de novos plantios, no primeiro ano as plantas desenvolvem-se normalmente; a partir do segundo ano, a brotação é fraca e desuniforme, ocorrendo a morte das plantas atacadas geralmente no terceiro ano. Plantas adultas, normalmente demoram mais para morrer por possuírem o sistema radicular mais desenvolvido. O período mais indicado para avaliar a presença do inseto no parreiral é no início da brotação, arrancando-se as plantas fracas e observando-se a presença das ninfas nas raízes (Figura 1).

Figura 8
Fig. 8. Sintomas do ataque da pérola-da-terra nas folhas de videira (Foto: E. Hickel)
Figura 9
Fig. 9. Plantas definhadas devido ao ataque da pérola-da-terra (Foto: M. Botton)

Controle - Nos plantios novos, escolher áreas não infestadas pela pérola-da-terra. Entretanto, caso isto não seja possível, as seguintes medidas são recomendadas:

  • Fazer análise do solo, corrigir e adubar a área de acordo com as recomendações para a cultura utilizando sempre que possível adubo orgânico.

  • Realizar o preparo do solo, inclusive com subsolagem, de modo a permitir que as raízes tenham um bom desenvolvimento.

  • Utilizar mudas de boa procedência e livres de viroses. A ausência de viroses auxilia no desenvolvimento das plantas resultando em maior tolerância ao ataque da praga.

  • Utilizar porta-enxertos resistentes à pérola-da-terra como o 39-16 e o 43-43. Mesmo com o emprego destes porta-enxertos, o controle químico é necessário principalmente nos primeiros anos após o plantio.

  • Controlar as plantas invasoras hospedeiras do inseto presentes na área. Nos primeiros anos, caso o produtor queira cultivar outras espécies para aproveitar o terreno no interior do parreiral, deve utilizar culturas anuais não hospedeiras da praga, como o alho e o feijão.

    Nos parreirais adultos, adotar os seguintes procedimentos:

  • Realizar a adubação do parreiral conforme as recomendações para a cultura, empregando adubo orgânico sempre que possível.

  • Não cultivar plantas hospedeiras do inseto (Tabela 1) no interior do parreiral. É comum produtores cultivarem espécies como a batata-doce (Ipomoea batatas) no interior do parreiral ou plantarem figueiras ou roseiras nas bordas, visando aproveitar o espaço. Estas espécies auxiliam a aumentar a população da praga na área, sendo responsáveis pela reposição do inseto que atacará as plantas de videira.

  • Manter o parreiral sem plantas invasoras hospedeiras do inseto. Nas áreas infestadas, é comum encontrar espécies invasoras que também são atacadas pela pérola-da-terra como a língua-de-vaca (Rumex sp.). As plantas invasoras servem de reservatório natural do inseto na área, contribuindo para aumentar a infestação do parreiral.

  • Evitar a utilização de equipamentos como a enxada rotativa, visto que aumenta a dispersão do inseto.

  • Com relação ao emprego de inseticidas, o vamidothion (Kilval 300) foi empregado com sucesso no controle da praga. Entretanto, o inseticida foi retirado do mercado brasileiro na safra 1999/2000. Atualmente, o controle químico é realizado nas áreas infestadas segundo indicação na Tabela 2.

Tabela 2. Inseticidas recomendados para o controle da pérola-da-terra Eurhizococcus brasiliensis na cultura da videira.

Inseticida Idade das plantas Dose
(g produto comercial/planta)
Classe Toxicológica Carência (dias)
Ingrediente ativo Produto Comercial
Thiamethoxan Actara 10 GR 1 ano 12-20 IV 45
2 anos 20-30
3 anos 30-40
Imidacloprid Premier 700 GrDA 1 ano 0,2-0,3 IV 60
2 anos 0,3-0,5
3 anos 0,5-0,8

    Os dois inseticidas devem ser aplicados no solo, durante o mês de novembro, período em que inicia o ataque das ninfas primárias às raízes da videira. Em situações de alta infestação, a dosagem recomendada pode ser dividida em duas, aplicando-se em novembro e janeiro. O índice de controle da praga reduz conforme aumenta a idade das plantas. Por isso, é fundamental estabelecer um programa de controle do inseto na propriedade a partir do primeiro ano de plantio. O thiamethoxam, por ser granulado, deve ser aplicado diretamente no solo, cavando-se um sulco ao redor da planta, de modo que as raízes possam absorver o produto. O imidacloprid deve ser diluído em água e regado no solo, na região onde encontra-se o sistema radicular, aplicando-se de 2 a 4 litros de calda por planta. Quando o inseto encontra-se atacando plantas adultas, a redução na população do inseto não tem sido significativa. Nestas situações, a redução na população da praga é gradual, devendo-se realizar o tratamento por mais de uma safra. Em casos de infestação elevada, é conveniente replantas as mudas, aplicando o programa de tratamento recomendado para plantas novas. Quando o tratamento é realizado em plantas em produção, respeitar o período de carência dos inseticidas.
    Os produtos devem ser aplicados quando as plantas estejam em plena atividade, evitando os períodos de estiagem. É importante limpar as invasoras próximo às raízes para evitar que as mesmas absorvam o inseticida, reduzindo o controle. Evitar empregar cama-de-aviário com presença de serragem ou maravalha antes da aplicação dos produtos, pois a mesma adsorve os inseticidas reduzindo o efeito do tratamento.

    Caso o inseto não esteja presente na propriedade, adotar as seguintes medidas para impedir que a praga seja introduzida:

  • Evitar o transplante de mudas de uso doméstico com torrão, como flores, fruteiras e condimentos provenientes de áreas infestadas (Tabela 1).

  • Ao comprar mudas de videira, dar preferência às de raiz nua, as quais devem ser lavadas para verificar a presença da pérola-da-terra. Em caso de dúvida quanto à presença do inseto, as mudas podem ser tratadas com fosfina para eliminar o inseto conforme indicado por Dal Bó & Crestani (1988) ou methidathion (0,01%) (Hickel et al., 2001).

  • Ao utilizar equipamentos provenientes de locais onde o inseto encontra-se presente, providenciar a limpeza dos mesmos antes de utilizá-los na propriedade.

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Filoxera Daktulosphaira vitifoliae (Fitch, 1856) (Hemiptera: Phylloxeridae)

Descrição e bioecologia - A filoxera é um inseto sugador que apresenta formas diferenciadas dependendo da época do ano. O ciclo biológico do inseto é complexo e apresenta todas as formas somente em videiras americanas. Na primavera, a partir dos ovos de inverno depositados no ritidoma pelas formas áptera sexuadas, ocorre a eclosão das ninfas que causam galhas nas folhas (Figura 10). Cada fêmea galícola reproduz-se partenogeneticamente, ovipositando no interior das galhas. Dependendo das condições climáticas, destes ovos podem surgir novas fêmeas galícolas que irão completar várias gerações nas folhas durante o ano, ou fêmeas radícolas, que migram para as raízes das plantas e, ao surgirem provocam nodosidades nas radicelas (Figura 11).

Figura 10
Fig. 10. Galhas nas folhas devido ao ataque da filoxera (Foto: M. Botton)
Figura 11
Fig. 11. Nodosidades causadas pelo ataque da filoxera em raízes de videira (Foto: M. Botton)

    Ao final do verão, alguns ovos de fêmeas radícolas originam formas aladas, as quais abandonam o solo e retornam para as folhas. Estas formas ovipositam dois tipos de ovos: um menor que origina machos ápteros e outro maior, que origina fêmeas ápteras. As formas ápteras sexuadas, após o acasalamento, reiniciam o ciclo ovipositando ovos de inverno (um por fêmea). Das formas galícolas, também podem surgir fêmeas aladas que originam as formas sexuais ápteras.
    Nem todas as formas e/ou fases do ciclo de vida ocorrem em determinadas regiões, visto que as etapas do ciclo estão associadas às condições de clima e suscetibilidade de hospedeiros. Nas videiras de origem européia (viníferas) geralmente não ocorrem as formas galícolas, e as radícolas passam o inverno nas nodosidades e tuberosidades produzidas. Porém, a biologia desta espécie ainda necessita ser estudada nas condições brasileiras.

Sintomas e danos - Os danos da filoxera são observados nas folhas de cultivares de porta-enxertos sensíveis à forma galícola (Figura 10). Este ataque impede o desenvolvimento das brotações, reduz a atividade fotossintética, chegando a paralisar o desenvolvimento da planta. Em infestações severas, o inseto ataca as gavinhas e ramos tenros. Muitas vezes, porta-enxertos atacados no campo não obtêm porte suficiente para realização de enxertia de inverno na safra seguinte.
    Quando o ataque ocorre na raiz, normalmente são observadas nodosidades resultantes do entumescimento dos tecidos das radicelas (Figura 11). As nodosidades são causadas pela sucção contínua do inseto presente nas raízes e resultam numa menor capacidade de absorção de nutrientes, além de servir como porta de entrada para podridões de raízes. Como conseqüência, a planta reduz o desenvolvimento, culminando com a morte da planta.

Controle - Não existe controle químico que possa ser empregado de forma econômica para reduzir as infestações da forma galícola da filoxera. A maneira mais eficiente para evitar os danos do inseto é através do emprego de porta-enxertos resistentes.
    A forma galícola, quando ocorre em matrizes de porta-enxertos ou plantios novos para posterior enxertia no campo, deve ser controlada sistematicamente (a intervalos quinzenais) a partir do aparecimento dos primeiros sintomas, com os produtos indicados na Tabela 3. Atentar para a possibilidade de aparecimento de ácaros em função do desequilíbrio causado pela aplicação seqüencial de inseticidas de amplo espectro. Em situações de elevada infestação, os produtos indicados não apresentam eficiência satisfatória visto o grande potencial biótico do inseto.

Tabela 3. Inseticidas registrados no Ministério da Agricultura, Abastecimento e Pecuária para o controle das principais pragas da videira. Bento Gonçalves, RS, 2003.

Praga Inseticida Dosagem
(mL/100 L)
Carência (dias) Classe toxico-lógica
Ingrediente ativo Produto comercial
Filoxera (forma galícola)
Daktulosphaira vitifoliae
Fenitrotiom Sumithion 500 150 14 II
Paratiom metil Bravik 600 CE 100 15 I
Folidol 600 I
Folisuper I
Cochonilhas-da-parte aérea Parthenolecanium persicae; Icerya schrottkyi; Pseudococcus e Planococcus Paratiom metil + óleo emulsionável Bravik 600 CE 100 15 I
Folisuper I
Fenitrotiom + óleo emulsionável Sumithion 500 150 14 II
Óleo emulsionável Iharol 500 a 1000 SR IV
Triona 500 a 1000 SR IV
Hemiberlesia lataniae, Duplaspidiotus fossor, D. tesseratus Paratiom metil Bravik 600 CE 100 15 I
Folidol 600 I
Folisuper I
Cigarrinha Aethalion reticulatum Fenitrotiom Sumithion 500 150 14 II
Triclorfom Dipterex 500 300 7 II
Mosca-das-frutas Anastrepha fraterculus Fenthion Lebaycid 500 100 21 II
Triclorfom Dipterex 500 300 7 II
Traça dos cachos <td>II</td>Cryptoblabes gnidiella e Lagarta das fruteiras Argyrotaenia sphaleropa Fenitrotiom Sumithion 500 150 14 II
Triclorfom Dipterex 500 300 7 II
Besouros desfolhadores Maecolaspis spp e Gorgulho do milho Sitophilus Fenitrotiom Sumithion 500 150 14 II
Triclorfom Dipterex 500 300 7 II
Ácaro branco Polyphagotarsonemus latus Enxofre Kumulus 200 a 400 SR IV
Thiovit 200 a 400 SR IV
Abamectin Vertimec 18 CE 80 a 100 28 III
Ácaro rajado Tetranychus urticae Abamectin Vertimec 18 CE 80 a 100 28 III

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Cochonilhas

Descrição e bioecologia - O inseto apresenta uma geração por ano, multiplicando-se principalmente por partenogênese telítoca (Figura 12). A presença de machos na espécie é rara. A fêmea adulta apresenta forma globosa, de cor parda-acinzentada com estrias escuras no dorso, medidndo de 7 a 9 mm de comprimento por 3,5 a 4,5 mm de largura (Figura 13). O inseto localiza-se nos ramos do ano e inicia a oviposição em meados de novembro, continuando até o final de janeiro. Cada fêmea coloca de 1.500 a 2.000 ovos de cor avermelhada, os quais se acumulam embaixo da carapaça. Após finalizar a oviposição, a fêmea morre, porém a carapaça continua a proteger os ovos durante a incubação que dura, conforme as condições ambientais, de 15 a 30 dias. As nifas recém-eclodidas movem-se rapidamente sobre folhas e brotos podendo ser transportadas pelo vento a grandes distâncias. Dois a três dias após a eclosão, as ninfas fixam-se ao longo das nervuras na face inferior da folha, onde permanecem até o mês de maio. Nesta fase, o inseto tem a foram oval-achatada, apresentando coloração clara e medidndo aproximadamente 1,4 mm de comprimento.

Figura 12
Fig. 12. Ciclo biológico da cochonilha parda (M. Botton)
Figura 13
Fig. 13. Grupamento da cochonilha parda em ramos de videira (Foto: E. Hickel)

    Durante o outono, quando a circulação da seiva diminui, a ninfa sofre mais uma muda (segundo instar) atingindo de 2,0 a 2,7 mm de comprimento. Estas ninfas permanecem por algumas semanas nas folhas e, à medida que caem, deslocam-se para as partes mais lenhosas para hibernação, acumulando-se nos galhos, podendo alcançar, às vezes, a base do tronco da planta. O inseto entra em diapausa como ninfa de segundo instar, passando o inverno praticamente imóvel. No início da primavera, as ninfas passam para o terceiro instar quando completam o desenvolvimento. Durante o mês de novembro, as ninfas transformam-se em fêmeas adultas e ovipositam, reiniciando o ciclo biológico. É comum formigas doceiras associarem-se a esta cochonilha em busca dos excrementos açucarados.

Sintomas e danos - A espécie normalmente ataca os ramos novos de forma agregada. As brotações das plantas infestadas crescem menos, reduzem a produção e, dependendo da intensidade de infestação podem secar. Na ausência de formigas doceiras associadas, o desenvolvimento da fumagina sobre os excrementos do inseto deprecia os frutos comercialmente. As infestações mais freqüentes têm sido observadas sobre Couderc 13 e Seibel.

Controle - A poda de inverno ajuda eliminar o inseto dos ramos infestados. Após a poda, utilizar um inseticida (Tabela 3) associado com 1% de óleo mineral ou vegetal. A adição de óleo visa auxiliar na ação dos inseticidas, porém, dependendo das cultivares, como a Concord, pode ocorrer fitotoxicidade, sendo necessário utilizar menores concentrações. Além disso, atentar que o emprego dos óleos podem acelerar o início da brotação das videiras. É importante que o controle seja direcionado à fase de ninfa, que geralmente ocorre no início da brotação, visto que quando a fêmea está completamente desenvolvida, os inseticidas não atingem os ovos mantidos sob a carapaça, reduzindo a eficiência do tratamento.
    O tratamento de inverno com calda sulfocálcica a 4° Bé auxilia no controle do inseto, porém, isoladamente, não é eficaz para reduzir altas infestações. Caso seja utilizada calda sulfocálcica no inverno, observar um período de 40 dias para empregar óleo mineral ou vegetal.
    É comum encontrar larvas do díptero predador Belvosia sp. (Syrphidae) associado as colônias de ninfas da cochonilha parda atacando as posturas. Sempre que possível, deve-se preservar o predador nos parreirais.

Cochonilha branca - Pseudococcus spp. (Hemiptera: Pseudococcidae)

Descrição e bioecologia - Este grupo é comumente chamado de cochonilha branca em função da cera pulverulenta que recobre o corpo dos insetos, dando aspecto algodonoso. São de pequeno tamanho, gregários, vivem sobre folhas, frutos, ramos e brotos podendo também afetar as raízes (Figura 14). Devido ao tamanho reduzido e hábito de vida, localizando-se nas raízes ou interior dos cachos, estes insetos têm passado de forma desapercebida pelos produtores, principalmente quando estão em pequeno número. Quando a população encontra-se elevada nos pomares é facilmente percebida, pois em função da secreção açucarada que liberam verifica-se a presença de formigas doceiras associadas ao inseto, podendo dar origem a fumagina, que deprecia comercialmente os frutos. As espécies presentes nos parreirais do Brasil ainda não foram estudadas quando a bioecologia, sendo que os principais gêneros relatados em videiras são Pseudococcus e Planococcus.

Figura 14
Fig. 14. Cochonilha branca em raízes de videira (Foto: E. Prado)

Sintomas e danos - As cochonilhas incidem sobre ramos, tronco (lenho velho) e raízes resultando no enfraquecimento da planta, com conseqüente perda da produção.

Controle - Em situações de alta infestação, empregar os produtos indicados na Tabela 3. É comum encontrar parasitóides associados as cochonilhas, por este motivo, o controle químico da cochonilha deve ser direcionado somente para as plantas infestadas, visando preservar as espécies benéficas presentes no parreiral.

Cochonilha algodão Icerya schrottkyi (Hempel, 1900) (Hemiptera: Margarodidae)

Descrição e bioecologia - As fêmeas são ovais, rosadas, apresentando de 5 a 7 mm de comprimento. O corpo da cochonilha não é revestido por carapaça. No tórax e abdomen encontram-se poros que secretam cera branca que acaba encobrindo todo o corpo do inseto, dando uma aparência esbranquiçada (Figura 15). O ciclo biológico de I. Schrottkyi ocorre de forma semelhante ao da cochonilha parda. A fêmea adulta faz postura dentro do ovissaco no final da primavera, sendo que a eclosão das ninfas ocorre em novembro-dezembro. As ninfas recém-eclodidas movem-se para as folhas, onde permanecem até a queda. No mês de maio, voltam aos ramos e tronco, onde se fixam passando o inverno. A postura é realizada nos meses de outubro-novembro, quando as fêmeas morrem deixando a nova geração. A reprodução é partenogenética.

Figura 15
Fig. 15. Cochonilha algodão no tronco da videira (Foto: A. Afonso)

Sintomas e danos - A cochonilha incide sobre ramos e tronco (lenho velho) resultando no enfraquecimento da planta, com conseqüente perda da produção.

Controle - O ataque desta praga normalmente é de poucos indivíduos por planta, permitindo aos produtores eliminá-las manualmente. Em situações de alta infestação, empregar os inseticidas indicados na Tabela 3.

Cochonilha-do-tronco Hemiberlesia lataniae (Signoret, 1869), Duplaspidiotus tesseratus (Charmoy, 1899) e D. fossor (Newstead, 1914) (Hemiptera: Diaspididae)

Descrição e bioecologia - Estas cochonilhas freqüentemente estão associadas aos vinhedos da região Sul do Brasil. As duas cochonilhas são espécies semelhantes quanto ao tamanho e forma da carapaça, dificultando a identificação no campo. Praticamente não existem informações sobre a biologia destas cochonilhas na cultura da videira o que dificulta o estabelecimento de medidas de controle.

Sintomas e danos - As cochonilhas infestam de forma agregada os ramos velhos da parreira, localizando-se abaixo do ritidoma (Figura 16). Ao se alimentarem reduzem o desenvolviemnto das plantas, podendo provocar a morte.

Fig. 16. Ramo velho de parreira infestado por cochonilhas. (Foto: M. Botton)

 

Controle - Nas situações em que ocorrem infestações elevadas do inseto, o controle químico é recomendado (Tabela 3). Entretanto, como a cochonilha normalmente se localiza sob o ritidoma, dificultando o contato com os produtos aplicados, recomenda-se previamente realizar uma limpeza da casca. Esta operação pode ser feita manualmente com escovas ou utilizando calda sulfocálcica a 4° Bé durante o inverno. Aproximadamente 30 a 45 dias após o tratamento com a calda, o ritidoma começa a se desprender, facilitando o contato do inseticida com as cochonilhas. O uso da calda sulfocálcica encontra restrições pelos produtores devido à ação corrosiva sobre os arames do parreiral. Embora este assunto seja bastante controverso, no caso da aplicação no tronco, é possível utilizar uma haste com dupla saída (Figura 17), adaptada ao pulverizador costal, de modo a atingir os dois lados do caule, evitando o contato com o arame. O aplicador também pode ser utilizado para direcionar o tratamento das cochonilhas somente nas plantas infestadas. Após o uso da calda sulfocálcica, é importante lavar o equipamento de aplicação com uma solução de vinagre a 10% para retirar os resíduos da calda, evitando a corrosão.

Figura 17
Fig. 17. Haste de dupla saída adaptada para aplicação no tronco da videira (Foto: M. Botton)

    Embora não existam levantamentos de inimigos naturais destas cochonilhas nos parreirais, é comum encontrar as carapaças perfuradas devido à emergência de parasitóides. Por este motivo, é importante que o controle químico da cochonilha seja direcionado somente para as plantas infestadas, visando preservar as espécies benéficas presentes no parreiral.

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Cigarrinha-das-fruteiras Aethalion reticulatum (L., 1767) (Hemiptera: Aetalionidae)

Descrição e bioecologia - O inseto normalmente encontra-se associado a cultivares viníferas. Não existem estudos sobre a biologia desta espécie na cultura da videira. Observações de campo indicam que o inseto passa o inverno de forma agregada, protegida sob o ritidoma (Figura 18). A partir do início da brotação ocorre a dispersão da praga no parreiral. As posturas são realizadas numa ooteca, sendo que no interior encontram-se os ovos, em número de 100 ou mais. Normalmente o ataque da cigarrinha está associado a formigas, principalmente do gênero Camponotus sp. que se alimentam de substâncias açucaradas excretadas pelo inseto.

Figura 18
Fig. 18. Grupamento da cigarrinha-das-fruteiras no tronco da videira (Foto: M. Botton)

Sintomas e danos - Ao se alimentarem continuamente das plantas, o inseto injeta saliva tóxica, provocando hipertrofia do parênquima cortical, reduzindo o desenvolvimento dos ramos atacados. No caso de cultivares viníferas, as folhas seguintes ao ponto de alimentação avermelham, apresentando sintomas semelhantes a viroses. Sobre os excrementos da cigarrinha, quando não encontram-se formigas doceiras associadas, pode aparecer a fumagina.

Controle - Como o inseto apresenta hábito gregário, as ninfas são facilmente destruídas manualmente o que pode ser feito no momento da poda de inverno. Com relação ao controle químico, alguns viticultores preferem carregar conjuntamente com o material da poda, um pequeno pulverizador manual com capacidade para um ou dois litros, contendo solução inseticida para pulverizar nas colônias do inseto. A cigarrinha é altamente sensível aos inseticidas (Tabela 3), entretanto, em situações de alta infestação, pode ser necessário tratar todo o parreiral. Nestes casos, o tratamento deve ser repetido após 20 a 30 dias, com o objetivo de atingir as ninfas que eclodiram após a aplicação, visto que os produtos não atuam sobre as posturas.

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Ácaros

    Os ácaros que atacam a videira têm sido mais prejudiciais às cultivares viníferas produzidas em regiões tropicais onde o clima é seco, favorecendo a multiplicação. As espécies mais freqüentes associadas à cultura da videira e que podem ser consideradas pragas são as seguintes:

Ácaro branco Polyphagotarsonemus latus (Banks, 1904) (Acari: Tarsonemidae)

Descrição e bioecologia - O ácaro branco é uma praga polífaga e cosmopolita. Possui tamanho reduzido (machos e fêmeas medem aproximadamente 0,17 mm e 0,14 mm de comprimento, respectivamente), dificilmente visualizados a olho nu. O macho, mesmo sendo menor que a fêmea, possui o hábito de carregar a pupa desta para acasalamento no momento da emergência. Os ovos são depositados isoladamente na face inferior das folhas. O ataque ocorre somente nas folhas novas da videira, não havendo presença de teias.

Sintomas e danos - O ataque do ácaro branco resulta num encurtamento dos ramos da videira como resultado da alimentação contínua sobre as folhas novas (Figura 19). Em situações de elevada infestação, as folhas ficam coriáceas e quebradiças podendo ocorrer a queda das mesmas. O ataque é mais importante em plantas noves, tanto em mudas como nos porta-enxertos, visto que a praga reduz o crescimento, atrasando a formação do parreiral.

Figura 19
Fig. 19. Encurtamento dos ramos de plantas de videiras devido ao ataque do ácaro branco (Foto: M.Botton)

Controle Nas situações de elevada infestação, o controle deve ser realizado com acaricidas específicos (Tabela 3). O ácaro branco também é sensível ao enxofre devendo-se direcionar o tratamento às brotações novas. Entretanto, o uso do enxofre pode causar fitotoxicidade em cultivares americanas.

Ácaro rajado Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari: Tetranychidae)

Descrição e bioecologia - O ácaro rajado mede cerca de 0,5 mm de comprimento, possui coloração amarelo esverdeada com duas manchas escuras no dorso do corpo (Figura 20). Vive principalmente na página inferior das folhas e tece teia. Altas temperaturas e ausência de chuvas favorecem o desenvolvimento da praga.

Figura 20
Fig. 20. Ácaro rajado com as manchas características no dorso do corpo (Foto: E. Hickel)

Sintomas e danos - Os sintomas de ataque iniciam como pequenas áreas cloróticas nas folhas, entre as nervuras principais e, posteriormente, o local de ataque fica necrosado. Na página superior das folhas correspondente às lesões, surgem tons avermelhados. Altas infestações podem causar desfolhamento e também ataque aos cachos, causando bronzeamento das bagas.

Controle - O ácaro rajado deve ser controlado eliminando-se as plantas hospedeiras da praga presentes no parreiral antes da brotação da videira. Na região sul do Brasil tem sido comum os produtores utilizarem a ervilhaca como cobertura morta no interior do parreiral, realizando a dessecação no início da brotação. Os ácaros presentes nesta planta acabam migrando para a videira, causando danos à cultura. Outra prática que deve ser evitada é o emprego exagerado de adubos nitrogenados, visto que plantas com altos teores de nitrogênio favorecem a multiplicação da praga. Deve-se evitar o emprego de produtos pouco seletivos aos inimigos naturais, principalmente inseticidas piretróides, pois provocam aumento na população do ácaro. Ao utilizar o controle químico (Tabela 3) as aplicações devem ser direcionadas para a face inferior das folhas.

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Besouros desfolhadores da videira Maecolaspis aenea (Fabricius, 1801), M. trivialis (Boheman, 1858) e M. geminata (Boheman, 1859) (Coleoptera: Chrysomelidae)

Descrição e bioecologia - Os besouros desfolhadores que atacam a videira são insetos pequenos (3 a 5 mm de comprimento) de cor verde-metálica (Figura 21). As larvas vivem no solo alimentando-se das raízes; os adultos são polífagos atacando, além da videira, espécies como a roseira, algodão, batata-doce, feijão e citros, entre outros. Não existem informações disponíveis sobre a biologia destes besouros na cultura da videira e a identificação das espécies está sendo revista. O período de ataque dos adultos vai de outubro a janeiro, com picos em dezembro. Os adultos não são facilmente visíveis pelos viticultores, pois localizam-se sob as folhas e, ao perceberem a presença de pessoas ou o agitar dos ramos, imobilizam-se e caem no solo. M. aenea ocorre na região Sul e M. trivialis, na região central do Brasil, principalmente nos Estados de Minas Gerais e São Paulo.

Figura 21
Fig. 21. Besouros desfolhadores atacando folhas da videira (Foto: E. Hickel)

Sintomas e danos - Os adultos atacam folhas e brotos novos, causando perfurações características (Figura 22). Os danos resultam em menor desenvolvimento das plantas reduzindo a atividade fotossintética. Outro dano causado pelo inseto é a queda prematura das bagas. Ao se observar os cachos danificados, estes mostram o pedicelo das bagas roídos, exibindo o tecido lenhoso.

Figura 22
Fig. 22. Perfurações em folhas de videira causadas pelo ataque de besouros desfolhadores (Foto: M. Botton)

Controle - O controle normalmente é realizado com a aplicação de inseticidas (Tabela 3) podendo ser necessário mais de uma pulverização dependendo da intensidade de ataque.

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Gorgulho-do-milho Sitophilus sp. (Coleoptera: Curculionidae)

Descrição e bioecologia - É uma praga cosmopolita, característica de produtos armazenados (Figura 23) que tem sido relatada com freqüência atacando fruteiras temperadas com destaque para o pessegueiro na região de Pelotas e macieira na região de Fraiburgo. A ocorrência do gorgulho do milho geralmente é próxima à colheita, na fase de maturação dos frutos. Poucas informações estão disponíveis referentes à presença do gorgulho-do-milho nos parreirais.

Figura 23
Fig. 23. Adulto de Sitophilus sp (Foto: A. P. Afonso)

Sintomas e danos - Os adultos perfuram as bagas, servindo de entrada para a podridão ácida, depreciando a qualidade dos vinhos. Devido aos ferimentos causados nas bagas, pode ocorrer a proliferação de fungos (Aspergillus e Penicillium) responsáveis pela produção da ocratoxina A nos vinhos, reduzindo a qualidade do produto final, bem como pondo em risco a saúde dos consumidores.

Controle - O controle deve ser dirigido aos paióis de armazenagem de milho geralmente localizados próximo aos parreirais. Em situações de elevada infestação, é possível reduzir os danos empregando-se os produtos indicados na Tabela 3.

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Traça-dos-cachos Cryptoblabes gnidiella (Millière, 1864) (Lepidoptera: Pyralidae)

Descrição e bioecologia - A traça-dos-cachos, Cryptoblabes gnidiella, é um microlepidóptero cujas mariposas possuem cerca de 10 mm de comprimento e 22 mm de envergadura, com coloração predominante cinza (Figura 24). As lagartas possuem coloração escura e, quando completamente desenvolvidas, atingem cerca de 10 mm de comprimento (Figura 25). Os adultos possuem hábitos crepusculares e noturnos, mostrando-se pouco ativos durante o dia. As fêmeas colocam em média 110 ovos, sendo que a oviposição ocorre à noite, de forma isolada nos pedúnculos das folhas e na superfície dos frutos. O período de incubação dura aproximadamente quatro dias. O ciclo biológico (ovo-adulto) do inseto (25 °C) tem duração média de 36 dias, sendo que os adultos vivem em média 7 dias. A espécie ataca além da videira, abacate, banana, café, citrus e sorgo.

Figura 24
Fig. 24. Adultos de Cryptoblabes gnidiella (Foto: R. Ringenberg)

Figura 25
Fig. 25. Lagartas de Cryptoblabes gnidiella (Foto: R. Ringenberg)

Sintomas e danos - As lagartas alojam-se no interior das bagas e, quando verdes, comem a casca do engaço, causando o murchamento e conseqüente queda das uvas. Quando o ataque ocorre próximo a colheita, provocam o rompimento das mesmas resultando no extravasamento do suco sobre o qual proliferam bactérias que provocam a podridão ácida, reduzindo a qualidade dos vinhos ou depreciando os cachos para o comércio in natura (Figura 26). Ao completar a fase larval o inseto pupa no interior do cacho atacado, no emaranhado de teia e excrementos das lagartas.

Figura 26
Fig. 26. Danos de Cryptoblabes gnidiella em cachos de uva.
(Foto:R. Ringenberg)

Controle - O monitoramento de C. gnidiella pode ser realizado utilizando-se armadilhas com feromônio sexual sintético visando detectar o momento da ocorrência dos adultos no pomar. Em baixas infestações, o controle biológico natural das traças-dos-cachos é intenso e impede o aumento da população. Os microhimenópteros mais ativos são Brachymeria pseudoovata Blanch, Elachertus sp. e Horismenus sp.. Em altas infestações, o controle biológico natural não é eficiente, recomendando-se a aplicação de inseticidas, procurando atingir o inseto no interior dos cachos, onde as lagartas ficam abrigadas (Tabela 3).

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Lagarta-das-fruteiras Argyrotaenia sphaleropa (Meyrick, 1909) (Lepidoptera: Tortricidae)

Descrição e bioecologia - Os adultos de A. sphaleropa são pequenas mariposas, sendo as fêmeas um pouco maiores que os machos. Apresentam as asas anteriores de coloração variável de castanho claro a castanho escuro, quase preto, com áreas vermelho escuro. Têm hábitos crepusculares e noturnos, mostrando-se pouco ativas durante o dia. A oviposição ocorre à noite, sendo os ovos depositados em massas irregulares e ligeiramente superpostas, sempre em superfícies lisas, principalmente na face superior das folhas. As fêmeas ovipositam em média 174,4 ovos, com uma longevidade de 7 dias. O período de incubação é de 6,2 dias na temperatura de 26 °C (Bentacourt & Scatoni, 1986, Bentacourt et al, 1988). As lagartas passam por cinco ou seis instares, com duração média de 17,2 dias. A fase de pupa é de aproximadamente 7 dias.

Sintomas e danos - As lagartas geralmente permanecem ocultas durante os primeiros ínstares, permanecendo ocultas na face inferior das folhas de videira. À medida que se desenvolvem, dobram a folha onde se encontram, alojando-se no seu interior, ou unem duas ou mais folhas, permanecendo entre elas. Além das folhas, as lagartas se alimentam dos rácemos, instalando-se freqüentemente sobre estes últimos. Neste caso, as lagartas de primeiros ínstares se alimentam do pedúnculo que sustenta os grãos, perfurando-o. Lagartas de tamanho maior se alojam entre os grãos, alimentando-se superficialmente dos mesmos, sendo sua presença evidenciada por filamentos sedosos entre os grãos.

Controle - O monitoramento de A. sphaleropa pode ser realizado utilizando-se feromônio sexual sintético, visando detectar o momento da ocorrência dos adultos no pomar. Os ovos de A. sphaleropa são parasitados por Trichogramma sp. (Hymenoptera: Trichogrammatidae). As lagartas são parasitadas por Apanteles desantisi e Bracon sp. (Hymenoptera: Braconidae), sendo a primeira mais abundante. Brachymeria pseudovata (Hymenoptera: Chalcididae) e Horysmenys sp. (Hymenoptera: Eulophidae) foram observados parasitando pupas no Uruguai. O controle quimico pode ser utilizado empregando-se os produtos da Tabela 3.

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Mosca-das-frutas Anastrepha fraterculus (Diptera: Tephritidae)

Decrição e bioecologia - A mosca-das-frutas apresenta a coloração amarela, medindo cerca de 8 mm de comprimento. Os adultos possuem duas manchas sombreadas nas asas, uma em forma de S que vai da base à extremidade da asa, e outra na forma de V invertido, no bordo posterior. A fêmea apresenta, no extremo do abdômen, a tereba, que funciona como aparelho perfurador e ovipositor (Figura 27). Antes de iniciar a reprodução, as fêmeas necessitam amadurecer os ovários. Para isso, alimentam-se de substâncias à base de proteínas e açúcares, que geralmente encontram nos frutos de espécies como goiabas, pêssegos, ameixas, uvas, pêras, nectarinas e outras, cultivadas ou nativas. A oviposição de A. Fraterculus é isolada, colocando um só ovo a cada postura. O número médio de ovos colocados por fêmea é de 400, sendo depositados cerca de 30 ovos por dia num período de aproximadamente 65 dias. Após a oviposição, as larvas eclodem em 3 a 4 dias alimentando-se nas bagas da uva. As larvas passam por três instares até atingir a fase de pupa que ocorre no solo e dura de 10 a 15 dias no verão, até 30 a 45 dias no inverno. O período larval, na temperatura de 25 °C, demora aproximadamente duas semanas, período que pode se prolongar por até 77 dias dependendo das condições ambientais. A cópula é realizada no quarto ou quinto dia após a emergência do adulto. Após o acasalamento e o amadurecimento dos ovários, a fêmea fecundada procura o fruto da planta hospedeira, na qual faz postura, continuando seu ciclo. Em resumo, o ciclo completo (ovo-ovo), demora, em condições ideais, cerca de 30 dias, podendo se prolongar até três meses ou mais. Os valores de biologia são referenciais, pois dependem do hospedeiro em que a mosca foi criada e do período do ano.

Figura 27
Fig. 27. Mosca-das-frutas, destacando o ovipositor nas fêmeas. (Foto: E. Hickel)

Sintomas e danos - A mosca-das-frutas ataca principalmente uvas para mesa, apresentando menor importância nas videiras cultivadas para processamento. O ataque é maior em cultivares tardias. O dano consiste na queda prematura dos frutos depreciando comercialmente os cachos. A picada do inseto é imperceptível a olho nu, porém, em uvas brancas, observa-se através da cutícula semitransparente, as galerias formadas pela alimentação das larvas.

Controle - Não existem informações específicas de manejo e controle da praga para a cultura da videira. As recomendações, adaptadas de outras culturas, são as seguintes:

  • Monitoramento dos adultos através de armadilhas do tipo McPhail (Figura 28) contendo atrativo alimentar a proteína hidrolisada a 5%. O atrativo deve ser renovado semanalmente, no momento da avaliação. Como a praga normalmente vem de fora do parreiral, recomenda-se instalar as armadilhas (4/ha) nas bordas do vinhedo. Outro atrativo que pode ser empregado é a torula, utilizando-se 4 pastilhas por litro de água.

    Figura 28
    Fig. 28. Armadilha para monitoramento da mosca das frutas (Foto: M.Botton).

  • A partir da constatação do inseto, fazer aplicação de isca tóxica em 25% da área do parreiral e repeti-la, semanalmente, ou logo após cada chuva. A isca é formulada com proteína hidrolisada ou melaço a 7%, adicionando-se um inseticida na dosagem comercial (Tabela 3).
  • Quando o número médio de insetos atingir mais de 1 adulto por armadilha/semana, realizar aplicação de inseticida em cobertura total (Tabela 3). Após a pulverização total da área, a isca tóxica deve continuar sendo empregada, bem como o monitoramento da praga. O controle deve ser repetido somente quando a população detectada através das armadilhas, voltar a atingir o nível de controle, respeitando-se um intervalo mínimo de 15 dias entre as aplicações de inseticidas em cobertura total.

  • espeitar os períodos de carência dos inseticidas

  • Em pequenos parreirais, o ensacamento dos cachos pode ser empregado para controlar a praga.

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Vespas e Abelhas

    Vespas e abelhas são insetos benéficos ao homem, porém, devido a escassez de alimentos durante o verão, acabam indo buscá-lo nos cachos de uva em maturação. As vespas ou marimbondos possuem mandíbulas bem desenvolvidas e rompem a película das bagas para sugar o suco que, ao extravasar atrai grande quantidade de abelhas (Figura 29). As abelhas acabam afugentando as vespas da baga rompida levando-as a romper outra baga em seguida, até secar todo o cacho (Figura 30). As principais vespas e abelhas que atacam a videira são Synoeca syanea, Polistes spp., Polybia spp., Apis mellifera e Trigona spinipes.

Figura 29
Fig. 29. Ataque de vespas e abelhas em uva. (Foto: E. Hickel)

Figura 30
Fig. 30. Bagas rompidas devido ao ataque de vespas e abelhas. (Foto: E. Hickel)

    O ataque de vespas e abelhas aos cachos de uva deve-se à falta de alimento (floradas) no período de maturação da uva, que vai de dezembro a março. Estes insetos, preferem néctar a qualquer exudato adocicado, sendo que a primeira fonte de alimento são as flores e não frutos. A falta de floradas está associado à ausência de matas nativas próximas aos parreirais, que forneceriam flores durante os meses de verão. Outra situação comum, é a falta de planejamento dos apicultores, que muitas vezes, superpovoam as áreas próximas aos vinhedos.

Controle - Plantio de áreas marginais aos vinhedos de plantas como o trigo mourisco ou girassol, que florescem no mesmo período de maturação da videira. O plantio do trigo mourisco pode ser iniciado na primeira semana de dezembro, escalonando-se o plantio a cada 15 dias. Esta prática irá suprir as abelhas de alimento no período crítico.
    As matas próximas aos parreirais devem ser reflorestadas com espécies como eucalipto, angico, canela lageana e sassafrás, louro, pau marfim, cambuim, maricá, fedegoso, carne de vaca, palmeiras e butiás, ampliando a fonte de alimento para estas espécies. Também pode ser fornecido alimento artificial às abelhas em comedouros coletivos.
    Quando possível, ensacar os cachos de uva próximo à colheita. Em último caso, empregar fungicidas repelentes às abelhas, como o captan.
    A destruição dos ninhos de vespas e abelhas deve ser feita com muito critério, pois as mesmas são auxiliares na predação de pragas e polinização de culturas.

Formigas Cortadeiras

    As formigas cortadeiras, tanto as saúvas (Atta spp.) quanto as quenquéns (Acromyrmex spp.) causam sérios danos à videira devido ao corte de folhas, brotos e cachos. O ataque de formigas é prejudicial em qualquer fase do ciclo, porém, o dano é maior na fase de formação da planta, quando paralisa o crescimento.

Controle - Dentre os principais métodos de controle das formigas cortadeiras, destacam-se as iscas formicidas e o emprego de inseticidas em pó.
    As iscas a formicidas (Tabela 4) devem ser utilizadas diretamente da embalagem, distribuindo os grânulos ao lado dos carreiros, próximo aos olheitos. A aplicação deve ser realizada com tempo seco para evitar que ocorra degradação dos grânulos devido a umidade. As iscas não devem ser armazenadas com outros produtos químicos, nem tocadas diretamente com as mãos, sob o risco de perda de atratividade (formiga não carrega). Os inseticidas em pó (Tabela 4) devem ser aplicados diretamente nos ninhos, através de insufladores.
    Em algumas situações, quando não é possível localizar os ninhos e o ataque está ocorrendo, pode ser utilizado gel repelente (Eaton's) que deve ser aplicado ao redor do tronco, em faixas de 2 mm de largura visando impedir que as formigas subam para cortar as folhas. Este método não controla a formiga, apenas evita o dano até que o formigueiro seja localizado e controlado.

Tabela 4. Inseticidas empregados no controle de formigas cortadeiras.

Ingrediente ativo Nome comercial Dosagem Formulação
Sulfluramida Mirex S S=8-10 g/m2 formigueiro
QQ=10-12 g/formigueiro
Isca
Fluramim S=6-10 g/m2 formigueiro
QQ=10-30 g/formigueiro
Isca
Formicida Gran. Dinagro-S S=6-10 g/m2 formigueiro Isca
Formicida Gran.Pikapau-S S=6-10 g/m2 formigueiro Isca
Isca Formicida Atta Mex-S S=6-10 g/m2 formigueiro Isca
Isca Tamanduá Bandeira-S S=6-10 g/m2 formigueiro Isca
Fipronil Blitz S=10 g/m2
QQ=5 g/formigueiro
Isca
Clorpirifós Isca Formicida Landrin QQ=8-10 g/formigueiro Isca
Isca Formicida Pyrineus S=5-10 g/m2 formigueiro Isca
Isca Dormifos S=10 g/m2 formigueiro Isca
Deltametrina K-Othrine 2P S e QQ=10 g/m2 formigueiro

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